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A TORTO E A DIREITO

UM BLOGUE SEM PÉS NEM CABEÇA, A TRECHOS LÚCIDO, CONTUDO, TRANSLÚCIDO...MODÉSTIA À PARTE

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É URGENTE O AMOR

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É urgente o amor.

É urgente um barco no mar.


É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.
 
(Eugénio de Andrade in Antologia Breve, Limiar)

"ONDE É QUE VOCÊ ESTAVA NO 25 DE ABRIL?"

A propósito desta pergunta que se converteu num ícone da imagem do jornalista e escritor Baptista Bastos (BB) e recorrente em conversas de carácter biográfico, ditas e escritas, apraz-me tornar ao assunto do 25 de Abril. É sempre bom recordar factos que nos enchem de orgulho, embora reconheça que não é um sentimento geral. Isto porque ainda há gente que pensa que as ex-colónias eram parte integrante do território nacional. Apesar dos anos, ainda há muitas feridas por sarar, nomeadamente as relacionadas com o processo de descolonização.... Todavia, não podemos, simplesmente, varrer esta data da memória colectiva, como pretendem algumas alas mais 'conservadoras' da nossa sociedade.

Sendo assim, apeteceu-me contribuir, também, para que este dia permaneça perene na nossa lembrança e escrever mais qualquer coisa acerca dessa fantástica e exclusiva data para as gerações que a testemunharam e de alguma forma viveram, particularmente a minha que, na altura da "Revolução de Abril", combatia nos territórios ultramarinos...


Lembro-me perfeitamente - como se fosse hoje - de ter experimentado um sentimento novo: uma mistura de expectativa e alguma apreensão. Expectativa porque, acabado de regressar (provisoriamente) da mais feroz frente de guerra: a da Guiné (não descorando as outras, mas esta era a que nos estava a dar água pelas barbas), e tendo consciência de que não estava livre de volver ao mesmo lugar ou a outros, assim que começaram a surgir os primeiros relatos radiofónicos de um movimento militar, uma das minhas primeiras reacções, pelo menos a mais imediata, foi a de pensar que não ia voltar ao "ultramar"...
Apreensão porque não sabia qual era o carácter, tampouco o objectivo desse movimento, embora tivesse uma noção vaga de que era preciso dar outro rumo a isto. Não porque emergisse, subitamente, da minha razão algum tipo de consciência política ao ponto de julgar o regime que estavam a tentar derrubar, como o mau da fita, mas porque tinha o conhecimento exacto de que a guerra na Guiné estava perdida e, como tal, se prosseguisse, o desfecho ia ser muito mais trágico para o nosso lado...

 

Lembro-me perfeitamente - como se fosse hoje - que antes de frequentar um curso militar na Ota, para o qual havia sido convocado, fui colocado na Base Aérea do Montijo, integrado em manobras militares no âmbito da OTAN.
No intervalo de um turno de trabalho nocturno, aproveitado para esticar o corpo em cima de uma tarimba, entre o dormitar e alguma inquietação própria de quem em estado de alerta (mesmo em simulacro) não deve adormecer profundamente, senti um alvoroço imprevisto vindo da área operacional que não distava muito do local onde eu descansava. Um "Hammarlund" sintonizado no Rádio Clube Português, o emissor que a malta, por opção ou mero acaso, tinha no ar, difundia notícias contraditórias sobre um golpe militar que estava a decorrer em Lisboa. Todavia, não me apercebi imediatamente do que se passava, até que o meu camarada Nicolau me deu um safanão nas pernas para me instar a prestar maior atenção aos acontecimentos. Graves - pensei, depois, com o raciocínio mais lesto e reforçado com um café quente e um cigarro.
À medida que o tempo decorria e o dia ia clareando, a rádio continuava a transmitir marchas militares e música de intervenção, intercaladas com relatos exaustivos de última hora. Parecia que tinha caído o Carmo e a Trindade e, com efeito, o Carmo acabara de cair literalmente...

Contudo, passadas as indefinições iniciais, a situação, lá mais para o fim do dia e dias subsequentes, parecia estar controlada pelas forças militares revoltosas. Tal suposição era baseada exclusivamente no que escutávamos e víamos na rádio e na televisão, pois, desde a madrugada de 25 de Abril até ao dia 1 de Maio, ficámos retidos na unidade: ninguém entrava nem saía, por ordem do comando, talvez ainda indeciso em relação ao lado que pretendia apoiar. Penso, embora sem certeza, que essa ordem era extensiva à malta dos países que participavam no exercício e estava estacionada na base aérea...

 

Passado que foi o 'período de reflexão' do comando da unidade, durante o qual as manobras militares foram mandadas às urtigas, tivemos ordem de soltura no primeiro dia de Maio.

Finalmente chegara, também para nós, o dia tão esperado. Lembro-me perfeitamente - como se fosse hoje - que atravessar o Tejo na lancha militar que nos devolveu a Lisboa, foi algo fantasticamente incomum, relativamente à monotonia de  outras travessias...

Talvez, sugestionados pelo momento particular, ao desembarcar, tenhamos tido a percepção de que pairava sobre as colinas da cidade um efeito de luz diferente, magnífico até, e que ao cheiro a maresia se juntavam os aromas do alecrim e do manjerico. Penso nessa impressão com alguma nostalgia, mas não muita. Os anos ajudaram-me a obter algum calejo emocional e a olhar para trás com uma visão mais lógica e menos romântica do maior acontecimento da nossa História...no meu tempo...

Mas, continuando, onde notámos maior diferença foi nos sorrisos abertos das pessoas que se cruzavam connosco. Inclusive - muitas - pagavam com beijos, abraços e cravos a generosidade dos homens fardados que lhes tinham acabado de restituir a liberdade e a confiança. Era como se fossem os primeiros dias de todas as esperanças, com a particularidade sui generis e, quiçá, única no mundo, de os militares estarem ao lado de um povo...

 

A esta distância temporal, julgo que valeu a pena um punhado de capitães ter lutado (por obra de destino ou acaso, sem sangue) para mudar Portugal.

Muito ficou por fazer, evidentemente, e ficamos com alguma mágoa ao vermos que, entre outras situações de injustiça - para utilizar um termo macio - , questões como a sustentabilidade e equidade social ainda são motivo para discussões políticas (pouco convincentes), passados 44 anos de "democracia". Porém, nada surpreendentes para mim, tendo ideia da fraca qualidade de quem nos tem governado nas últimas décadas...

 

 

 

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