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A TORTO E A DIREITO

UM BLOGUE SEM PÉS NEM CABEÇA, A TRECHOS LÚCIDO, CONTUDO, TRANSLÚCIDO...MODÉSTIA À PARTE

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O HOMEM COM AR SUSPEITO

homem com ar suspeito.jpg

Talvez, a aparência do homem que acabara de entrar no casamento sem ser convidado, o tivesse denunciado: o sorriso rasgado de orelha a orelha, a ausência de uma pala negra sobre o olho direito ou do olhar furtivo e desconfiado, imagens de marca de qualquer homem com ar suspeito que se preze de patentear tais particularidades.

Para ajudar a todos estes factores de suspeição, o facto de não se notar a presença de um volume estranho que, normalmente, se deixa adivinhar sob qualquer gabardina, preferencialmente coçada, de um homem com ar suspeito. Sinais por demais evidentes, cuja inexistência comprometia, seriamente, a sua presença no evento.

Sub-repticiamente, dirigiu-se à primeira pessoa que lhe pareceu mais receptiva a perguntas:
«Boa tarde, amigo, desculpe lá, o senhor é que é a noiva?»
«Não, senhor, eu sou o mestre de cerimónias. Porque é que pergunta?»
O homem com ar suspeito puxou a gola da camisola para fora, esgargalou o pescoço e, um pouco menos tenso, respondeu:
«Ainda bem que o encontro, era mesmo consigo que eu queria falar...não queria incomodar...ainda por cima já é tarde!»
Tentando disfarçar alguma perturbação e até temor perante a presença do homem com ar suspeito, o mestre de cerimónias engoliu apressadamente três tigelinhas de Cristal Atlantis - passe a publicidade - , não reparando que duas delas já não continham arroz doce. Sem lhe dar tempo para se desengasgar, o homem com ar suspeito voltou à carga:
«Já agora, talvez me possa informar se o casamento está a decorrer conforme as suas expectativas...»
«Olhe..., se quer que lhe diga..., não sei!» - respondeu-lhe o mestre de cerimónias, quase a sufocar - «Tenho est...estado a assistir à fin...final da Taça.»
Aproximando-se mais do mestre de cerimónias, agora com um ar inquisidor, perguntou:
«Benfica?»
«Com efeito...»
«Porra, já podia ter dito, homem! Venham daí esses ossos!»
Pouco confortável, o mestre de cerimónias olhou em redor e, como já não havia frango, viu-se na obrigação de pedir desculpas; que agora era só refugo, nem sequer um ossinho para chupar; que se tivesse fome ainda se podia arranjar uma sandes de mortadela e escorripichar uma garrafita de Casal Garcia - passe a publicidade...
«Deixe estar, não se incomode, antes de vir para cá, comi qualquer coisa!» - respondeu o homem com ar suspeito, enquanto, dissimuladamente, deixava a mão deslizar para dentro de um bolso da gabardina.
«Mas, talvez me pudesse dar uma ajudinha.»
«No que estiver ao meu alcance, amigo!»
«Olhe - disse segredando ao ouvido do mestre de cerimónias, para não dar muito nas vistas - , tenho aqui umas acções da SLN, fresquinhas, fresquinhas! Faço-lhe um preço de amigo!»
«Ó meu amigo, sei muito bem o que essa porcaria vale agora!»
«Oiça, oiça, espere lá, não se vá embora!» - murmurou o homem com ar suspeito, puxando o outro pelo braço esquerdo, pois era canhoto - Só porque é benfiquista, além das acções que são quase de borla, ainda leva um conjunto de duas toalhas de mesa, três pares de cuecas de senhora tamanho cinquenta e dois, cinco pares de peúgos de lã unisex, tamanho 47, dois panos de cozinha, um avental, dois jogos de cama - um de casal ventoso e outro de solteirão convicto - e, ainda, um chapéu de sol e uma ventoinha a pilhas. Hã, agrada-lhe?» - começou a esvaziar os bolsos da gabardina. - «Pela alminha da minha mulher que Deus tem e era uma santa, eu seja ceguinho! Leve que é material feito em Portugal, nada de chinesices; ainda têm selo e tudo, veja lá! Garanto que vai bem servido. E olhe que nestas coisas nunca me engano e raramente tenho dúvidas!»
«Bem, se você diz que traz selo, é um peso que me tira das costas!» - recuou o mestre de cerimónias, mal refeito do peso que o outro lhe acabara de tirar, a suar as estopinhas e com os olhitos gulosos postos nos panos e na ventoinha. - «Pronto, está bem, fico com isso tudo. Ponha ali em cima do bolo da noiva, se faz favor!»
«A propósito de noiva...» - perguntou o homem com ar suspeito, sacando uma amostra de água de colónia de dentro da gabardina e empestando o ar com o borrifo que espalhou sobre si. - ela é virgem?»
«Olhe, penso que não. Ela é caranguejo, se não estou em erro.»
«Bom, então, posso alimentar algumas esperanças, não?»
«Naturalmente! Sabe como é hoje em dia; casa-se e descasa-se. No entanto, devo informá-lo de que a noiva já está de esperanças, vai para seis meses. Só para não ir desprevenido.»
«Pois, o problema é a falta de água que tem havido. Não chove, é uma chatice!» - retorquiu o homem com ar suspeito.
«Sim, mas não se preocupe. Da maneira que a vida está, mais tarde ou mais cedo, vem de lá chuva, pode apostar mais uns pijamas, uns tapetes, uns edredões, umas mantas e uns cortinados. Vá por mim que sou barbeiro nas horas vagas...»

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