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A TORTO E A DIREITO

UM BLOGUE SEM PÉS NEM CABEÇA, A TRECHOS LÚCIDO, CONTUDO, TRANSLÚCIDO...MODÉSTIA À PARTE

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ALTA INFIDELIDADE

hi-infi.jpg

Você já experimentou construir um sistema de alta infidelidade, hi-infi (não confundir com wi-infi que, ao invés, é alta infidelidade sem fios),  em sua casa? Aposto que deve estar a pensar coisas do género: "este gajo julga que só ele é que percebe de bricolage" ou algo parecido.

Todavia, e longe de mim pretender armar-me em técnico de corrida, caso você seja um perito na matéria, saiba que há tipos que, embora tenham cana, não pescam nada do assunto e é a eles que dedico este artigo. Portanto, está dispensado de ler isto.

Ora, num sistema destes, com o indispensável emprego de tecnologia de ponta, tudo começa pelo amplificador estéreo integrado (não confundir com o meu último amplificador histérico que, após tanto histerismo, desintegrou-se totalmente).

Sem um amplificador com as características de um integrado não é possível dar música, acredite!
Antes de mais, pense montá-la (a alta infidelidade) nas próximas férias de Verão e tente convencer a sua sócia (esqueci-me de referir que este artigo é só para homens de barba rija e mulheres com pêlos no peito) a ir passar a primeira semana de férias a sós com os putos em Monte Gordo. É aconselhável o isolamento para que você se concentre integralmente (integralmente e integrado, está a ver a concomitância?) na execução da tarefa que proponho, para garantir a operacionalidade do equipamento e, obviamente, um excelente desempenho. Além de que é um serviço que dispensa muita gente próxima, barulhos, preocupações extra e também a chatice de ter de distribuir bordoadas a torto e a direito aos fedelhos, pois todos sabemos que os chavalos são uns turbulentos do caraças e deixam um gajo com os nervos em franja. Já agora, ela que leve o Alex e vá dar banho ao cão, não vá o bicho andar armado em cão com pulgas.
Está preparado? Então, 'bora lá!
Compre uma caixa de fósforos de cozinha "Quinas" (passe a publicidade), uma lupa, um compasso, tinta, pincéis e um disco de vinil de 78 rpm (vulgo "Long Play" ou LP) de rock alemão dos anos 60, estilo Krautrock(*).
Regresse a casa e pinte com esmero e minúcia a caixa de fósforos. A cor é ao seu gosto, mas para que tenha um aspecto realista, sugiro que a pinte de "black" ou "silver" (eh pá, desculpe lá, mas os inglesismos, neste contexto, até que não são desadequados).
Num dos lados da caixa pinte pontinhos, vermelhos ou azuis, a fingir que são luzinhas. Pinte também tracinhos, botões e botõezinhos. Em cima pinte uma grelha (não confundir com a gralha da sua sogra) a imitar a área do dissipador de calor.
Entretanto, faça um pequeno intervalo (coffee break em inglês, segundo o tradutor Google que eu de inglês pesco zero) e aproveite para telefonar à sua mulher, só para saber se está tudo bem; é de bom tom e ela vai pensar que você, apesar da ausência, está sempre com  ela e a canalha no pensamento.
Saia novamente, compre dois caixotes de papelão de 90x30x20 centímetros e um rolo de papel adesivo a imitar madeira. A cor, mais uma vez, é à sua escolha, mas aconselho um tom cárneo que é mais sensual e - acredite - consensual. Regresse a casa para finalizar o trabalho.
Forre os caixotes com a película autocolante, trace, com um compasso, três círculos de diâmetros distintos em cada um, correspondentes a três vias ( altifalantes agudos, médios e graves por ordem descendente) e pinte-os de forma convincente. Em seguida ponha a caixa de fósforos entre os caixotes, afastando-os previamente cerca de três metros e dezassete centímetros, pouco mais ou menos.
Saia outra vez e compre um gira-discos. Coloque-o ao lado da caixa de fósforos e ligue tudo entre si, tendo o cuidado de respeitar a polaridade das ligações (vermelho com vermelho e preto com preto). Lembre-se, também, que é preciso respeitar as impedâncias dos aparelhos ou seja: verifique a impedância dos caixotes em relação à impedância da caixa de fósforos. A dos caixotes tem de ser sempre igual ou superior à da caixa de fósforos e não me pergunte porquê porque não percebo puto de electricidade; tenha estes critérios em mente, sob risco da coisa explodir.

Depois de tudo prontinho, ligue para aquela giraça da repartição que, para além de giraça, é boa c'mo milho. Sim, aquela em que você está a pensar, seu bargante do caraças! Ou você pensa q'a malta não topa a vossa troca de olhares cúmplices? Convide-a para escutar rock alemão da década de 60 (Krautrock).
Se ela aceitar e quando chegar, é natural que o vá encontrar de lupa na mão e estendido no chão, mas isso é pormenor e estou convencido de que nem vai achar estranho. Pelo contrário, vai pensar que o conceito é muito excitante. Como tenho alguma experiência destas coisas da electrónica, apesar de empírica, sou capaz de jurar a pés juntos que vai seguir o seu exemplo, estendendo-se consigo, vai ver.
Ponha o disco no prato do gira-discos e olhe para a caixa de fósforos com a lupa. Como, nessa fase, já estão deitadinhos no chão e coladinhos, tenha o cuidado de desligar a luz do candeeiro com o dedo grande do pé direito (se for canhoto use o do pé esquerdo) e, sempre com o recurso indispensável da lupa, aumente o volume até ao máximo, só para testar o som.
O sistema nunca falha, revela-se de fácil manuseio e é, garantidamente, de dupla e alta infidelidade.
E olhe, nem de propósito: você já reparou que, hoje em dia, é tudo um venha a nós que chega a ser escandaloso? Não há gato sapato que não faça greve a pedir aumentos. Por outro lado e a meu ver, até é uma prerrogativa porreira que o 25 de Abril nos legou porque, para sermos realistas, quanto menos se protesta mais se ganha, n'é verdade?
Veja o caso dos nossos deputados, por exemplo...

 

(*) "Krautrock (Kosmische MusikKraut, ou ainda Krautwave) é um nome genérico atribuído às bandas experimentais na Alemanha do fim da década de 1960 e do começo da década de 1970. Originalmente era um termo utilizado de forma pejorativa pela imprensa musical inglesa, e acredita-se que tenha sido criado por ela a partir da expressão popular Kraut, que significa uma pessoa alemã, e por sua vez derivada do prato tradicional alemão chucrutesauerkraut (literalmente "repolho azedo").[1] No entanto, muito por causa do sucesso dessas bandas, o termo ganhou mais tarde um significado positivo, sendo atualmente visto como um título de reconhecimento ao invés de insulto.[2]"

Nota: Aproveitei o comentário do senhor João Cabral para introduzir esta nota explicativa acerca do "Krautrock" que inseri, aleatoriamente, neste post.

A fonte a que recorri, como habitualmente, foi a Wikipédia, dado que, de rock alemão das décadas de 1960/1970, tirando os Tangerine Dream e os Kraftwerk, cuja discografia não me é, de todo, estranha, pesco zero.

Impunha-se esta explicação e bem haja, senhor João Cabral, pelo reparo. Não fosse isso e deixava passar uma imprecisão cronológica.

O PAI NATAL

o pai natal.jpg

A família estava sentada em torno da mesa farta, coberta pela linda toalha de croché bordada pela avó Etelvina ao longo dos últimos noventa e sete anos (é obra!).

Todos se deliciavam a devorar as tradicionais doçarias, próprias da quadra natalícia. Isto, sem terem dispensado o bacalhau com todos, regado abundantemente com azeite extra-virgem Galo (não confundir com azeite extra-virgem Gallo porque não me pagam para o divulgar; era o que faltava!).

Entretanto, sem que estivessem à espera de visitas, bateram à porta.

O chefe de família, visivelmente contrariado e apreensivo (pudera!), deixou cair da boca um pedaço de filhó, prontamente interceptado pelo cão de estimação.

Quem é que se lembraria de interromper um momento familiar tão particular, ademais sem ser convidado e pior: quase à meia noite?! Perguntou quem era:
«Sou o Pai Natal, boa noite e paz na terra aos homens de boa vontade! - foi a resposta do lado de fora - Pretendo ir para Boliqueime, mas, como está muito nevoeiro e escuro como breu, acho que me enganei no caminho. E eu que raramente me engano e agora estou cheio de dúvidas, valha-me Deus!»
«Eh pá, vai enganar outro, meu, essa já não pega! - exclamou o chefe de família, com a boca ainda muito cheia de filhó - Quem é que ainda acredita no Pai Natal, hã?»

«Eu!»- gritou, a criança, sem hesitar.
No entanto, apenas por descargo de consciência - afinal celebrava-se mais uma quadra de amor, fraternidade, solidariedade e coisas afins - , entreabriu a porta e todos (menos o menino) desataram a rir desbragadamente. Diria até indecorosamente (passe a redundância). Do lado de fora assomava-se uma figura tragicómica, quase tétrica, trajando um fato vermelho muito desbotado, com um barrete de cor condicente e umas longas barbas imundas e mal amanhadas, tal e qual o Pai Natal, só que chupado das carochas e aparentemente mal asseado. Ora, toda a gente sabe que o Pai Natal quer-se leitoado, lustrino e limpinho, o que não era o caso. Apesar de tudo, o pobre lá tentou ser o mais convincente que pôde:
«Embora seja difícil de acreditar, garanto-vos que sou o Pai Natal, juro, eu seja ceguinho!»
«Está bem; e eu sou o professor Marcelo!» - Respondeu, sarcástico, o primo Albino que até sofria de albinismo, embora nunca tivesse escalado, sequer, uma montanha. Mais a mais aquela do professor Marcelo até foi descabida porque é evidente que o homem é bem tisnado!
Feitos alarves, continuaram a rir-se do pobre velhinho que afirmava com toda a veemência, ser o Pai Natal...


Cansados de tanto rirem, deram-lhe meia dúzia de broas castelares e um euro, só para se verem livres dele. Além disso, o miúdo ficou muito assustado e confuso com a figura grotesca do Pai Natal. Para não dizer da avó Etelvina que esteve prestes a engasgar-se com uma passa entalada no gorgomilo, por causa da risota. Temendo que desse algum fanico à velha e lhes estragasse o Natal, fecharam imediatamente a porta na cara do pobre homem, tendo este ficado com as barbas entaladas.
Fatigado e muito triste com a falta de solidariedade das pessoas e da Pátria madrasta que o deixara com uma reforma tão miserável que nem lhe dava para as despesas, o Pai Natal deu corda ao burro (queriam renas em Portugal? Dah!) e lá foi a caminho de Boliqueime, afinal a sua terra natal, ao invés da Lapónia. Porra, o homem é cá dos nossos!

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