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A TORTO E A DIREITO

UM BLOGUE SEM PÉS NEM CABEÇA, A TRECHOS LÚCIDO, CONTUDO, TRANSLÚCIDO...MODÉSTIA À PARTE

A TORTO E A DIREITO

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É URGENTE O AMOR

é urgente o amor.jpeg

É urgente o amor.

É urgente um barco no mar.


É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.
 
(Eugénio de Andrade in Antologia Breve, Limiar)

CONSULTÓRIO SENTIMENTAL DA EQUIPA DE REDACÇÃO

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CS: «Olá. Sou uma mulher alta, sensual e, evidentemente, muito atraente. Além disso, dispo-me sempre bem, depressa e sem rebuço. O meu marido nunca encarou bem esta minha maneira de ser, muito espontânea, e acabou por sair de casa, de armas e bagagens, sem mais aquela.

Como devem calcular, fiquei em estado de choque! Até agora só tive tempo de telefonar para dois amigos de longa data que, ainda hoje, me virão prestar algum conforto e solidariedade nesta hora de muita solidão e tristeza.

Acham que estou a proceder bem ao chamar estas pessoas, assim, tão em cima do acontecimento? É que sinto-me tão só! Por favor, quero pôr tudo a nu!

Cremilde da Silva»

ER: «Cara Cremilde, pensamos que a sua atitude é a mais correcta. Além de que não vemos mal algum no facto de precisar de ser confortada pelos dois amigos que refere. Aliás, se outras razões não houvesse, bastaria a sua para nos fazer compreender que a solidão é uma disposição emocional muito dolorosa. Por conseguinte, cara Cremilde, parece-nos até que, desse modo, você recuperará facilmente o climax da felicidade a que estava habituada e águas passadas não movem moinhos, minha amiga! O amor é assim; é lindo enquanto dura e há mais marés do que marinheiros, embora os marinheiros façam falta quando se está de maré, mas, por favor, não vale a pena remar contra a maré se a maré é baixa, é inútil, aproveite as marés de sorte porque de marés de azar anda o mundo farto! 

Olhe, venha-se lembrando de nós e, se lhe aprouver, estamos ao seu dispor; somos uma equipa de vinte, adoramos pôr tudo a nu, e ele, às vezes, há finais felizes!» 

 

FR: «Olá. Tenho trinta anos, sou engenheiro informático, sócio-gerente de uma grande empresa ligada à minha área de formação, tenho olhos azuis, grandes e lindos, conduzo um Volkswagen New Beetle (passe a publicidade), amarelo canário, e frequento o Red Frog (passe a publicidade) aos fins de semana, para além de outras singularidades que, por acaso, não vêm ao caso. 

Casei-me há um par de anos com um colega da faculdade, um rapaz muito airoso e gentil, pelo qual me apaixonei perdidamente, tipo amor à primeira vista, porque só visto, contado ninguém acredita; e juro a pés juntos e bem assentes no chão que ele é lindo como uma flor do campo! Porém, aqui há dias, não sei como nem porquê, tive uma experiência extra-conjugal com uma filha da mãe e de pai incógnito, por sinal um senhor bem cuidado e de bom porte, com o qual também tenho mantido, regularmente, ralações sexuais porque ando sempre ralado com receio de o meu marido vir a tomar conhecimento das minhas infidelidades conjugais. Que hei-de fazer? Por favor, ajudem-me que isto é uma situação desesperante! Sinto-me tão impotente, meu Deus!

Frederico Rosas»

ER: «Caro Frederico, o que mais nos impressionou no seu relato foi a cor e a grandeza dos seus olhos. A situação que nos descreve parece ser irreversível, desgastante e patética, dado que nos suscitou, imediatamente, muita piedade - perdoe-nos a redundância. No entanto, pensamos que o seu caso não é, assim, tão complexo como imaginámos, a ponto de não se poder reverter, caro amigo. Basta que siga estas regras religiosamente: Coma muita fruta, levante halteres e faça clisteres. Besunte-se, também, com óleo de amêndoas doces, pelo menos, duas vezes ao dia antes das quatro principais refeições e pense, com urgência, em trocar de carro porque, para um moço impotente, só um bólide imponente. Vai ver que fica contente. Chau, bebé!»

 

NN: «Caros senhores, éramos dois seres adoráveis (ainda somos, claro), cada qual com o seu sexo, evidentemente (a gente até mostrava à comissão e tudo), profundamente apaixonados e trabalhadores independentes, cuja única ambição era fazer as pessoas felizes, independentemente da orientação sexual, religião, clubismo ou simpatia política. Tudo nos corria à feição e sem desregramentos, excepto as regras da minha sócia.

Não somos analfabetos, mas também não somos intelectuais, graças a Deus! Em boa verdade, também nunca estudámos para sermos intelectuais, lagarto, lagarto!

O mais longe que fomos, ao longo da nossa vida, foi a Badajoz. Sempre nos distraíamos e era no tempo em que valia a pena lá ir para comprar caramelos; e até nos desenrascávamos porque arranhávamos algumas palavras em grego, graças a Deus! Agora já ninguém vai comprar caramelos a Badajoz; é uma tristeza!

Também deixámos de frequentar salas de cinema porque já não exibem filmes alemães hardcore como antigamente. Que saudades das sessões contínuas no cinema Olímpia! Tudo vai desaparecendo, infelizmente...

Contudo, valha-nos isso, gramamos à brava os programas do CMTV, telenovelas e "talk shows", sobretudo os que dão na SIC e TVI, nomeadamente os da Júlia Pinheiro e da Fátima Lopes, respectivamente.  Só não vimos o Preço Certo porque achamos que devia dar depois do Telejornal e nunca antes.

Até escrevemos uma carta registada, com aviso de recepção, ao provedor do telespectador, mas ele, ou não percebeu patavina daquilo (a gente escreve muito mal) ou fez ouvidos de mercador porque só nos devolveu o aviso de recepção, vejam lá, ele que até ouve tão bem!

Não gostamos do PS, do PC nem do BE, mas também não votamos à esquerda, credo! É por estas e por outras que, se calhar, o melhor remédio, para nós, é o suicídio, visto que já ninguém liga para a gente! Andamos desconfiados que se deve à nossa idade avançada! Afinal, já não somos nenhumas crianças! Queríamos saber a vossa opinião.

 

Nandinho e Nandinha»

ER: «Porra, morram os Dantas e as antas! Morram! Pim!»

 

 

 

 

 

PEDRO E INÊS: UMA ESTÓRIA DE FACA E ALGUIDAR

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Inês foi aia e Pedro foi rei. Para quem não está ao facto, isto, de facto, foi um facto. Logo, tivemos mais um caldo entornado na nossa História ou um caldinho como é comum dizer-se. Tanto que se consumou e tragicamente se consumiu.


Então (ou nesse ou naquele tempo, conforme vos aprouver), nas galerias sombrias do Paço, Pedro cruzava-se, amiúde, com Inês, ali, a dois passos, e reparava que os seus olhos eram lindos e de uma luminescência esfuziante. Para não dizer dos ombros que eram alvos e cândidos; davam para encher o olho (mais adiante, explico a razão porque davam para encher o olho). De tal modo que, cada vez que se viam, Pedro sentia uma vontade desmedida de lhe deitar a alça do vestido abaixo.

Permitam-me, aqui, uma pequena digressão: Segundo estudos efectuados muito recentemente, está comprovado, por portas e travessas, que os reis eram uns licenciosos do piorio (não confundir com licenciados porque, salvo honrosas excepções, eram uns bestuntos analfabetos), capazes dos piores desregramentos, pondo em causa o pundonor da monarquia. É claro que estes hábitos ancestrais não constituem novidade para quem está a par das marotices da nobreza de antanho. No entanto, é só mais uma achega para tentar desmistificar a falsa noção que as pessoas têm acerca da superioridade moral da aristocracia de outrora. Felizmente que a fidalguia, agora, tem maneiras! Honras lhe prestem porque fidalguia sem comedoria é gaita que não assobia, como disse alguém, não sei quem. Prossigamos:


Certa noite de luar (como sabem, o luar nada mais é do que a luz do Sol reflectida pela Lua), a aia devaneava, doce, lânguida, derramando uma lagrimazinha de crocodilo, quiçá pelas cebolas do Egipto, entre frondosos arbustos, aprumando o busto, inalando a fragrância que vinha do Mondego ou talvez do Alva, quando Pedro, arrastando o manto, coçando o mento, exalando menta e avivando a mente, se encontrou com ela, cara a cara e de caras e - reza esta estória - pintaram a manta. 
O calor da noite (ou entusiasmo), a brisa branda do Dão, o aroma das benefes, a distância dos olhares pudibundos e furibundos dos cortesãos e cortesãs, fez com que os dois amantes inacabados percebessem que era chegado o tempo de acabar com aquela indefinição do amor.

Sem perderem tempo, submeteram-se, segundo a própria vontade, aos ímpetos lúbricos da carne, como convinha e, claro, a bronca estalou: toda a corte ficou a saber que o rei estava metido numa grande alhada por via de uma bela plebeia, pois embrulhara-se nas saias de uma, pondo em perigo os bons costumes, usos e abusos da realeza.

Vou abreviar isto porque não me está a correr bem, peço desculpa...


A troco de uma mão-cheia de Dobras, três magalas horrentes, coniventes e sem dentes, apanharam Inês, lavando no rio, desacautelada, semi-nua, semi-inconsciente das intenções maliciosas dos conspiradores, defensores da nata e, com a frieza inata dos estripadores, vararam-na...


Pedro uivou que nem um lobo, espumou de raiva que nem um cão, berrou que nem um bode e jurou vindicta.

Cavalgou por todo o reino e além fronteiras, conforme tinha aprendido no livro de Bem Cavalgar Toda Sela, vasculhou as comarcas, as dinamarcas, perscrutou as marcas, as peugadas, os rastos, os indícios, os vestígios, os sinais, enviou emissários, comissários, mercenários e, por fim, caçou os sanguinários.
Os assassinos a soldo foram sumariamente presentes ao Rei que os esventrou, sem mais aquela, perante uma multidão exaltada, aficionada e sedenta de sangue e arena.

Ao primeiro extraiu-lhe o fígado pelas costas e fê-lo em iscas. Ao segundo, sacou-lhe o coração pelo peito e, tendo-o desfeito, jogou-o aos cães; a multidão ululava de prazer mórbido e gritava "olé!". O terceiro jamais apareceu, mas foi excomungado, exonerado e expulso das Forças Armadas, sem direito a qualquer estipêndio ou subsídio.
Depois, com uma lágrima ao canto do olho, dado que era zarolho, Pedro sentou o corpo jacente e arrefecido de Inês numa poltrona e jurou punição aos poltrões. A fidalguia contrita, temendo o castigo régio, comia tremoços e pevides e enganava a inquietude torcendo as orelhas.
Um a um, em fila do pirilau (fila indiana), vieram beijar as mãozinhas frias de Inês que lhes retribuía com um sorriso de morte.
Nunca casaram nem tiveram filhos, tampouco foram felizes para sempre. Também nunca brincaram às escondidas ou à apanhada, mas amaram-se perdidamente até ao fim.

Passados séculos, ainda se escuta o restolhar dos seus corpos quando se passa junto ao túmulo, no Mosteiro de Alcobaça.

Nota final: Mais uma vez quero pedir desculpa ao professor José Mattoso pela minha falta de rigor histórico e, por conseguinte, elevada ignorância. Muito obrigado e bem haja!

MARIA

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É difícil, senão impossível, determinar a origem do nome Maria. Talvez a partir do "hebraico Myriam", que significa "senhora soberana ou vidente", mas é incerto ou, se calhar, improvável.

Por ser um nome bastante comum, e até anterior a Cristo, pode ter derivado do "sânscrito Maryáh" que significa, literalmente, a "Pureza, a Virtude e a Virgindade".

Outra tese sustenta que o nome "Maryam" teria aparecido a partir das expressões "assírias Yamo e Mariro"​, as quais se transcrevem como sendo "Mar azedo ou Acre no idioma aramaico assírio".

Pelo que consegui apurar na net e na escassa produção literária que possuo sobre o assunto, não cheguei a qualquer conclusão. Se houver alguém que entenda da matéria, faça o favor de se chegar à frente e contribuir com o seu conhecimento... 

Certo é que, na tradição judaico-cristã, está associado ao culto mariano e é um nome que, como todos os católicos sabem, é dedicado com muito fervor à "Virgem Maria, mãe de Jesus"


Todavia, a mãe de que vos escrevo, não sendo Maria como a "Virgem", nem por isso foi menos santa e ademais foi mãe de duas belas raparigas e, em especial, de um rapaz lindo, passe a imodéstia do moço.

Naturalmente, cada qual com características e temperamento próprios; uns mais ambiciosos e desembaraçados, por conseguinte mais resolutos, outros mais acomodados, enfim, "cada um cumpre o destino que lhe cumpre...", parafraseando Ricardo Reis.

É difícil imaginar exemplos de irmãos que partilhem a mesma sensibilidade, os mesmos pensamentos, as mesmas aspirações e os mesmos ideais, a não ser os irmãos gémeos e, mesmo esses, sob consulta.

Mas voltemos ao tema principal embora, por paradoxo, não se debruce sobre o título:

Lembro-me que esta mãe, não sendo Maria, tampouco virgem, não ficava a dever nada à outra "Santa". Isso posso afiançar! 

A juntar a essa virtude, era, verdadeiramente, uma "dona de casa" de primeiríssima grandeza. Por exemplo, era sempre a primeira a despertar, levantando-se, geralmente, pela calada da noite, fosse Verão ou Inverno. Depois, chegada a hora de acordar a prole, tratava de a acordar, fazendo-o com cuidado extremo.
Quando entrava no quarto de um, era seu costume aproximar-se da cabeceira em pezinhos de lã, beijar-lhe delicadamente a testa e passar a mão com suavidade pelos seus cabelos. Ninguém gosta de sair do sono, seja de que maneira for, mas ela tinha esta maneira tão meiga de os acordar que, despertar e ver o seu doce olhar, era uma sensação inexplicável e de uma cumplicidade profunda.

E  dizer do seu cheiro...como era bom o seu cheiro! Um dos filhos ainda conserva uma batinha bem guardada que ela usava, no dia a dia, até pouco antes de morrer, supondo que ainda o preserva porque, desde que partiu, nunca mais abriu a bolsa onde a guarda religiosamente.

É qualquer coisa que, sem pretender sacralizá-la, tem pudor em corromper, expondo-a ao ar profano, após anos de recolhimento. Não é dado a misticismos, mas isto é algo que o seu raciocínio não consegue explicar. A faculdade de estabelecer relações lógicas, às vezes, foge ao seu lado racional...

Uma das razões, talvez a mais forte, porque era a primeira a levantar-se, tinha a ver com a convicção de que a melhor hora para começar o dia era aquela hora em que havia silêncio. De tal modo que isso se transformou num hábito que permaneceu quase até ao final dos seus dias. Ela gostava muito do silêncio; da paz do silêncio e de pensar com os seus botões.

Ela pensava muito com os seus botões; sobretudo na melhor forma de gerir o frágil orçamento familiar. E como era entendida no assunto! Uma ministra das finanças como ela e não precisávamos de resgates nem de troikas e podíamos mandar aquelas couvinhas de Bruxelas ir dar uma volta ao bilhar grande!
Todos os dias, anos a fio, era a mesma rotina: passar a ferro, estender a roupa lavada, lavar a roupa suja e aprontar o dejejum para todos. O "chefe de família" era sempre o primeiro a ser servido e com honras de suserano, pois adquirira, desde há muito, o hábito de tomar o pequeno almoço na cama!...

No entanto, era sempre a última a servir-se. Era sempre a última em todas as circunstâncias e se mais existissem...
Cuidava diligentemente dos filhos, como só as mães sabem fazer, e geria o parco vencimento que entrava em casa, proveniente da única fonte de rendimento: o trabalho do marido.
Trabalhava que nem uma moura, como é comum dizer-se e, mesmo assim, ainda lhe sobrava tempo para cobri-los com mimos.
Era casada, claro, mas daquelas mulheres casadas à moda antiga; subserviente às vontades e caprichos do parceiro e, se calhar, pouco amadas ou talvez amadas de uma maneira assaz estranha. Quando se ama muito, não se sobrecarrega com todos os pesos do mundo; tenta-se distribuí-los com equidade. Isso é amor total, despido de egoísmo!...
Porém, eram tantos o apego, a bondade e a ternura que brotavam dela que, só agora, passados tantos anos, alguém se continua a dar conta do seu amor incondicional e da falta que lhe fazem o seu colo, os seus beijos e os seus doces afagos! Ela que não era Maria, nem virgem, mas uma santa!

CLEO PETRA & MARK ANTÓNIO: UMA TRAGÉDIA PEGADA

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Hoje, consagro este epítome - também gosto muito desta palavra - a duas personagens de uma das mais famosas tragédias da obra Shakespereana.

No caso particular, penso que não ficará atrás de uma verdadeira tragédia grega. Acho que não encontro melhor epitáfio para lhes prestar, senão dedicar-lhes esta síntese. Julgo que quem conseguir ler isto até ao fim deverá estar de acordo comigo.
Como as estórias têm que começar por algum lado, começo pelo imaginário nariz de Cleo Petra. Era tão evidente e tão exclusivo que não podia pegar nesta estória por outro lado; todos temos que convir que era um verdadeiro monumento. Até Marie Robes Pierre, que não era dado a divagações particulares sobre anatomia humana porque, só de pensar nisso, sentia-se mal naquele corpo que Deus lhe dera, escrevera nas suas "Memórias" que (sim, Marie pensava como quase todas as pessoas, pois "cogitare humanum est") "se o nariz de Cleo fosse mais curto, não teria mudado a face do mundo". Ora, apesar de considerar Marie Robes Pierre um dos expoentes máximos do iluminismo, não posso estar mais em desacordo com a pouca iluminação de tal presunção. Quando muito, teria mudado a própria face. Mas quem sou eu para contrariar tais fundamentos ou as suas pressuposições? Deus me livre, apesar de ser agnóstico!
Não obstante o nariz desproporcionado, Cleo era um espanto. De tal modo que, quando passeava por entre a multidão, espantava aquela gente toda. Porque razão? - perguntam vocês com toda a pertinência. Eu respondo: Porque a rainha tinha um olfacto apuradíssimo e, por via dessa excepcional particularidade, antes de sair do palácio para se misturar com o povo, guardava sempre um spray repelente na sua malinha de mão. Tirando esta esquisitice, era muito popular e muito querida...

Depois desta breve introdução, é aqui que entram duas personagens que alimentavam animosidades recalcitrantes entre si, sem razão aparente, segundo reza esta estória: o imperador Júlio César e Pompeu, um general romano natural de Pompeia, evidentemente.

Obviamente que, provocação daqui e provocação dali, só podia dar escaramuça e o inevitável aconteceu, como tudo o que é inevitável.
Como era previsível, a Legião Romana do imperador era em maior número e altamente organizada e, por consequência, derrotou facilmente o bando de maltrapilhos e indisciplinados fenícios e cartagineses de Pompeu na célebre batalha campestre de Farsália. Acerca desta batalha, sabe-se, agora, que, após profundas pesquisas arqueológicas recentes, a cerca de meio metro, mais ou menos, veio a confirmar-se, através do carbono 14, que aquilo não passou de uma farsa.

Há quem sustente a tese de que Pompeu, depois de alguns reveses que não passaram pelos crivos da História, solicitou o estatuto de refugiado político ao Egipto.
Obedecendo a esta proposição, vou continuar a descrever o que aconteceu a seguir, incidindo particularmente na teoria do pedido de asilo político de Pompeu. Só para não acabar abruptamente a estória, senão isto deixa de ter piada. Então, sucedeu o seguinte:
Por essa altura subiu ao trono, Ptolomeu que, desde pequenino não ia à bola com Pompeu, vá-se lá saber porquê, e vai daí, matou-o enquanto este dormia uma sesta. É claro que César, apesar de adversário figadal de Pompeu na grande farsada de Farsália, não gostou e deslocou-se pessoalmente ao Egipto para repor a ordem no império. Degolou o Ptolomeu com requintes de malvadez e ofereceu a sua cabeça, de bandeja... perdão, ofereceu o trono, de bandeja, à nova rainha, Cleo Petra...

É aqui que reentra a personagem principal: Cleo Petra que, devido ao tamanho do nariz, já vinha a despertar, há uma porrada de tempo, desejos lúbricos no imperador...
Pois, acontece a qualquer pessoa, mesmo ao ti' César porque a vida não é só chegar, ver e vencer. Isso é que era bom!

Ora, Cleo, como não podia deixar de ser, partilhou os seus lençóis com o senhor. Porém, naqueles tempos ainda não haviam panaceias para levantar a moral e, além disso o velho sofria de arritmia galopante, uma doença chata que herdara da sua progenitora. Com efeito ele era um grande filho da mãe doente, desde o primeiro vagido.
Em face desse problema genético, César regressou a Roma para fazer um tratamento com águas termais, mas não resultou e, é claro, foi definhando aos poucos até que os médicos chegaram à triste conclusão de que o melhor era eutanasiar o homem; aquilo era sofrimento a mais...

É aqui que entra a personagem secundária - mas não menos importante - pela primeira vez: Mark António, ex-ajudante de César, que tinha formado um triunvirato de conveniência com Lépido e Octávio, dividindo tarefas administrativas do Estado. Quer dizer, todas menos dormirem, à vez, com Cleo, isso estava fora de questão. Por isso, Mark tomou uma decisão drástica. Isto porque, desde os tempos de César, já andava a arrastar a túnica a Cleo, às escondidas do imperador. Assim, para não ter a concorrência por perto, despachou o Lépido para a Patagónia, o Octávio para os Montes Hermínios e rumou ao Egipto. Antes de lá chegar, Cleo, através do olfacto, já sabia da sua vinda. Pudera!...

A pirâmide de Queóps desmoronou-se, as esfinges de Gisé e Tebas desfingeram-se, os Deuses rejubilaram, enfim, foi o bom e o bonito! Cleo Petra sabia receber muito bem, caramba!
O pobre Mark António andava doidinho de amor, isso é factual e indesmentível - passe a redundância. Mesmo com o rosto cheio de equimoses que mais parecia uma paisagem lunar, nunca desistiu da sua rainha. Amores, assim, tão lindos, acontecem uma vez de mil em mil anos; Pedro e Inês, comparados com este casal, deviam ser como o cão e a gata!

Por Cleo Petra, Mark António, até era capaz de guerrear com Hórus e Doktem; que se lixassem, ele amava desesperadamente! Havia o ónus do nariz da sua amada, que doía para caraças, mas que fazer se naquele tempo ainda não tinham inventado as cirurgias plásticas?!
Assim, como assim, concordaram em passar a fazer amor de lado, enfim, do mal o menos!...

É aqui que reentra, finalmente, outra personagem: Octávio, regressado a Roma. Como não era parvo, apesar de medir metro e meio de altura, aproveitou-se do idílio de Cleo e Mark para atacar o Egipto à socapa ou seja, pela calada da noite.

Cleo, para além de ser muito batida em batalhas na cama, também o era na batalha naval. Assim, fez uma pausa entre duas refregas amorosas (sem tirar fora, sublinhe-se) com Mark (evidentemente) e enviou ao encontro de Octávio a sua "invencível armada". Uma armada onde se incluíam algumas naus catrinetas cedidas pelo reino de Portugal de então, ao abrigo de um acordo de cooperação e defesa, bilaterais, celebrado entre ambos os reinos. Porém, foi derrotada; em parte porque muitas naus catrinetas metiam água, e Mark António, atormentado pela dor e pela loucura, veio a falecer de desgosto e sífilis.
Octávio que, desde os tempos de Mark, já cobiçava o nariz soberbo de Cleo, preparava-se, agora, para tomar para si tão ansiado e maravilhoso despojo de guerra. Todavia, Cleo estava pelos cabelos com todos os imperadores, senadores, cônsules, consulesas, pretores, tribunos, governadores, duques, duquesas, legados, legionários, et cetera, e (acho que vou rematar isto às três pancadas porque já sinto as pálpebras a quererem colar) suicidou-se com veneno de cobra, não catalogado. Todavia, ficou provado, através de análises ao sangue, que era um veneno mortal. Foi Shakespeare quem o disse e não altero nem uma vírgula, pá, desculpem lá!

 

EXALTAÇÃO AO AMOR

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Vítor entra em casa, apressado e a tiritar de frio. Tira o blusão que atira para cima da poltrona, alheio ao cão que repousa nos estofos coçados pelo tempo.

Cláudia, sem claudicar, mantém-se de pé, virada para a lareira onde crepita um lume acolhedor; lá fora faz um frio glaciar. 

O recém chegado olha para Joana, que foi Cláudia quando ele entrou, e toca-lhe nos ombros com suavidade. Não obstante, Maria que foi Cláudia quando ele entrou, e Joana quando a tocou nos ombros, estremece pois estava absorta em pensamentos que se enovelavam na mente como o fogo nas cavacas. Volta-se e encara o homem com um olhar lânguido e simultaneamente voluptuoso - passe a redundância.
No entanto, Graça que foi Cláudia quando ele entrou, Joana quando a tocou nos ombros, Maria que estremeceu porque estava absorta em pensamentos, permaneceu expectante, receosa sobre o assunto inadiável que trouxera Vítor até si e que o perturbava tanto, ao ponto de quase sufocar.

Todavia, Natália que foi Cláudia quando ele entrou, Joana quando a tocou nos ombros, Maria quando estremeceu porque estava absorta e Graça quando se beijaram apaixonadamente, descola docemente os lábios húmidos dos lábios do seu amante e exclama:
- Ah, Vítor, se amar fosse fácil, não te quereria tanto como agora, meu Deus!
Porém, Sofia está equivocada, ele era Vítor quando entrou, e ela Cláudia. António quando a olhou e ela Joana. Luís quando a fez estremecer por estar absorta e ela Maria. Artur quando se beijaram e ela Graça. Francisco quando aliviaram o beijo e ela Natália. José quando ela disse que não quereria tanto a Vítor como agora.

Assim, Arminda de seu nome Luísa, contrafeita com a situação embaraçosa, pede desculpa a Nuno, de seu nome Paulo. Pensam celebrar a concórdia com uma noite só para eles, cheia de exaltação ao amor.
- Que dizes, Fernando?
- Porque não, Margarida?
E vão. Lúcio e Emília estão tão jubilantes por se terem reencontrado que tampouco se lembram das promessas de Teresa a Samuel.
Ninguém adivinhava desfecho tão dramático quanto o de Narciso e Elvira. Quiçá, Luís e Cremilde.

CARTAS DE AMOR DE SÓROR MARIE ANA ALCUFURADO

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Para quem desconhece uma das mais belas e pungentes histórias de amor, talvez seja importante introduzir aqui uma breve nota explicativa, visto que se trata de uma obra que reúne seis de cinco cartas de amor (é obra!), não se sabe se verdadeiras. Todavia, garanto sem qualquer certificado de garantia que a que tenho o privilégio e o prazer de publicar é uma das cartas originais.

São cartas de uma jovem portuguesa do século passado, que se tornou freira, dirigidas ao seu dilecto amado que, por amor à Pátria, a abandonou  para rumar até à Índia, como penso que é do conhecimento geral.

Às pessoas interessadas na sua leitura integral, devo salientar que toda a obra, sem excepção, tem um conteúdo deveras pesado e, por consequência, de difícil digestão. Daí que achei por bem não publicar tudo, mas tão-somente uma carta que afinal acabaria por ser a seis de cinco. Esta última em papel ph azul tornesol que é lindo e muda de cor sob a acção das lágrimas que são um líquido composto de água, sais minerais e outras coisas mais.

As Cartas Portuguesas acabariam por se tornar num clássico da literatura universal por anteciparem o movimento literário romântico e só mesmo muito mais tarde, mas mesmo muito, serviram de inspiração e, quiçá, expiração a autores de nomeada ligados ao romantismo clássico como Saint-Nectaire, Camembert, La Gruyere, Saint-Emmental, Roquefort (por parte da mãe que era de Míconos), La Vache Qui Rit, uma autora corsa natural de Bois de la Chaize que riu sem parar até ao último suspiro, e tantos outros; a lista é infinita até aos nossos dias, por muito contraditório que nos pareça. Adiante:

 

CARTA PARA O AMADO, O ALFERES PASSOS DIAS TRISTÃO (A TAL 6/5 EM PAPEL PH AZUL TORNESOL)

"Mon boner:

Respondo-te neste simples aerograma (*1) por razões de austeridade. Agora, quem manda no convento é o abade Wolfgang e a abadessa Merkel que andam de conluio e não me permitem as veleidades que tive em Paris, mon petit chou!

A dor que sinto, longe de desaparecer, bloqueia-me por vezes as vias biliares e, consequentemente, deixa-me muito azeda. Por isso peço que me perdões, aqui e ali, alguma pontinha de irascibilidade. Todavia, não posso lutar contra os desígnios do Salvador, sabendo que Ele escreve direito por linhas de crédito mal parado. Por isso sou obrigada a viver este amor assolapado! Ai de mim! Cinco longas e dolorosas cartas (*2) místicas, enxameadas de exaltação ao amor, te enviei, amor da minha vida, e só hoje obtive resposta. Não te culpo pela dilação, meu querido. A culpa morre sempre solteira e o melhor é atribuí-la aos correios. Peço que me perdoes tê-las escrito em francês, mas ainda não me avezei ao novo acordo ortográfico, não obstante o maldito hábito que me cobre o maculado corpo. Que o Senhor me perdoe o ultraje!

O esborratado foram lágrimas suadas, bem mais sofridas e santas que água benta, mon amour! Estava de rastos de tanto me arrastar nestas lajes sombrias, pois foi de rastos que as faxinei com potassa e uma escova de piaçaba. Fiquei mais morta do que viva e com bolhas nos joelhos! Seja por mal dos meus pecados...

Leio e suspiro. A tua singela, mas adorada lettre conforta-me o corpo e a alma. No entanto, sabe a tão pouco! Escreve-me mais senão morro de desejo e não desejo morrer, meu amor!

Longe de ti e dos teus beijos, são ermos os caminhos, há beirais sem ninhos e contínuos desatinos. Partir é morrer aos poucos, mas ficar é adiar a morte. Ó triste contradição! Mais je vais laisser. Porque é que entre os teus braços e "entre os teus lábios é que a loucura acodedesce à garganta, invade a água"? Ai de mim, que Deus tenha piedade desta Sua serva!

São esses "teus olhos castanhos de encantos tamanhos" e de um azul penetrante e profundo que me fazem despir o hábito e correr ao teu encontro. Como posso esquecer o dia em que te olhei pela primeira vez, de supetão, ainda noviça e casta? O baque que ia tendo, o efeito persuasor do barulho das tuas botas cardadas nas pedrinhas da calçada? Ou como esquecer o teu porte altivo e marcial; a tua estratégia, quando me abordaste, pela primeira vez, de espada enorme e em riste e me senti miseravelmente pecadora aos olhos da Madre Superiora e aos da infinita misericórdia de Deus, por vacilar perante tanta potência bélica. Que Ele me castigue eternamente pela perda da inocência e por este fetiiche sordide, mais je ne peux pas evitá-lo!

E como posso também esquecer a forma graciosa e meiga como esporeavas o cavalo, mesmo sabendo que não tinhas cavalo? Como podia imaginar que o meu coração me ia caír aos pés, cega de amores por tanta beauté et l'élégance?

Como posso esquecer, ainda, aquela noite escura como breu em que, banhada pelo luar de uma noite cálida de Agosto, me arrancaste o escapulário e me beijaste, sofregamente, os joelhos e a parte interna das coxas, ao mesmo tempo que as tuas mãos suadas e frias afagaram docemente a minha testa. Je n'oublierai jamais as tuas palavras: «Tens a testa alta, ou é falta de cabelo, Marie Ana?» e eu respondi-te: «Vous avez besoin de lunettes!».

Ai, mon amour, nem toda a água benta deste mundo e do outro atenuará a ira do Senhor, mas que hei-de fazer? Amo-te insanamente! Olha, irei vestida de monja caramelita para não dar nas vistas.

 

                                Vous pour toujours, mon chéri

                                    Marie Ana Alcufurado"

 

 

Nota final: Marie Ana Alcufurado acabou por regressar ao seu catre no Convento das Irmãs Arrependidas, em Beja, onde viria a falecer que nem uma Abadessa, com a provecta idade de 83 anos.

Rezam alguns livros brancos, sem confirmação devidamente fundamentada, que no leito da morte sóror Marie Ana conservava a medalha dos Serviços Distintos com Palma, supostamente atribuída ao seu falecido amado pelo ex-rei do Cavaquistão, pendurada no pescoço, sua única e saudosa recordação. Sabe-se, igualmente de fonte insegura, que o alferes Tristão devia o apelido a seu pai que fora fadista e também camareiro-mor de Dona Carlota Joaquina, durante as invasões napoleónicas.

(*1) O aerograma (vulgo bate-estradas na gíria militar), foi o meio de comunicação criado pelo, então, Serviço Postal Militar, que mais encheu as estações de correios durante a guerra colonial; de papel amarelo para os militares e azul para os civis (esta informação é de confiança).

(*2) Cartas originais e não umas tretas apócrifas, com o título "Lettres portugaises", publicadas posteriormente por um maçon oportunista (sempre os mesmos!), cujo nome me escuso de pronunciar, chamado Gaby (para os amigos) Guilleragues. 

SOL DE INVERNO

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Ainda na ressaca de mais um acontecimento indelével que fica registado na memória até final dos meus dias, acontecimento feito de amor, de perda e da inevitável dor que vai demorar a passar, volto a acordar da letargia e tristura dos últimos dias e eis-me a deambular por Lisboa a abarrotar deste simpático sol de Inverno. Porventura a Primavera a querer irromper por aí, cheia de graça.
O carro, deixei-o a quilómetros de distância e vim de Metro até ao centro da cidade. Fica mais barato e polui menos; é uma espécie de dois em um. Por outro lado os alfacinhas não estão assim tão mal servidos de transportes colectivos como pretendem fazer crer alguns comodistas meus conhecidos que só gostam de andar de cu tremido. A gasosa deve-lhes sair ao preço da uva mijona ou, então, ganham bem e saem cedo.
Posto isto pus-me a matutar na minha vida e na de todos nós, afinal, neste quase Abril de todas as esperanças, apesar de tudo, uma vez mais, após 41 anos de falsas expectativas e liberdades implexas.
Passei por alguém que ainda não tinha dado conta de que o dia já alvorecera e continuava a dormir aninhado a um canto de um prédio, entre mantas e jornais. Cruzei-me com duas gajas novas, altas e esguias, com ar petulante, que comentaram qualquer coisa acerca do mendigo, com meio sorriso nas fuças.
O sol também sorria; um outro sorriso, amplexo e docemente quente que nos fazia esquecer, por momentos, a dificuldade que temos - os tesos - em contar os cêntimos até ao final do mês. Um sol indiferente à vida a decorrer cá em baixo.

Continuando a calcorrear por entre magotes de gente taciturna e apressada, inexplicavelmente, lembrei-me do nosso primeiro e, parece-me, exclusivo satélite a entrar em órbita e lembrei-me, também, de pensar nas razões do nosso atraso, passados que são tantos anos de democracia esbanjada...
Dei com uma montra de loja fina e com o meu olhar fixo, involuntariamente, numa senhora loira que compunha um manequim. Mulher bonita, sorrindo para o vazio, quiçá para o boneco, peito generoso, aconchegado numa blusinha azul turquesa, em contraste com o azul desmaiado da decoração da montra. Continuava a sorrir e sorri também. Quando deu conta do meu sorriso, deixou cair o seu. Não tive tempo de o apanhar, conquanto fosse morosa a sua queda, pois parecia leve como uma pena. Apesar dos meus esforços para evitar que caísse, e Deus é testemunha da ginástica que fiz: um passo para aqui, outro para ali, para a frente, para trás, meia volta, volta e meia, e quase que o sentia, diáfano, na concha das mãos: lindo, enigmático - ainda mais que o da Gioconda do Da Vinci - , esgueirou-se por entre os dedos, estatelando-se nas pedrinhas da calçada. Tive pena de ter perdido aquele sorriso tão bonito, mas, enfim, não dramatizemos este pequeno e lamentável episódio; a vida continua e há que aproveitar os momentos bons, tais como esta luminosidade vital que retempera os ânimos e dá um tom bonito à cidade.
Não queria falar sobre política, mas já dei um encontrão na estuporada e, pronto, tenho que acabar. É evidente, para as almas mais insatisfeitas com o estado das coisas, que este é um dos aspectos em que nos sentimos mais furtados, a generalidade...

Mas, espera aí; porra, lá, para a política! Não vou macular isto com essa porca! Pelo menos, por agora. Porque carga de água não desenvolvi, mais ao pormenor, o assunto da troca de sorrisos com a loira desconhecida da montra da loja chique? Bom, não foi bem uma troca de sorrisos, foi mais um desencontro. Seria mais fácil e mais apetecível para as mentes famintas de coisas carregadas de romance, ou desejo, que continuasse a minha história por aí. Prometo que fica para a próxima se me lembrar.

Assim, olhem, se sofrerem de insónias à noitinha (comigo não resultou até à hora em que me dispus a escrever isto, mas...), folheiem, sem ler, algo de Fassbinder, ou Kierkegaard e outras transparências obscuras (mil perdões pelo paradoxo), ordenem, por exemplo, as páginas em numeração pró-isto, ou aquilo - experimentem pró-árabe que agora, com esta história do fundamentalismo islâmico, está na berra - par, ímpar, par e por aí e adormeçam suavemente. Para terminar, nem tudo são tristezas. Lembrem-se de que já nos livrámos do mal afamado casal que morou no palácio de Belém durante demasiado tempo. Para mim foi como ter ido à casa de banho, após uma semana com prisão de ventre...

ADORO FAZER SEXO COMIGO

sexo comigo.jpg

Lambareiros! Queriam sexo, n'era? Em próximo artigo faço-vos a vontade; hoje não estou virado para aí. Vou debruçar-me, antes, sobre um assunto que, embora pareça banal é mesmo trivial, acreditem! Sobretudo, se fizermos uma análise da sucessão cronológica de eventos ou factos que, por qualquer incidente da História nos pudessem ter desviado do caminho exemplar que, como nação, temos vindo a percorrer. Gostaram? Também acho que é um excelente exórdio.

Todavia, penso que a importância da reflexão que se segue é eminentemente transcendente, como irão ter oportunidade de constatar. Imaginemos, por breves momentos, isto, claro está, no domínio da ficção, evidentemente. Imaginemos, pois, que a terceira ilha do arquipélago dos Açores a ser descoberta, tinha sido a ilha do Corvo. Chamaríamos, então, Terceira à do Corvo e Segunda à Terceira? Topam? Ou tentaríamos rodear a questão, chamando à do Corvo a primeira Terceira e segunda Terceira à Terceira. Perceberam, até aqui, onde é que quero chegar? Problemas idênticos poderiam ter alterado o nosso percurso histórico se tivesse sido o Vasco da Gama a atravessar o estreito de Magalhães, ou ainda a Maria de Lurdes Modesto a cozinhar pela primeira vez Bacalhau à Zé do Pipo.

Se Afonso Henriques tivesse nascido em 1499, como poderia ter sido o fundador da nacionalidade? E se só a tivesse fundado nessa época, como poderíamos ter, actualmente, quase nove séculos de História? Mais, ainda: de que serviria ao primeiro rei de Portugal conquistar Lisboa aos Sarracenos, se os gajos não tivessem, ainda, invadido a Península Ibérica? E onde ficariam os tintins do Martim Moniz na História, se a infantaria lusa não tivesse irrompido pelo castelo de São Jorge adentro? Convenhamos que, se o herói e mártir da tomada de Lisboa não os tivesse entalado nas portas do castelo, tomar a cidade aos Suevos, aos Hunos, aos Visigordos, aos Vândalos, ou até, mesmo, aos Energúmenos não teria a mesma graça.

Já agora, seguindo a mesma linha de raciocínio lógico, já imaginaram, também, como há por aí tanto amor desencontrado, perdido, esquecido? Não?...Têm a certeza?... Vejam lá, se precisarem de um ombro amigo, estou aqui, não se façam rogados! 

"LOVE WEDDING MARRIAGE"

a selfie.jpg

Sinopse:

Ela tinha tudo o que qualquer mulher moderna e ambiciosa deseja ardentemente e com muito ardor, diga-se de passagem. inclusive um casamento por conveniência! Por amor da Santa, dá para acreditar?! É que não cabe na cabeça de ninguém! Isto, não obstante o fulano padecer de uma doença muito esquisita, e de difícil articulação: Polineuropatia Amiloidótica Feocromocitomaligna (PAF).

Para além de ser rara e chata como o caraças, o seu tratamento era muito doloroso. Associada a essa terrível enfermidade também sofria de vilosidade intestina nas foliáceas, a qual lhe dava um certo desconforto, sobretudo em pé.

Os pais do casal, compadres desde que se consumara aquela aliança de compromisso, vêem este ajuste ir por água abaixo quando dão com aquela geringonça já instalada, mesmo funcionando a custo! Então, não é que a maldita engenhoca acabara de estragar um vínculo tão bonito? Sentia-se que aquilo era uma relação para durar mais do que as pilhas Duracell (passe a publicidade) e aconteceu o inesperado. Os compadres bem tentaram lutar pela reconciliação do casal, mas já era tarde.

No meio desta louca estória, tiveram que rever o seu conceito sobre tudo aquilo em que sempre acreditaram. Inclusivamente, um dos compadres, após este desenlace tão dramático, decidiu sair de cena até ver. Ele ainda acredita, com todas as suas forças, na revogabilidade da irrevogabilidade.

"Let's look at the trailer"

 

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