Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A TORTO E A DIREITO

UM BLOGUE SEM PÉS NEM CABEÇA, A TRECHOS LÚCIDO, CONTUDO, TRANSLÚCIDO...MODÉSTIA À PARTE

A TORTO E A DIREITO

UM BLOGUE SEM PÉS NEM CABEÇA, A TRECHOS LÚCIDO, CONTUDO, TRANSLÚCIDO...MODÉSTIA À PARTE

TRISTE FADO, O DOS POETAS

pessoa.jpg

Após longa e forçada ausência da Pátria, Fernando resolve  regressar a Lisboa na companhia dos manos. Encorajado por uma anarco-sindicalista irlandesa, de nome Óscar, decide introduzir o modernismo em Portugal e em boa hora o faz porque, graças a esta inovação cultural, obtém uma tença vitalícia do "Presidente-Rei", Sidónio Pais, e o direito inalienável a comer uma sopinha até ao final dos seus dias.

Estabelece-se, então, no Largo do Intendente como astrólogo e tradutor, no que se aborrece supinamente, pois não está vocacionado para isso. Urge escrever, mas está difícil encontrar a veia poética devido a uma flebite crónica de que padece.

Álvaro, para o abstrair do desassossego em que vive, escreve-lhe cartas de amor a Ophélia Barbosa que Fernando, sempre muito reservado, ama em segredo.

Anos mais tarde e após a tentativa da relação amorosa com Ophélia ter fracassado, abala para Paris onde se envolve com um pintor, um tipo socialmente muito instável, chamado Santa-Rita. Este, por sua vez, deu-lhe a conhecer outro jovem poeta, curiosamente ligado à pesca do bacalhau, um romântico e boémio incurável nas horas vagas, Mário Gomes de Sá.

Porém, continua a negligenciar as suas actividades, tendo, nomeadamente, grande dificuldade em traduzir línguas mortas para línguas vivas por falta de visão e crises, cada vez mais acentuadas, de gota.

Perde dinheiro no casino, entra em falência e tenta fugir aos credores. Todavia, não passa da gare da Estação de Santa Apolónia, pois nem dinheiro lhe resta para o tabaco. Desesperado e à beira da loucura, escreve uma mensagem heróica em cima do joelho enquanto Alberto esfrega um olho.

António Mão de Ferro, editor de uma revista literária de carácter muito vanguardista para a época, cujo nome não recordo agora (pode ser que me lembre mais tarde), e um coração de manteiga, não obstante ser severo, também ele um modernista até ao tutano, concede-lhe uma bolsa de estudo nas tabernas do Cais do Sodré por feliz indicação do Centro Nacional de Cultura.

Por essa altura, Fernando, ainda longe do seu melhor, anima as noites do Grémio Literário, declamando poesia lírica camoniana para uma tertúlia muito restrita de figuras notáveis da intelectualidade alfacinha. Espaço onde também é frequente haver faustosos banquetes e, mesmo, sessões de espiritismo. Entre os habitués destaca-se a presença da fadista Florbela Espanta. A artista não falha uma, como é curial dizer-se.

Atravessa, então, o período mais criativo da sua carreira literária, mas também o mais boémio e dramático. Misantropo desde que sua mãe o abandonara e aos irmãos, à sorte, numa viela da Mouraria, entrega-se aos prazeres solitários num quarto de pensão da Rua dos Prazeres e joga às damas num salão de cabeleireiro ao Jardim dos Prazeres com uma manicura brasileira, Gustava dos Prazeres.

Por essa altura também lhe retiram, injustamente, uma menção honrosa nos primeiros Jogos Florais de Alcabideche por suspeita, que mais tarde se revelou infundada, de plágio de uma estrofe do poeta fascista, António Correia do Olival.

Finalmente, morre em Lisboa em 30 de Novembro de 1935, nos braços de um amigo, por alcunha "o Almada", com cirrose e uma overdose de ansiolíticos; alegadamente, sem fé em Deus. Certo é que, por coincidência ou obra do destino, exala o último suspiro no ano da morte de Ricardo. Não se sabe, ao certo, se os outros dois irmãos morreram antes ou depois dele, mas, segundo os mentideiros habituais, entre os quais saliento um tal Bernardo que parece ter sido um meio-irmão do poeta, nenhum escapou, nem mesmo o próprio (o Bernardo), carecendo tal afirmação de comprovação científica.

Actualmente, alguns apaixonados pela sua obra ainda regateiam, aos sábados na Feira da Ladra, as ceroulas, os lenços, as camisas do poeta e, pasme-se, os bilhetes de eléctrico que ele guardava religiosamente! Triste fado, o seu...

POEMA PRÓ PUDOR

cesário verde.jpg

Todas as noites ela me cingia
Nos braços, com brandura gasalhosa;
Todas as noites eu adormecia,
Sentindo-a desleixada a langorosa.

 

Todas as noites uma fantasia
Lhe emanava da fronte imaginosa;
Todas as noites tinha uma mania,
Aquela concepção vertiginosa.

 

Agora, há quase um mês, modernamente,
Ela tinha um furor dos mais soturnos,
Furor original, impertinente...

 

Todas as noites ela, ah! sordidez!
Descalçava-me as botas, os coturnos,
E fazia-me cócegas nos pés...

 

Cesário Verde, in O Livro de Cesário Verde

 

José Joaquim Cesário Verde: 1855 - 1886, poeta...

INSÓNIA

insónia.jpg

A manhã mal acordada

O intervalo do cigarro

O oceano escancarado

Vejo o Tejo a beijá-lo

 

No paraíso replantado

A eternidade embrutece

No lusco-fusco da placa

Quebro à saudade, anoitece

 

Não mato, matuto o tempo

Esquadrinho o calendário

Risco o dia no armário

Penduro o fardamento

 

Trezentas páginas de encanto

Repousam brancas sobre a mesa

O diluente da tristeza

Torna mais espesso o meu pranto

 

Mortalha queima, mal a sinto

Derramo o último chuveiro

Enquanto, alheio, o dia teima

Perpetua-se noite adentro

 

Quiçá Morfeu se compadeça

Das minhas penas e me ofereça

O prazer sublime do seu colo

E extinga enfim meu pensamento

 

Poema criado a partir de uma prosa que escrevi, há mais de quarenta anos, durante a minha comissão na guerra da Guiné, da autoria do Zé Resende (ex-Sitiados), poeta e músico nas horas vagas.

COISAS PEQUENAS

coisas pequenas.jpg

Coisas pequenas

Maisenas, novenas

São sempre açucenas

Em jarras de cacos

 

Coisas pequenas

São cenas serenas

Sorrisos apenas

Nos velhos retratos

 

Coisas pequenas

São mães madalenas

Moídas nas penas

Dos filhos ingratos

 

Coisas pequenas

São lágrimas mudas

São mudas de penas

Levantem-se os pratos

 

José Resende, poeta e músico nas horas vagas.

Mais sobre mim

foto do autor

NOTA MUITO IMPORTANTE

O AUTOR DESTE BLOGUE ESTÁ-SE A MARIMBAR PARA O ACORDO ORTOGRÁFICO!

ESPREITADELAS

hitwebcounter

FLORES DE MAIO

Mensagens

JAZZ COM BIFANAS

O SEU A SEU DONO

Se, neste blogue, houver lugar à existência de qualquer violação de direitos de autores de obras intelectuais, agradeço que me contactem através de joaoratao1@sapo.pt (ou aqui), por forma a poder corrigir a situação. Obrigado.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D

Calendário

Dezembro 2019

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031

Comentários recentes

  • Anónimo

    Bocage in "O Bordel Português"Saudações cordiais

  • Anónimo

    Faz-nos pensar que, aqui e ali, ainda se vão encon...

  • Anónimo

    Faz lembrar essa grande quadra de autor desconheci...

  • Anónimo

    Eu ia dizer - que f.... da ..... de texto tão rico...

  • João Ratão

    Pois, com certeza, nem refuto!

subscrever feeds

Posts mais comentados

Pesquisar