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A TORTO E A DIREITO

UM BLOGUE SEM PÉS NEM CABEÇA, A TRECHOS LÚCIDO, CONTUDO, TRANSLÚCIDO...MODÉSTIA À PARTE

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"VAI CHATEAR O CAMÕES!"

vai chatear o camões.jpg

É uma frase utilizada com alguma frequência quando se pretende mandar alguém bardamerda sem o recurso incivil a tal vulgarismo. Se bem que também não se pode considerar a locução em epígrafe como uma expressão de fino recorte literário.
A sua origem (a da frase e não a do vulgarismo, pois, este último perde-se na poeira do tempo) remonta ao século XVI, pouco antes da morte de Luís Vaz de Camões que, como se sabe, morreu nas masmorras do Castelo de São Jorge.
O ano da morte do poeta é incerto, dado que existem duas versões: uma assegura que foi em dez de Junho de 1579 e a outra jura a pés juntos que foi em 11 de Julho de 1580. Gerou-se aqui uma grande discussão que se tem perpetuado ao longo do tempo e que, naturalmente, nos causa alguma perplexidade, sendo que o caso não é para menos, como é fácil de depreender.
Sabe-se, isso sim, que Camões expirou o último suspiro numa enxovia do Castelo de São Jorge, doente, abandonado pelos amigos, desgostoso com o desaparecimento do Rei Dom Sebastião em Alcácer-Quibir e, sobretudo, com a traição da fidalguia à Pátria por não ter oferecido resistência à ocupação castelhana. Mas isso dava outra estória e, desculpem lá, mas desta vez não posso divagar senão esqueço-me do que vem a seguir. Adiante:
Conta-se que os carcereiros achavam muita piada às declamações poéticas do nosso "Homero", nomeadamente à exaltação e veemência que imprimia às suas récitas. 
Os patetas escarneciam daquele velho decrépito(*) e zarolho que ousara escrever um poema épico que ninguém entendia. Com efeito, a malta era muito atrasadinha; já nesses tempos, louvado seja Deus!
A profissão de carcereiro também não exigia esforço intelectual, é preciso dizê-lo. Contudo, era muito chata e nem todos tinham estômago para abraçar a carreira. Por conseguinte, só os tolos é que aceitavam aquele trabalho.
Luís Vaz era, à altura, o único residente nas masmorras do castelo. Com tanto bandido à solta, não se compreendia porque é que aquilo estava às moscas. Todavia, prometo explicar a razão de tal fenómeno lá mais para a frente se não me esquecer.
Até os guardas andavam às moscas, não sabendo como ocupar o tempo. Assim, antes que ficassem com a mosca, bebiam zurrapa, jogavam à lerpa, à vermelhinha, ao montinho, à bisca delambida, contavam anedotas do Cavaco, falavam de putas e pouco mais; ser carcereiro era um enfado do caraças, pá!
Entretanto, quando o aborrecimento se tornava insuportável e já torravam a paciência uns aos outros, havia sempre um parvo que dizia para outro: «Olha, vai chatear o Camões!»
E assim se entretinham, quando não havia mais nada para fazer ou conversar, maltratando o desgraçado das maneiras mais torpes, inclusive roubando-lhe a pala que usava sobre a região ocular onde outrora existia um olho que perdera num jogo de Poker, no Grand Lisboa Casino. Daí ainda ser usual, em Macau, dizer-se que "Camões perdeu o olho por dez patacas". A título de curiosidade, as patacas eram moedas que cresciam numa árvore.
Gozavam, também, com um colar de louros, já muito ressequido, que ainda conservava religiosamente, mercê de um doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Coimbra, fruto da sua dedicação fervorosa às praxes académicas e outros notáveis contributos.
Conta-se que o catre de Luís Vaz era um antro cheio de tudo quanto possamos imaginar, digno de um cenário lúgubre, repleto de imundície e putrescência.
Por muito inverosímil que se nos afigure tal ambiente, também não o devemos rejeitar totalmente. Alguma coisa deve ter sido verdadeira, apesar de haver uma tendência cultural de acrescentar pontos aos contos.
Fica-se sem saber, ao certo, se o nosso maior Poeta sofreu grandes tormentos com as vilezas dos insanos carcereiros; os indícios levam a crer que sim, embora com reservas. O que se sabe, ao certo, é que ele ficava pior que uma barata quando o obrigavam a dividir as orações do canto V dos Lusíadas. Esse, para ele, era, literalmente, o seu Oceanus Procellarum (segundo o tradutor do Google que eu, de latim, pesco zero)!
Para rematar isto com alguma concisão histórica e, por conseguinte, com alguma (não muita) seriedade, dizer que Camões aguentou-se nas canetas até ir-se abaixo das ditas, com Filipe II de Espanha (Filipe I de Portugal) a instalar-se, de pedra e cal, no paço.
Mas, importante para a compreensão da alma e da obra do poeta e perpetuar a sua memória, é que foi devido à sua condição de prisioneiro que nasceu a tal frase que se tornou muito comum no quotidiano dos portugueses e, como o saber não ocupa lugar, aqui fica mais uma contribuição pessoal, sem fins lucrativos, para a divulgação da nossa estória que anda tão desarraigada dos nossos conhecimentos.
 
 
(*) 56 anos era considerada uma idade muito avançada para a época.

A TODOS OS HABITANTES DOS MARES DE PORTUGAL

a todos os habitantes dos mares de portugal.jpg

A todos os habitantes dos Mares de Portugal e dos Algarves, nomeadamente o Mar Alto, o Mar Chão, o Mar de Rosas, o Mar Territorial, o Mar da Palha e "se mais (Mar) houvera lá chegara":

Artrópodes, fitozoários, pisciformes, cetácios, lamebrânquios e cefalópodes (se não referi outros espécimes, queiram, desde já, aceitar as minhas desculpas porque não é que tenham menos importância; é mais por ignorância):

Esta é a grande novidade há muito tempo almejada pela população submarina e sucessivamente adiada por motivos que não vêm ao caso, mas, em todo o caso, deve-se salientar que foram objecto de negociações aturadas com alguns parceiros sociais, às quais não faltou a indispensável peixeirada e a inevitável salgalhada. Nestas coisas, sobra sempre para o mexilhão!

O senhor Ministro dos Mares e das Marés, Doutor Marinho do Ó Carapau, sempre atento aos anseios da comunidade marinha, ou ele não fosse marinho, e aproveitando a maré alta, dado que o país atravessa uma maré de sorte, decidiu, finalmente, fazer aprovar por unanimidade, com algumas trocas de solhas e muita caldeirada à mistura, uma medida de apoio extraordinária que vai de encontro às expectativas da generalidade dos seres subaquáticos: mandar construir o Lula Parque que era uma enorme lacuna (não confundir com laguna) no panorama lúdico-subaquático nacional.

Em verdade verdadíssima, dentro em breve, vai ficar tudo em polvorosa (deve pronunciar-se polvo rosa, senão não tem piada).

Tudo será feito para que nos possamos divertir à brava no Lula Parque.

Podemos andar às voltas, sem cessar, nos carrissóis de camarão, conduzir carrinhos de chocos, visitar o Submarino Nautilus do Capitão Nemo e deixarmo-nos tactear nas escamas, barbatanas e conquilhas, por ventosas de górgonas tailandesas, com a garantia, devidamente certificada, de finais felizes. Contudo, não há bela (não confundir com linda) sem senão: Segundo a mitologia grega, as górgonas tailandesas são muito feias e más como as cobras. Logo, não devemos encará-las, sob risco de ficarmos petrificados ou, na pior das hipóteses, sermos transformados em caras de bacalhau.

Ficaremos sem pinta de sangue nas guelras e bestialmente escamados quando deslizarmos vertiginosamente na montanha russa do Canhão da Nazaré.

Pescadinhas ciganas de rabo na boca ler-nos-ão a sina na palma das barbatanas! Vai ser um fartote de prazer no Lula Parque! Garanto-vos pelas alminhas das belas nereidas a quem Camões, num momento de insuflação criadora, chamou Tágides.

Por isso, é justo que lancemos daqui um viva ao nosso querido Ministro! Viv'Ó Carapau!

 

 

CAMÕES

camões.jpg

Primeira estrofe do Canto I, dos Lusíadas:

As armas e os Barões assinalados,
(Porém, jamais apanhados),
Que da Ocidental praia Lusitana
(Sumiram com toda a grana)
Por mares nunca de antes navegados
(Submergiram e não foram achados)
Passaram ainda além da Taprobana
(Bermudas, Granada e Guiana)
Em perigos e guerras esforçados
(Por avara riqueza se viram ousados)
Mais do que prometia a força humana,
(Todavia, exaltando a mente insana)
E entre gente remota edificaram
(Com mais valias que daqui levaram)
Novo Reino, que tanto sublimaram,
(Em édenes que alcançaram)

 

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