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A TORTO E A DIREITO

UM BLOGUE SEM PÉS NEM CABEÇA, A TRECHOS LÚCIDO, CONTUDO, TRANSLÚCIDO...MODÉSTIA À PARTE

A TORTO E A DIREITO

UM BLOGUE SEM PÉS NEM CABEÇA, A TRECHOS LÚCIDO, CONTUDO, TRANSLÚCIDO...MODÉSTIA À PARTE

REQUERIMENTO AO REI

gomes leal.jpg

 

Visto que aquela antiga fibra histórica

da Honra é coisa velha, e que não vale um chavo,

e a Justiça uma flor sòmente que a Retórica

põe à janela, ao sol - como a burguesa um cravo;

 

 

 

Visto que aquele forte e antigo herói, o Brio,

que andou na Grécia, em Roma, em Diu, Aljubarrota,

é hoje um velho tonto, asmático, com frio,

que traz um chapéu pífio e uma casaca rota;


Já que é ainda a Igreja, a exótica coruja,
que odeia o recto sol, e só em trevas anda,

e a Moral uma colcha, aparatosa e suja,

que D.Instituição estende na varanda;

 

Já que da antiga Lei, a deusa cuja porta

entravam a tremer as almas mais tigrinas,

resta a pele hoje só duma pantera morta,

onde se põe os pés mimosos das meninas;

 

Já que é «Amor do Bem», a cândida bonina,

que o Estado põe ao peito, e que enternece os tolos,

e a Economia ideal, chorosa cavatina,

que a Monarquia canta em noites que dá bolos;

 

Já que é a ilustração o grande dó do peito,

que a Ordem faz soltar duma garganta d'ouro,

e o Progresso, o gentil, mimoso amor-perfeito,

que a loura opinião bordou para o namoro;

 

Pois que chamam ao Génio um louco - que se mete

a lutar contra os reis e mais os seus furores

que não arrasta o estro em forma de

tapete, nem faz da Inspiração um capacho de flores;

 

Visto que é inda hoje, o heróico Pensamento,

o crânio que combusta a lava do trabalho,

um doido, um pobretão, que na trapeira, ao vento,

namora D. Ideia, e come açorda d'alho;

 

Visto que é hoje o Estudo um sórdido trapeiro,

cuja lanterna desce aos antros onde há gritos,

e a austera Probidade um reles pardieiro,

desabitada há muito, e há muito com escritos;

 

Enfim, já que não tem o Roubo antipatias,

o ferro em brasa, o estigma, as infamantes notas,

- é preciso extirpar, ó rei! as regalias

do que furta milhões sobre o que furta botas.

 

É preciso extirpar o preconceito sério

contra o gatuno audaz, jovem, mas sem bom senso,

que não pôde trepar ainda a um ministério,

e teve tempo só para furtar um lenço.

 

É forçoso arrancar o vil labéu do pobre

ratoneiro em botão, gatuno inda em raiz,

que nos subtrai do bolso um desprezível cobre,

por não ter inda a jeito a burra do País.

 

E sendo iníquo, enfim, uns rirem na opulência,

outros apodrecer num cárcere corrupto...

eu ergo ó rei! a voz ante a vossa clemência,

e em nome da Equidade, em nome da Coerência,

- requeiro a liberdade do Matuto.

 

António Duarte Gomes Leal(1848-1921), poeta e crítico literário português.

DOM JOÃO I

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Olá, caros e caras amantes da boa leitura. Cá estou, mais uma vez, a debruçar-me sobre uma das minhas grandes paixões: A História de Portugal, como sabem. A talhe de foice quero-vos pedir desculpas por alguns anacronismos que possam surgir numa ou outra passagem deste artigo, mas sem eles isto ainda tinha menos piada, acreditem.
Já aqui tinha aflorado, levemente (passe a redundância), um dos períodos mais marcantes da nossa História, sob o título "A Ínclita Geração. Todavia, achei que seria injusto não abordar, mesmo em síntese (para uma abordagem mais profunda, queiram consultar as obras completas do professor José Mattoso), os percursos de algumas personagens que marcaram essa época. Ou, pelo menos, descrever mais algumas particularidades das suas vidas que me parecem relevantes. "No fundo é um esforço pessoal, sem fins lucrativos" (já escrevi esta frase em qualquer lado, peço desculpa), no sentido de que as novas gerações, que continuam a ser tudo menos "rascas", não esqueçam os feitos heróicos dos nossos antepassados. Vamos lá, então, porque sei que é do vosso agrado recordar as façanhas dos nossos "egrégios avós" e o saber não ocupa lugar, como disse alguém, não sei quem. Adiante que o Zé pestana reclama pelo meu descanso.

Então, reza assim, menos conto mais ponto ou vice-versa: Depois daquele período fantástico ao qual se convencionou chamar Interregno, subiu ao trono, leve como um passarinho, apesar da obesidade mórbida de que padecia - passe o paradoxo - , Dom João I, o de "Boa Memória", filho bastardo de uma relação extra-conjugal entre Dom Pedro I e uma cortesã galega danada para a brincadeira.
João era um cromo do caraças, pois conseguia recordar-se, tintim por tintim, de todas as batalhas travadas contra Castela e, naturalmente, contra os infiéis do Estado Islâmico. Também sabia, de cor e salteado, os nomes dos presidentes portugueses, desde Teófilo Braga até ao professor Marcelo, sem esquecer a raiz quadrada de nove. Para aquele tempo era obra! Contudo, o nosso rei, que era muito belicoso, sentiu a necessidade de ter alguém, como seu braço direito (como sabem, ele tinha perdido o braço numa das incontáveis batalhas que travou e nunca se ajeitou com o esquerdo), que percebesse algo mais acerca da arte da guerra.
Ora, como o General Sun Tzu já estava aposentado da tropa, ia para vinte e um anos e seis meses; para mais, andava sempre a dormir na fila por via da sua dependência do ópio, Dom João I pensou que a escolha do general seria uma má opção. Ademais, para piorar a situação, viajar da China até cá, seguindo a rota da seda, demorava cinco anos e nove meses, mais coisa menos coisa. Assim, optando pelo mal menor, decidiu que Dom Nuno Álvares da Câmara Pereira, na altura já com 56 anos (idade muito avançada para a época) e cheio de bicos de papagaio, ainda estava apto para ser novamente mobilizado. Continuaria como o Incontestável do reino (não confundir com o Santo Condestável, dado que DNACP era muito instável).

É claro que ninguém ousou contrariar a decisão do rei, sob pena de ir parar às masmorras de Fez, lá para os lados do reino de Marrocos, que era uma prisão com muito má reputação (para quem não sabe). O Infante Santo que o diga!...
O problema é que os sacanas dos castelhanos não desarmaram - aliás, estavam muito mais bem armados q'a gente - e entraram em Trancoso (segundo o professor José Mattoso, eles entraram em Viseu, carecendo, ambas as teses, de confirmação científica), cheios de más intenções.
Os portugueses, em menor número e bestialmente mal armados (é o costume, nunca há bestas que cheguem para todos), formaram-se em dodecaedro e derrotaram os espanhóis à trancada q'é por causa das tosses. Esta batalha vem descrita nas Profecias do Bandarra, famoso sapateiro de Trancoso. Façam o favor de as ler; a preguiça intelectual é muito feia!
Porém, o rei de Castela não quis abdicar, do pé para a mão e muito menos da mão para o pé, deste torrãozinho à beira-mar plantado e, em meados de 1385, voltou a invadir terras lusas, desta feita com um exército altamente apetrechado e fortemente motivado. Pudera, pois nem todos os exércitos se podem gabar de trazer consigo um canil completo; inclusive com um veterinário e tudo! Traziam, também, canhões sem recuo da Primeira Grande Guerra, capturados aos hunos, e até umas roupinhas fim de estação que haviam sobrado das últimas "rebajas de verano", imaginem!
DNACP que não havia nascido ontem, muito antes pelo contrário, e sendo instável, mudou de táctica e desta feita avançou ao encontro dos invasores com um pequeno exército de pouco mais de meia dúzia de gatos pingados, mas com uma fé inabalável numa vitória esmagadora.
O encontro teve lugar numa povoação denominada, ao tempo, Ajubarrota (do árabe Al Juba Rota, topónimo que se manteve quase até aos nossos dias. Actualmente, chama-se Aljubarrota), junto a uma padaria cujo dono, um possante e garboso padeiro chamado Beatriz Brites de Almeida, ficou lendário por ter despachado, à pazada, uns quantos castelhanos que se tinham escondido no forno da sua padaria. Prometo que, lá mais para a frente, dedicarei um artigo a este famoso padeiro de Aljubarrota. Prossigamos, senão disperso-me.
O exército português dispôs-se, desta vez, em icosaedro regular, não tendo qualquer dificuldade em dispersar as tropas inimigas, as quais foram parar a Salamanca sem saberem como nem porquê. Pode-se dizer que foi uma vitória e pêras (ou em toda a linha se vos soar melhor), graças à estratégia instável do Incontestável do reino.
É óbvio que o bom êxito das nossas tropas sobre os nuestros hermanos, só foi possível graças à mais "velha aliança" que Dom João I fez com os ingleses. Os "bifes" apoiaram-nos, enviando para cá umas bestas já obsoletas, utilizadas na guerra dos cem anos, e Dona Filipa de Lencastre que media mais de dois metros de altura e pesava cerca de cento e cinquenta quilos, sem confirmação oficial...
O rei, para consolidar a "velha aliança", casou-se com Dona Filipa e, de uma assentada, fez-lhe oito filhos, não se sabendo qual o método que utilizou para o efeito, dado que só media um metro e cinquenta e dois centímetros de altura. Mas, lá que foi um feito (aliás, oito), isso é insofismável! Porém, como nesse tempo ainda se estava muito longe da eficácia dos actuais testes de paternidade, jamais se saberá se, efectivamente, seriam seus. Uma coisa é certa: Dona Filipa de Lencastre era uma rainha muito mundana e dada a festas; nomeadamente nocturnas. Por outro lado também é consabido que o rei passava mais tempo na guerra do que na corte, descurando, assim, as suas obrigações conjugais...
Bom, mas deste badalado casamento, resultou, então, a chamada "Ínclita Geração", de que faziam parte Dom Duarte que foi rei, Dom Pedro que foi culto, Dom Henrique que foi navegador, Dom Fernando que foi mártir e santo, Dom João que foi infante e Dona Isabel de Herédia que foi uma Borgonha e casou, séculos mais tarde, com Dom Duarte Pio, bispo de Bragança.
Dom João I, para além de um excelente fazedor de filhos (sem confirmação científica) e um valente guerreiro que nos deu livre esta nação, era um excelente contador de histórias; sobretudo, histórias da carochinha. Diz-se, embora sem comprovação, que este monarca também era muito amigo do povo, concedendo-lhe algumas regalias (naquele tempo ainda não se falava em direitos fundamentais, livre arbítrio e outras tretas modernas da democracia) e muito justamente porque o povo sempre o tinha apoiado nos momentos mais difíceis da sua reinação (reinação porque o rei, quando não estava a guerrear, estava na pândega) e até antes, durante a campanha eleitoral.
Recorde-se que, se não fosse a plebe, ele nunca teria sido rei porque era gordo e muito baixinho. Assim, por decreto régio, decidiu criar uma câmara baixa, por contraposição com outra já existente, a câmara alta (só para os lordes). Diga-se, em abono da verdade, que o fez sob a influência de Dona Filipa de Lencastre, aliás, Philippa of Lancaster. Com a extraordinária e persuasiva presença da consorte, o rei limitava-se a assinar por baixo.
Dom João I, para além de rei d'Aquém, também pretendia ser rei d'Além-mar e levar a fé cristã até aos povos pagãos de outras paragens. Em face dessa tão nobre ambição, decretou a constituição de uma poderosa e "invencível armada" de cerca de duzentas naus catrinetas, uns tantos barcos rabelos de apoio logístico e a malta lá rumou até Tanger, com largada do cais do Sodré. Foi difícil, mas, com jeitinho, couberam todos e não houve abalroamentos. Decorria o ano de 1415, fazia um calor de ananases e o vento não estava de feição para o velame. Contudo, fizeram-se ao mar da Palha, remando contra a maré.
Entretanto, o Infante Dom Henrique, em gozo de férias na Ponta de Sagres, pôs-se à coca a ver se os via passar para além da Taprobana (que me desculpe, mais uma vez, o professor Mattoso, por alguma incorrecção histórica, mas a minha memória não é tão boa, como foi a do Mestre de Avis).
Henrique deu novos mundos ao mundo, de facto é facto, mas isso será tema para outra história porque já estou com uma soneira do caraças. Vou abreviar isto às três pancadas, desculpem lá!
Foi mais ou menos por essa altura que DNACP decidiu recolher ao convento das Carmolitas de Nossa Senhora do Carmo(*) para se dedicar à prática do bem, donde se deduz que até ao seu recolhimento tinha sido um grande bargante...

(*) Actualmente, só restam ruínas deste convento que, como é do conhecimento geral, ruiu juntamente com a Trindade durante o terramoto de 1755. Daí a expressão corrente, "cair o Carmo e a Trindade".

MAIS UMA ACHEGA PARA A HISTÓRIA DE PORTUGAL

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Confesso que, quando escrevi o primeiro artigo sob a epígrafe, nunca pensei que ia ter de retorno tanto élan mediático e tanto carinho para continuar. Simultaneamente também senti o apelo sagrado dos nossos heróicos antepassados e a pressão expectante dos que hão-de vir depois de mim e, só assim, tive a percepção extra-sensorial de que tenho o dever de prosseguir na valorização da nossa História que anda tão arredada do conhecimento geral. Para além do mais, é reconfortante pensar que passo, mas o meu legado permanecerá perene, "per saecula" (segundo o tradutor do Google que eu de latim pesco zero).

Depois de tudo isto - e não é pouco - cada vez que me olho ao espelho, vejo reflectida a imagem de um gajo feliz porque tem a perfeita noção de que está a prestar um enorme serviço à folha, analisando e dissecando os factos mais significativos cá do burgo.

A seguir a este intróito facilmente digerível, prossigamos, então, na demanda do saber da História Pátria.


Debrocemo-nos só um bocadinho (sem exagero) sobre a primeira dinastia, nomeadamente acerca de Dom Sancho I que, como sabem, era filho do primeiro rei de Portugal: Que espécie de garanhão teria sido, para merecer o cognome de "O povoador"? E o que seria de Portugal sem o seu - digamos - contributo?
É fácil de pressupor que seríamos um país deserto, com meia dúzia de mouros convertidos ou, pelo menos, envergonhados, e alguns cristãozitos novos espalhados por esta bestial imensidão territorial que o Afonso Henriques nos legou. Sim porque nos primórdios da nacionalidade já a Santa Inquisição fazia das suas para garantir uma fé católica com um elevado nível de qualidade, perseguindo, torturando e matando malta das minorias étnicas a torto e a direito, nomeadamente mouros e judeus. Era ver os malvados católicos, uns espertalhaços do caraças, a incitar à violência contra as mourarias e judiarias. É indescritível porque era uma carnificina pegada. Palavra, juro que isto não é ficção!

Ninguém escapava às malhas do Santo Ofício. Aliás, a bula emitida pelo Papa Alexandre III, a 23 de Maio de mil cento e qualquer coisa (é consultar a História da Vida Privada em Portugal, do Professor José Mattoso), que declarou o Condado Portucalense independente do Reino de Leão, reconhecendo o tratado de Samora Correia (não confundir com Samora Machel, cujo foral só lhe seria atribuído, séculos mais tarde), só teve efeito retroactivo quando Afonso Henriques se comprometeu, sob a honra de sua mulher, Dona Matilde condessa de Sabóia e Maurienne, a expulsar os jihadistas islâmicos do reino de Portugal (o dos Algarves ficaria para mais tarde) e a converter os gentios à fé cristã, a bem ou a toque de caixa. Mas regressemos a Dom Sancho I, divaguei novamente, peço desculpa.   


Pacientemente, Sancho (não confundir com o Pança que só viria a nascer uns séculos mais tarde) andou por aqui e por acolá a povoar feito um obstinado, a encher ventres de Sanchinhos e Sanchinhas, dando desse sacrifício um exemplo de abnegação aos assépticos e escassos habitantes da novel nação.

Consequentemente, só bastante mais tarde é que Carlos I teria sido alvo de regicídio e, por conseguinte, seria implantada a república que teve em Aníbal Cavaco Silva o expoente máximo do seu esplendor (da república, evidentemente).
Muito tempo depois ou talvez antes, quem sabe, Thomas Edison substituía os candeeiros a petróleo da sua casa por lâmpadas eléctricas o que foi considerado, na época, uma inovação muito engenhosa.

Seria imperdoável omitir, aqui, o papel predominante e igualmente inovador do nosso rei Dom Dinis que, mais ou menos na mesma ocasião, mandou plantar o pinhal da Azambuja, conseguindo com essa ideia megalómana, mas deveras avançada para a altura, deter as areias movediças da Ericeira que ameaçavam soterrar o planalto de Santarém.
Dinis era um tipo muito cultivado e um excelente trovador, como é consabido; está escrito. Porém a sua grande paixão foi sempre a agricultura. Para o rei lavrador, amanhar a terra era trigo limpo e favas contadas e, contra isso, batatas. A talhe de foice, convém recordar que foi ele que inventou um analgésico (não confundir com medicamento para as hemorróidas) à base de essência de batatas, dado que o Paracetamol - passe a publicidade - só seria comercializado séculos mais tarde.

Os contemporâneos do rei, diziam que era uma pessoa muito à frente, porém muito simples e muito querida do povo. Todavia não acreditava em milagres. Míope como era, não via com bons olhos as acções caritativas de sua esposa, Dona Isabel de Herédia, mais tarde morta e muito mais tarde santa.

Vale a pena recordar, um tanto, aquele milagre que ficou para a História, lembram-se? A cena em que o rei interpelou a rainha, querendo saber o que é que ela trazia escondido no regaço e Dona Isabel, naturalmente atrapalhadíssima, teria respondido que eram "pepinos, meu senhor!" e, deixando cair o regaço - salvo seja - logo se soltaram doze lindas pombinhas brancas que esvoaçaram graciosamente até às cabecinhas dos pobrezinhos que a ladeavam e que, instantaneamente, se transformaram em "burritos" de peitinhos de pomba. Milagre puxa milagre, sabem o que é? O resto já tinham obrigação de saber...

Depois deste episódio singular e muito comovente, e vencido o rei, embora não convencido, lá teve que dar a mão à palmatória, lançando as raízes da provedoria da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, nomeando para o efeito uma personagem enigmática, mas - dizia-se - com vastos pergaminhos nesse domínio, um plebeu sem brilho chamado Pedro Santana Lopes. Parece ter sido uma decisão leviana do rei, mas, enfim, era lá com ele, o homem era soberano.
Entretanto devem ter havido montes de batalhas com os mouros, conflitos de interesses com os castelhanos e demais chatices. No entanto, se quiserem aprofundar os vossos conhecimentos acerca deste e de outros episódios marcantes, sugiro que consultem também o Compêndio de História Medieval do Professor Mattoso.
Apesar de tudo é de primordial importância esmiuçar os meandros, reflectir sobre os factos, meditar, por exemplo, sobre a sucessão dos reis desta dinastia tão decisiva para a independência nacional.
Voltando a Dom Dinis, suponhamos, só a título de curiosidade, que o rei já lavrava muito antes de Afonso conquistar Lisboa ao Estado Islâmico ou que Fernando poderia ser gordo, sendo um gajo formoso, ou que Afonso II, sendo gordo, poderia ser povoador ou mesmo Pedro I que, apesar de cruel, poderia ser gordo, borgonhês, povoador ou lavrador.
Suponhamos, ainda, que Leonor Teles, uma aleivosa do piorio, com a qual seu filho, Afonso Henriques, não ia à bola, dobrava o Cabo das Tormentas, casando-se depois em segundas núpcias com o "Doutor" Cassola de Miranda Relvas. Teríamos a primeira dinastia toda desordenada e não surgiria, possivelmente, esse período que foi, talvez, o mais belo da nossa História e que mereceu o nome de Interregno. Dá para reflectir um pouco, vá lá, puxem pelas cabeças!


E pronto; depois de mais esta achega, prometo que, brevemente, tentarei demonstrar como os portugueses, dispostos em dodecaedro regular, derrotaram os fenícios em Alcoentre, graças a um incontestável (não confundir com Condestável) entusiasta dos jogos de estratégia, Dom Nuno Álvares da Câmara Pereira. Séculos após essa famosa batalha épica, reinventou-se uma nova e próspera nação que culminou no milagre económico actual, tão elogiado por um ministro teutão que, quiçá, num momento de epifania, imaginou ver Mário Centeno na pele do CR7. Vai daí que o 'nomeou' ponta de lança da selecção europeia; não é bestial?! Esperemos que se porte na ponta da unha e não desate a dizer que alguns colegas estoiram a massa em noitadas, putas e vinho verde...

Finalmente, e contrariamente ao que se esperava, o país está porreiro porque alguém, num acaso oportuno e feliz de profunda e demorada inspiração (ou apneia, tanto faz) apelidou esta maravilhosa reinvenção de "geringonça". 

Assim, o alento me ilumine, também, as ideias...

A REPÚBLICA

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Acto 1:

A República tem exercido em mim, desde que me conheço, um enorme fascínio. Isto, só para não dizer encantamento que é a mesma coisa. Deslumbramento pela figura sensual, pelas maminhas empinadas e por aquele lindo barrete enfiado na cabeça. Um "tesão", parafraseando aquele cara lá do outro lado do Atlântico, cujo nome não me ocorre.
Tenho-a venerado que nem um doido em fotografias, xilografias, litografias, fantasias, desenhos, bustos de gesso e até em perturbantes sonhos nocturnos que me escuso de descrever por uma questão de decência. Porém, por muitos e infelizes acasos, nunca tive oportunidade de a conhecer em carne e osso. Penso que tem sido a grande falha e o grande drama da minha pobre existência. Sim, sem ela sou o mais pobre dos pobres!
Amo-a desde pequenino. Acima de tudo e por amor a ela tornei-me a mais desgraçada e solitária das criaturas ao cimo da terra. Sem a República, a vida não tem sentido; tudo se torna indigno da minha devoção.
Debalde (não confundir com de balde, até porque não se enquadra neste contexto), perdi dias, meses e anos a fio, à procura daquela que tinha eleito como a rainha do meu coração e, afinal, em vão (era chato repetir debalde).

Acto 2:

Oh, minha amada República! Estou convicto de que se soubesses a pureza dos meus sentimentos e das minhas intenções, render-te-ias a esta paixão avassaladora, fofinha!
Esta coisa é "fogo que arde sem se ver" e consome-me as entranhas do ser mais profundo, pois se "fora" possível iria mais fundo! Oh, senhores, o amor não correspondido é uma coisa muito aborrecida (estavam à espera que eu escrevesse uma asneira, n'era? Devem pensar que eu sou como o MEC, não?)!
Há dias, mirei-te numa capa de livrinho, gasto pelo tempo, exposta numa vitrina suja de um alfarrabista da baixa e o meu coração parecia que me ia saltar do peito. Estavas insuportavelmente linda, alta, a atirar para o cheiinho - como gosto - , num deslumbrante desnudamento e num arrebatamento tão natural na tua condição de pátria involuntária. Sim, porque não tiveste culpa de teres sido escolhida em pretérito da outra! Aconteceu porque sim e tu foste na onda. E foi lindo ver hastear aquela majestosa bandeira nos Paços do Concelho, ainda que ao contrário. Compreensível, num dia tão inesquecível...
Assentava-te tão bem o escudo armilar (oh, meu Deus, o escudo armilar, que excitante!) numa mão e a lança na outra que até já foi em África. Ai, como desejei ser vitrinário naquele momento! Só Deus sabe, a despeito do meu agnosticismo...
Mais te amei naquela parcela tão diminuta de tempo e beijei a montra feito um louco, indiferente a quem passava.
De pronto, parti no teu encalço, não obstante gostares de andar descalça, minha gazela doce e paradoxalmente selvagem.
Regressei tal como parti: triste e desiludido, embora, à partida, ainda me restasse uma centelha de esperança.
Percebi que me evitavas, quiçá, por usar óculos ou não ser alto e consistente como tu.
Porém, amor, se pensas que vou manter esta toada de sofrimento, bem podes tirar o cavalinho da chuva! O tempo tudo cura, mesmo que este coração, agora, sangre abundantemente por ter ficado preso aos teus encantos.
Não julgues que me derrubas por via de um amor não correspondido, querida República! Pelo contrário, dás-me cá uma risota! É tão bom ser-se assim tão idiota. É bué giro ser-se um parvo chapado, gargalhar alarvemente, mas é raiva certamente, porque te sou indiferente.
Sou tão míope que não sei o que vejo em ti! Se fizesses um esforço, podias ver que não sou tão xarope e parvinho de todo e até podia chegar-te aos calcanhares com uns sapatos de tacão alto!
Prometo que te esqueço e vou para outra mulher, quiçá a Monarquia que, apesar de poeirenta e cheirar muito a mofo, ainda é capaz de romper meias-solas. É só falar com o Dom Duarte Pio que é mais pio do que tu...

Acto 3: (se calhar, epílogo soava melhor, mas que se lixe!):

"Ai de mim, mas de (ti) ai, que eu morrendo, (não) entendo" (com a devida vénia ao porreiraço do meu amigo, Luís Vaz).

CAMÕES

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Primeira estrofe do Canto I, dos Lusíadas:

As armas e os Barões assinalados,
(Porém, jamais apanhados),
Que da Ocidental praia Lusitana
(Sumiram com toda a grana)
Por mares nunca de antes navegados
(Submergiram e não foram achados)
Passaram ainda além da Taprobana
(Bermudas, Granada e Guiana)
Em perigos e guerras esforçados
(Por avara riqueza se viram ousados)
Mais do que prometia a força humana,
(Todavia, exaltando a mente insana)
E entre gente remota edificaram
(Com mais valias que daqui levaram)
Novo Reino, que tanto sublimaram,
(Em édenes que alcançaram)

 

A BOMBA ATÓMICA PORTUGUESA

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Eh pá, ando cá a cismar com uma ideia há algum tempo e decidi revelá-la. Sei lá; há coisas q'a gente não pode, simplesmente, guardar, mesmo que sejam falsas e, afinal, a falsidade até está na moda, n'é? Aliás, segundo Descartes que, como sabem, era um filósofo céptico c'mo caraças, esta e outras ideias são um produto de uma imaginação febril e, nessa perspectiva, existe uma necessidade imperiosa de as partilhar com alguém.

A relevância deste sentimento de identificação, digamos assim, prende-se com um aspecto de primordial importância para a nossa sobrevivência como país soberano. Se é que as pessoas ainda têm alguma noção do seu significado. Trata-se de um elemento fundamental para a nossa continuidade como nação independente, evidentemente!
Ora, a minha convicção é a de que estamos muito desprotegidos. A nossa defesa e integridade territorial andam um bocadinho à deriva; não conseguimos impor respeito, inclusive àquelas couvinhas de Bruxelas, e acho que é uma situação muito comprometedora para a nossa credibilidade internacional e, por consequência, deixa-nos muito expostos.

Penso que devíamos por cobro a essa falta de consideração, pá! Todos querem botar a pata em cima de nós e não pode ser! Temos que acordar deste maldito torpor Sebastianista que nos persegue há séculos, caraças! O que lá vai, lá vai. É tempo de olharmos em frente e fazer cumprir Portugal!
E, assim de repente, lembrei-me da história dos submarinos e surgiu-me uma ideia que julgo que seria do agrado da Armada, nomeadamente do almirantado, e da generalidade dos generais. 

Estou convicto de que ainda há patriotas, sabendo, contudo, que nos debatemos com uma crise de falta de patriotismo que até dá dó! Ao menos valham-nos as honrosas excepções dos políticos da nossa praça, designadamente, aqueles valorosos que estão lá fora, há uma porrada de anos, a lutar pela Pátria no Parlamento Europeu.
E é aqui que entra o conceito que está na base deste artigo: a bomba atómica. Pergunto porque carga d'água é que há países que têm bombas atómicas e nós não temos? Vá, expliquem-me! Lá porque somos pequeninos não significa que tenhamos menos valor, que diabo! Aliás, até se costuma dizer que os países não se medem aos palmos e, nestas coisas, dou a mão à palmatória da sabedoria popular.
Por isso acho que também devíamos ter uma bomba atómica. Das melhorzinhas, claro. Não queremos cá a porcaria que os americanos já não usam! Mesmo que fosse pequenina! Dava-nos uma jeiteira do caraças!
O ideal era - e aqui é que entra a prestimosa e elevada colaboração do nossa Armada - instalá-la num dos Tridente; sim porque a gente só quer uma, não são necessárias mais. Ficava instalada bem à vista para suscitar algum respeito aos transatlânticos que atravessam o estuário do Tejo num constante vai e vem. Assim, os turistas palermas que nos visitam, já podiam ir contar lá para os seus países que a gente também tem uma bomba atómica e não está para brincadeiras!
É claro que é preciso ter sempre algum cuidado. Imaginem que esta estrangeirada é mal intencionada e resolve não regressar aos países de origem. Com que intuitos, vá, digam?! Isto, agora, todos os cuidados são poucos, pois por trás da aparente bonomia de um nórdico, pode-se esconder um potencial jihadista islâmico! Assim, para evitar surpresas desagradáveis, levavam logo com uma bujarda de aviso que até andavam de roda e punham-se logo na alheta que era limpinho! Só para não se armarem em parvos! E depois fossem lá fazer queixinhas ao Totta q'a gente até agradecia; até era bestial para a nossa auto-estima, diga-se de passagem!
A propósito de auto-estima e antes que me esqueça, quero reforçar a minha mais profunda admiração pelo nosso falecido rei, D.Sebastião "O Desejado". Ainda estou convicto de que, um dia, sobretudo com nevoeiro, ele há-de vir, se Deus quiser. Não me posso esquecer daquela sua célebre frase "mais vale ser rei por um dia, do que escrava toda a vida", lembram-se? Se isto não era auto-estima, então era o quê? Bem, é assim: não sei se foi ele, se foi o Padre António Vieira, ou o Fernão Mendes Pinto, mas isso não é muito relevante. O que é relevante é que tenhamos em mente que de Espanha nem bons ventos, nem bons casamentos. Vejam o caso dos ex-soberanos, Juan Carlos e Sofia que dormem em camas separadas desde que se casaram, ou o da infanta Cristina, envolvida em escândalos de corrupção, juntamente com o seu marido, um conhecido mafioso com ligações ao meio empresarial.
Já não há monarquias como no tempo do D. Afonso Henriques. Se bem que o que ele fez à mãe foi uma javardice, pá, não se faz! Todavia, penso que os portugueses o perdoaram há muito porque desse triste episódio resultou este belo canto à beira-mar plantado, como a malta gosta de dizer.
Mas, voltando à vaca fria dos espanhóis ou melhor, ao "Toro de Osborne", é preciso estarmos atentos, ou como diz o outro, estar com um olho no burro e outro no cigano. Lá diz o ditado de que de Espanha nem bons ventos nem bons casamentos. Portanto, cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém.

Esta coisa de partilharmos há séculos a mesma península, não obsta a que um dia, enquanto estivermos a dormir, os gajos não se lembrem de entrar por aqui adentro, aproveitando o facto de termos o mau costume de adormecer de cu para o ar.
Por essas e por outras é que era ideal termos a tal bomba atómica preparada para qualquer eventualidade. Além disso, se os "nuestros hermanos" soubessem que tínhamos uma coisa dessas, pensavam duas vezes antes de nos invadirem. Sempre ouvi dizer que o respeitinho é muito bonito! É claro que se atirássemos para lá a nossa bomba, eles podiam retaliar com a central nuclear de Almaraz, rebentar com aquilo e lixar tudo, mas quem tem cu tem medo e, bomba daqui e central dali, sempre se reduzem as chances de uma crise atómica. É a chamada "paz nuclear", estão a ver a coisa?
Por outro lado, é bom que a senhora Merkel em particular e o mundo em geral, fiquem com a verdadeira noção de que já não somos os meninos bem comportados da Europa - vulgo paus mandados - , como nos pintavam no tempo do Coelho Calimero e do seu irrevogável vice, Paulinho das feiras. Ponham-se à tabela que se a coisa der para o torto, podem ter a certezinha absoluta que a gente reage logo e retalia c'a bomba atómica q'é por causa das tosses!
A bombinha faz-nos muita falta! É pena estarem tão caras, mas isso também se podia resolver através de uma subscrição nacional. A dividir por todos não custava nada e até podia ser que nos fizessem um desconto especial, n'é? Se estamos a sustentar os chulos dos banqueiros sem termos contrapartidas, não vejo razão para não acarinharmos, patrioticamente, a ideia de uma iniciativa de angariação de fundos para obtermos a nossa bomba atómica. Até pode ser que consigamos comprar uma mais baratinha através da Internet, com garantia de manutenção gratuita contra defeitos de fabrico, o que nos livraria de despesas adicionais, tais como uma explosão acidental, por exemplo.
Com uma arma assim, tão destruidora, acabava-se logo com os repontões do costume. Quem se portasse mal ia logo corrido à bomba atómica, fosse cá dentro ou lá fora!
Vamos lá amadurecer a ideia da nossa bombinha atómica, "faxavor", ok?

A ÍNCLITA GERAÇÃO

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Bom dia, boa tarde ou boa noite e continuação de boas festas q'isso é q'é preciso, pois o que faz falta é animar a malta - parafraseando o nosso Zeca Afonso.

Hoje, vou escrever ou passar a escrito, conforme vos aprover, qualquer coisinha sobre a "Ínclita Geração". Posso garantir, a pés juntos, que não se tratou de uma "geração rasca", antes, pelo contrário (aqui, os conceitos 'antes' e 'pelo contrário' não se me afiguram idênticos; somente próximos. Daí a minha hesitação em classificar a frase de redundante)! Prossigamos, então, na descrição deste epíteto que é dado na História de Portugal aos filhos do rei Dom João I.
Ora, após a morte do rei, paizinho desta tão nobre e ilustre geração, Philippa of Lancaster, Indeed Leicester, aliás Dona Filipa de Lencastre, aliás a mãezinha, subiu ao trono provisoriamente até um dos filhos, Dom Duarte, "O Mudo", aprender a falar definitivamente. É desses tempos imemoriais que provém a velha máxima (velha porque ainda é utilizada de modo coloquial) "mais vale definitivos definitivamente, do que provisórios provisoriamente", como sabem.

A mudez, como característica inata do rei Dom Duarte desde tenra idade (vários historiadores crêem que já era mudo à nascença, dado que não há registo sonoro do primeiro vagido. Porém, tal convicção, sem grande profundidade, carece de ratificação científica), manifestou-se, sobremaneira, anos mais tarde, no campo legislativo. Foi durante o seu reinado que foi elaborada a "Lei Mental" que nunca se chegou a saber o que era. Como era mental, nunca foi escrita nem verbalizada. Desse facto ter-se-ia instalado, com toda a probabilidade, um ambiente reinadio, o qual reinava de modo reinante em todo o reino de Portugal e dos Algarves, inclusive do Brasil, que ainda estava longe de ser descoberto.

Durante o reinado efémero de Dom Duarte, um dos manos, Dom Henrique, prosseguiu com o projecto megalómano de mandar erigir o Padrão dos Descobrimentos, apesar dos avisos do rei (convém referir que os avisos eram feitos, obviamente, em linguagem gestual) de que aquilo ia transformar-se num enorme mamarracho e ia custar um balúrdio aos cofres do tesouro que estavam nas lonas; já naquele tempo, valha-nos Deus!

É claro que tudo se recompôs temporariamente depois do descobrimento do Brasil, graças aos bandeirantes. Foi desse modo que outro mano, o Dom Manel, que sucedeu a Dom Duarte (é claro que o Dom Manel não fez parte desta nobre fraternidade, mas, por outro lado, o objectivo desta crónica não é dar lições de história, seja a quem for. Por isso só tenho que pedir desculpa ao professor Mattoso pela minha imperdoável ignorância), derreteu todo o ouro que veio do lado de lá do Atlântico, mandando construir o Centro Cultural de Belém, ao seu estilo (Manelino), e uma fábrica de pastéis de nata mesmo ao lado, para não ficar atrás do mano.

Dom Henrique, sentindo a sua obra ofuscada pela mania das grandezas do irmão, não esteve com meias medidas e, de uma assentada, fundou a Escola Náutica de Paço de Arcos, enviando naus catrinetas por mares nunca dantes navegados. Em boa hora o fez, pois foi graças à sua visão, muito avançada para a época, e aos seus audazes capitães das naus, que foram descobertas as ilhas Berlengas, a Brandoa, Telheiras Sul e "se mais mundo houvera lá chegara". No entanto, os desmandos da Ínclita Geração colocaram o tesouro do reino, novamente, numa situação periclitante, fazendo com que as agências de notação financeira baixassem o nosso nível para mais uns pontos abaixo de lixo, o que já era muito chato para os propósitos do rei que, para obviar a grave situação económica, sobrecarregava a plebe com impostos atrás de impostos, no sentido de descer a dívida pública.

Regressando a Dom Duarte: foi no seu curto reinado que aconteceu um feito militar relevante e que ficou para os anais (atenção ao étimo da palavra anais e ao contexto onde está inserida) da nossa História: Dom Fernando, o mano caçula, cognominado de "O Mártir" (não confundir com um jihadista islâmico), na altura a residir ali para os lados dos Prazeres à Infante Santo, teve uma vontade danada de comer tângeras. Foi um desejo assim a modos muito repentino e intenso. Todavia, como não havia tângeras, nem no mercado da Ribeira, nem no de Campolide, Dom Fernando tentou persuadir o mano Dom Duarte a enviar a armada a Tânger a fim de adquirir no mercado local umas boas toneladas do citrino dos seus desejos. O rei hesitou em aceder ao pedido do irmão porque, como já tinha referido, Portugal estava novamente falido, o FMI intimidava o reino com mais medidas de austeridade e, evidentemente, o ministro do tesouro alemão e a puta da troika ameaçavam vir meter o nariz no cu dos portugueses outra vez.

Para compor o ramalhete da desgraça, os estaleiros navais de Viana do Castelo, importante pólo de construção de naus catrinetas e caravelas, tinham sido vendidos a um armador grego, falido - um tal Dilza Erotides - que se revelou um mau negócio para o reino de Portugal. Porém, Dom Fernando contra-argumentou com a velha história de que se podia aproveitar a ocasião para combater os sarracenos e dilatar a fé cristã além mar e isso convenceu Dom Duarte a consentir a expedição sem olhar a meios e despesas. 
Reza a História que a "Invencível Armada" (eu sei que não se tratava da armada em que estão a pensar, mas de uma excursão de cacilheiros. Apesar disso deixem-me continuar que depois explico) capitulou às mãos dos "infiéis" e, para cúmulo, capturaram Dom Fernando e mandaram-no para as masmorras por causa das tosses.
Quanto aos marinheiros que restaram desta expedição inglória, uns regressaram a nado a Vila real de Santo António e outros converteram-se ao islamismo, indo engrossar as fileiras do Daesh.
Entretanto o tempo passou e os Mouros, através da sua encarregada de negócios em Lisboa, a embaixadora Omar Zayn, exigiram a devolução de Ceuta em troca da libertação do infortunado Dom Fernando. Em face deste ultimato sarraceno, as cortes reuniram-se na Quinta da Sardinhano Pinhal de Leiria e, depois de uma valente sardinhada regada com vinho tinto rascante do Cartaxo, já muito bêbedas (as cortes, claro), decidiram que a vida de "O Mártir" não valia a ponta de um corno em comparação com Ceuta.

Por puro revanchismo e vingança - passe a redundância - os mouros mantiveram Dom Fernando preso numa masmorra até ao fim dos seus dias. Não a pão e água, tampouco a tângeras, mas a tangerinas, pois era consabida a sua alergia intestinal às tangerinas.

É facto, embora careça de confirmação, que nos últimos dias de vida, Dom Fernando, já só ossinhos e peles, implorava a Alá que aqueles bárbaros berberes lhe dessem, ao menos, um pratinho de kebab acompanhado com arrozinho árabe. Até dispensava os talheres pois, naquelas paragens sempre se comeu com as mãos e ele já se habituara aos costumes daquela gente. Os mouros, sabendo que aquilo era tudo fita, pois Dom Fernando fincara sempre o pé a uma possível conversão à fé islâmica, martirizaram-no ainda mais, com tangerinas, tendo "O Mártir" falecido, depois de morto com tanto martírio, já Infante Santo.

Voltando, ainda, a Dom Duarte, está devidamente documentada a sua veia literária, mas também científica, legando-nos obras como - agora a sério - "Leal Conselheiro", obra profusamente ilustrada da sua colecção iconográfica, com conselhos e orientações sobre a sexualidade nos gafanhotos tailandeses; "Livro de bem cavalgar toda a sela sem cavalo" que, como o próprio título indica, se destinava a ensinar a montar sem cavalo, o qual foi considerado pelos críticos literários um "best seller", não tendo merecido, imerecidamente, um prémio Nobel porque, já naquela altura, aquela cambada de incultos da Europa não ia à bola com Portugal.

Foi preciso sermos campeões europeus para nos terem mais respeitinho, mas isso é outra história. Finalmente, um terceiro livro que deu brado, "O Livro da Misericórdia" que é, com efeito, "O Livro da Misericórdia".

Todavia, o êxito das vendas dos seus livros foi demasiadamente agitado para a sua frágil cabeça que não aguentou um esgotamento cerebral e teve morte imediata, vindo a falecer de peste numa manhã de nevoeiro em Alcácer Quibir.

Enfim, são as voltas que o mundo dá...

ADORO FAZER SEXO COMIGO

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Lambareiros! Queriam sexo, n'era? Em próximo artigo faço-vos a vontade; hoje não estou virado para aí. Vou debruçar-me, antes, sobre um assunto que, embora pareça banal é mesmo trivial, acreditem! Sobretudo, se fizermos uma análise da sucessão cronológica de eventos ou factos que, por qualquer incidente da História nos pudessem ter desviado do caminho exemplar que, como nação, temos vindo a percorrer. Gostaram? Também acho que é um excelente exórdio.

Todavia, penso que a importância da reflexão que se segue é eminentemente transcendente, como irão ter oportunidade de constatar. Imaginemos, por breves momentos, isto, claro está, no domínio da ficção, evidentemente. Imaginemos, pois, que a terceira ilha do arquipélago dos Açores a ser descoberta, tinha sido a ilha do Corvo. Chamaríamos, então, Terceira à do Corvo e Segunda à Terceira? Topam? Ou tentaríamos rodear a questão, chamando à do Corvo a primeira Terceira e segunda Terceira à Terceira. Perceberam, até aqui, onde é que quero chegar? Problemas idênticos poderiam ter alterado o nosso percurso histórico se tivesse sido o Vasco da Gama a atravessar o estreito de Magalhães, ou ainda a Maria de Lurdes Modesto a cozinhar pela primeira vez Bacalhau à Zé do Pipo.

Se Afonso Henriques tivesse nascido em 1499, como poderia ter sido o fundador da nacionalidade? E se só a tivesse fundado nessa época, como poderíamos ter, actualmente, quase nove séculos de História? Mais, ainda: de que serviria ao primeiro rei de Portugal conquistar Lisboa aos Sarracenos, se os gajos não tivessem, ainda, invadido a Península Ibérica? E onde ficariam os tintins do Martim Moniz na História, se a infantaria lusa não tivesse irrompido pelo castelo de São Jorge adentro? Convenhamos que, se o herói e mártir da tomada de Lisboa não os tivesse entalado nas portas do castelo, tomar a cidade aos Suevos, aos Hunos, aos Visigordos, aos Vândalos, ou até, mesmo, aos Energúmenos não teria a mesma graça.

Já agora, seguindo a mesma linha de raciocínio lógico, já imaginaram, também, como há por aí tanto amor desencontrado, perdido, esquecido? Não?...Têm a certeza?... Vejam lá, se precisarem de um ombro amigo, estou aqui, não se façam rogados! 

DEVE-SE DESFAZER O CARÁCTER MÍSTICO DO SEXO?

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Eis uma boa posição..., perdão, uma boa questão. Alguém, muito famoso, cujo nome não me ocorre no momento, terá dito, algures no tempo, que o "grave problema do sexo vem das origens do segundo homem" e prosseguiu: "Isto porque o primeiro nasceu por obra e graça do Criador e, curiosamente ou talvez não, tampouco agradeceu numa página de jornal dedicada exclusivamente a orações de agradecimento." E continuou, prosseguindo (passe a redundância): "Porém, o segundo já foi concebido segundo critérios mais definidos e mais avançados e que ainda hoje se mantêm tão actuais que ninguém ousa meter o bedelho, ou outra coisa qualquer na matéria porque é de matéria que, efectivamente, se trata."

Após esta pequena introdução, penso, no entanto, que ainda há muitas arestas cheias de rebarba e é urgente, direi até que urge e que não admite delongas, a par da indispensável revisão constitucional, a desmistificação do sexo. Pergunto: Para quando um debate nacional sobre um tema tão importante para a vida dos portugueses?
O sexo ainda é um assunto tabu porquê? Que disparate?! Aliás, devia ser objecto de análise em qualquer governo, em qualquer programa de governo, independentemente da utilização de preservativos coloridos com a predominância habitual das cores laranja, rosa e amarelo, cores que, para a generalidade dos portugueses, já se tornaram cansativas. Mas, enfim, alguns portugueses são muito conservadores, continuando a escolher estas cores e isso é lá com eles. Importante, importante é tratar-se de uma condição elementar da qualidade de vida, da vida de todos nós!
Então, que qualidade de vida podemos desejar se, quanto ao sexo, o governo teima em escondê-lo, só o revelando depois da consumação sem que tenhamos tido qualquer proveito orgástico, hã? Ainda por cima temos de lhe pagar!? Ora, francamente!
Que qualidade de vida podemos esperar, se este ou qualquer outro governo teima em virar ad aeternum as costas ao sexo em vez de o agarrar afincadamente com uma mão ou ambas, dependendo do gosto?
Não se pode tirar o sexo à carne e à pele! Foi o sexo que perpetuou a Pátria! Quase novecentos anos de sexo é muita seiva derramada! É claro que muita tem sido derramada fora do contexto para a qual estava naturalmente destinada. Quatriliões de metros cúbicos de fluidos e outros desperdícios para quê?

Os Descobrimentos, a Batalha de Aljubarrota, a Batalha das Linhas de Elvas, o Tratado de Tordesilhas, o 1º de Dezembro, o 5 de Outubro e o 13 de Maio, têm o seu merecido lugar na História, evidentemente, mas a perenidade da Nação só ficou garantida porque os portugueses de outrora, cheios de fervor e combatividade, não deixaram cair o sexo. Excepto os descuidados do costume que não se precaviam, mas isso é um problema transversal a todos os períodos da nossa História, é quase uma inevitabilidade.
As pátrias perpetuam-se através da manifestação corporal mais natural deste mundo, seja num vão de escada, no banco de trás de um Fiat Cinquecento, em cima do lava-oiça, num polibã, dentro da despensa, enfim, tantas vezes com grande espírito de sacrifício e em condições difíceis, mas é assim que se tem construído o futuro, assim se vai garantindo a sobrevivência de Portugal, malgrado a crise.
Mas, torno a perguntar: Prestarão, este e outros governos, as devidas homenagens ao trabalho esforçado e anónimo e tantas vezes à socapa, da gente lusa? Evidentemente que não!
Em face disto, como se pode acreditar neles ou até no Parlamento, se se perpetua o lençol de silêncio sobre uma das mais legítimas aspirações dos portugueses e portuguesas, não implementando políticas de desenvolvimento, não incrementando a prática através de incentivos pecuniários, fiscais, criando as infra-estruturas básicas (não sei o que é isto, mas soa bem) e outras coisas mais? Respeitando sempre as normas impostas pela União Europeia, claro! S'a gente é da União, só tem que respeitar a 'senhora', isso é claro!
É certo e comummente aceite que o país atravessa sérias dificuldades, muito embora o governo garanta agora, a pés juntos, que nunca houve austeridade e  que tudo não passou de um equívoco; um "mito urbano", como disse um ministro qualquer, mas penso que não seria impertinente a criação, a breve trecho, de uma Secretaria de Estado da Desmistificação do Sexo. Isto só para começar, depois logo se via. A menos que este Governo se declare impotente para resolver a grave crise de impotência da população em geral, não mostrando sensibilidade para acudir ao seu dia-a-dia ou à sua noite-a-noite.
Desmistificar o sexo dos portugueses é preciso! Viva o sexo em todas as suas variantes, vertentes, performances, cambiantes, matizes, gradações et cetera!

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