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A TORTO E A DIREITO

UM BLOGUE SEM PÉS NEM CABEÇA, A TRECHOS LÚCIDO, CONTUDO, TRANSLÚCIDO...MODÉSTIA À PARTE

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SOL DE INVERNO

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Ainda na ressaca de mais um acontecimento indelével que fica registado na memória até final dos meus dias, acontecimento feito de amor, de perda e da inevitável dor que vai demorar a passar, volto a acordar da letargia e tristura dos últimos dias e eis-me a deambular por Lisboa a abarrotar deste simpático sol de Inverno. Porventura a Primavera a querer irromper por aí, cheia de graça.
O carro, deixei-o a quilómetros de distância e vim de Metro até ao centro da cidade. Fica mais barato e polui menos; é uma espécie de dois em um. Por outro lado os alfacinhas não estão assim tão mal servidos de transportes colectivos como pretendem fazer crer alguns comodistas meus conhecidos que só gostam de andar de cu tremido. A gasosa deve-lhes sair ao preço da uva mijona ou, então, ganham bem e saem cedo.
Posto isto pus-me a matutar na minha vida e na de todos nós, afinal, neste quase Abril de todas as esperanças, apesar de tudo, uma vez mais, após 41 anos de falsas expectativas e liberdades implexas.
Passei por alguém que ainda não tinha dado conta de que o dia já alvorecera e continuava a dormir aninhado a um canto de um prédio, entre mantas e jornais. Cruzei-me com duas gajas novas, altas e esguias, com ar petulante, que comentaram qualquer coisa acerca do mendigo, com meio sorriso nas fuças.
O sol também sorria; um outro sorriso, amplexo e docemente quente que nos fazia esquecer, por momentos, a dificuldade que temos - os tesos - em contar os cêntimos até ao final do mês. Um sol indiferente à vida a decorrer cá em baixo.

Continuando a calcorrear por entre magotes de gente taciturna e apressada, inexplicavelmente, lembrei-me do nosso primeiro e, parece-me, exclusivo satélite a entrar em órbita e lembrei-me, também, de pensar nas razões do nosso atraso, passados que são tantos anos de democracia esbanjada...
Dei com uma montra de loja fina e com o meu olhar fixo, involuntariamente, numa senhora loira que compunha um manequim. Mulher bonita, sorrindo para o vazio, quiçá para o boneco, peito generoso, aconchegado numa blusinha azul turquesa, em contraste com o azul desmaiado da decoração da montra. Continuava a sorrir e sorri também. Quando deu conta do meu sorriso, deixou cair o seu. Não tive tempo de o apanhar, conquanto fosse morosa a sua queda, pois parecia leve como uma pena. Apesar dos meus esforços para evitar que caísse, e Deus é testemunha da ginástica que fiz: um passo para aqui, outro para ali, para a frente, para trás, meia volta, volta e meia, e quase que o sentia, diáfano, na concha das mãos: lindo, enigmático - ainda mais que o da Gioconda do Da Vinci - , esgueirou-se por entre os dedos, estatelando-se nas pedrinhas da calçada. Tive pena de ter perdido aquele sorriso tão bonito, mas, enfim, não dramatizemos este pequeno e lamentável episódio; a vida continua e há que aproveitar os momentos bons, tais como esta luminosidade vital que retempera os ânimos e dá um tom bonito à cidade.
Não queria falar sobre política, mas já dei um encontrão na estuporada e, pronto, tenho que acabar. É evidente, para as almas mais insatisfeitas com o estado das coisas, que este é um dos aspectos em que nos sentimos mais furtados, a generalidade...

Mas, espera aí; porra, lá, para a política! Não vou macular isto com essa porca! Pelo menos, por agora. Porque carga de água não desenvolvi, mais ao pormenor, o assunto da troca de sorrisos com a loira desconhecida da montra da loja chique? Bom, não foi bem uma troca de sorrisos, foi mais um desencontro. Seria mais fácil e mais apetecível para as mentes famintas de coisas carregadas de romance, ou desejo, que continuasse a minha história por aí. Prometo que fica para a próxima se me lembrar.

Assim, olhem, se sofrerem de insónias à noitinha (comigo não resultou até à hora em que me dispus a escrever isto, mas...), folheiem, sem ler, algo de Fassbinder, ou Kierkegaard e outras transparências obscuras (mil perdões pelo paradoxo), ordenem, por exemplo, as páginas em numeração pró-isto, ou aquilo - experimentem pró-árabe que agora, com esta história do fundamentalismo islâmico, está na berra - par, ímpar, par e por aí e adormeçam suavemente. Para terminar, nem tudo são tristezas. Lembrem-se de que já nos livrámos do mal afamado casal que morou no palácio de Belém durante demasiado tempo. Para mim foi como ter ido à casa de banho, após uma semana com prisão de ventre...

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