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A TORTO E A DIREITO

UM BLOGUE SEM PÉS NEM CABEÇA, A TRECHOS LÚCIDO, CONTUDO, TRANSLÚCIDO...MODÉSTIA À PARTE

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É URGENTE O AMOR

é urgente o amor.jpeg

É urgente o amor.

É urgente um barco no mar.


É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.
 
(Eugénio de Andrade in Antologia Breve, Limiar)

"VAI CHATEAR O CAMÕES!"

vai chatear o camões.jpg

É uma frase utilizada com alguma frequência quando se pretende mandar alguém bardamerda sem o recurso incivil a tal vulgarismo. Se bem que também não se pode considerar a locução em epígrafe como uma expressão de fino recorte literário.
A sua origem (a da frase e não a do vulgarismo, pois, este último perde-se na poeira do tempo) remonta ao século XVI, pouco antes da morte de Luís Vaz de Camões que, como se sabe, morreu nas masmorras do Castelo de São Jorge.
O ano da morte do poeta é incerto, dado que existem duas versões: uma assegura que foi em dez de Junho de 1579 e a outra jura a pés juntos que foi em 11 de Julho de 1580. Gerou-se aqui uma grande discussão que se tem perpetuado ao longo do tempo e que, naturalmente, nos causa alguma perplexidade, sendo que o caso não é para menos, como é fácil de depreender.
Sabe-se, isso sim, que Camões expirou o último suspiro numa enxovia do Castelo de São Jorge, doente, abandonado pelos amigos, desgostoso com o desaparecimento do Rei Dom Sebastião em Alcácer-Quibir e, sobretudo, com a traição da fidalguia à Pátria por não ter oferecido resistência à ocupação castelhana. Mas isso dava outra estória e, desculpem lá, mas desta vez não posso divagar senão esqueço-me do que vem a seguir. Adiante:
Conta-se que os carcereiros achavam muita piada às declamações poéticas do nosso "Homero", nomeadamente à exaltação e veemência que imprimia às suas récitas. 
Os patetas escarneciam daquele velho decrépito(*) e zarolho que ousara escrever um poema épico que ninguém entendia. Com efeito, a malta era muito atrasadinha; já nesses tempos, louvado seja Deus!
A profissão de carcereiro também não exigia esforço intelectual, é preciso dizê-lo. Contudo, era muito chata e nem todos tinham estômago para abraçar a carreira. Por conseguinte, só os tolos é que aceitavam aquele trabalho.
Luís Vaz era, à altura, o único residente nas masmorras do castelo. Com tanto bandido à solta, não se compreendia porque é que aquilo estava às moscas. Todavia, prometo explicar a razão de tal fenómeno lá mais para a frente se não me esquecer.
Até os guardas andavam às moscas, não sabendo como ocupar o tempo. Assim, antes que ficassem com a mosca, bebiam zurrapa, jogavam à lerpa, à vermelhinha, ao montinho, à bisca delambida, contavam anedotas do Cavaco, falavam de putas e pouco mais; ser carcereiro era um enfado do caraças, pá!
Entretanto, quando o aborrecimento se tornava insuportável e já torravam a paciência uns aos outros, havia sempre um parvo que dizia para outro: «Olha, vai chatear o Camões!»
E assim se entretinham, quando não havia mais nada para fazer ou conversar, maltratando o desgraçado das maneiras mais torpes, inclusive roubando-lhe a pala que usava sobre a região ocular onde outrora existia um olho que perdera num jogo de Poker, no Grand Lisboa Casino. Daí ainda ser usual, em Macau, dizer-se que "Camões perdeu o olho por dez patacas". A título de curiosidade, as patacas eram moedas que cresciam numa árvore.
Gozavam, também, com um colar de louros, já muito ressequido, que ainda conservava religiosamente, mercê de um doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Coimbra, fruto da sua dedicação fervorosa às praxes académicas e outros notáveis contributos.
Conta-se que o catre de Luís Vaz era um antro cheio de tudo quanto possamos imaginar, digno de um cenário lúgubre, repleto de imundície e putrescência.
Por muito inverosímil que se nos afigure tal ambiente, também não o devemos rejeitar totalmente. Alguma coisa deve ter sido verdadeira, apesar de haver uma tendência cultural de acrescentar pontos aos contos.
Fica-se sem saber, ao certo, se o nosso maior Poeta sofreu grandes tormentos com as vilezas dos insanos carcereiros; os indícios levam a crer que sim, embora com reservas. O que se sabe, ao certo, é que ele ficava pior que uma barata quando o obrigavam a dividir as orações do canto V dos Lusíadas. Esse, para ele, era, literalmente, o seu Oceanus Procellarum (segundo o tradutor do Google que eu, de latim, pesco zero)!
Para rematar isto com alguma concisão histórica e, por conseguinte, com alguma (não muita) seriedade, dizer que Camões aguentou-se nas canetas até ir-se abaixo das ditas, com Filipe II de Espanha (Filipe I de Portugal) a instalar-se, de pedra e cal, no paço.
Mas, importante para a compreensão da alma e da obra do poeta e perpetuar a sua memória, é que foi devido à sua condição de prisioneiro que nasceu a tal frase que se tornou muito comum no quotidiano dos portugueses e, como o saber não ocupa lugar, aqui fica mais uma contribuição pessoal, sem fins lucrativos, para a divulgação da nossa estória que anda tão desarraigada dos nossos conhecimentos.
 
 
(*) 56 anos era considerada uma idade muito avançada para a época.

COM DUAS PEDRAS NA MÃO

com duas pedras na mão.jpg

A origem desta frase é muito mais antiga do que parece e, segundo o meu ponto de vista, que até pode ser turva, talvez derivada de algum cansaço, vou tentar explicar porquê:

Segundo o calendário gregoriano(*), esta expressão data dos tempos afonsinos, sendo, pois, uma frase de origem bíblica. Arriscaria afirmar que é antediluviana, mas vamos por partes porque não gosto de estar com partes senão ainda me mandam àquela parte.

Passarei, então, à descrição dos factos, tal como eles deviam ter figurado nos livros sagrados, se não tivesse havido um pequeno erro tipográfico; uma espécie de página em branco que me obrigou a improvisar. Peço, desde já, desculpa por alguns anacronismos, normais neste género de narrativas.

Como é do conhecimento público, Jesus de Nazaré tinha um grande amor por todos os trabalhadores, sobretudo os manuais. O próprio, antes de se dedicar a pregar o Evangelho segundo Ele, exercera o mister de carpinteiro, que seu pai adoptivo(*), José, lhe ensinara desde tenra idade, facto donde proveio a velha máxima: "de pequenino é que se torce o pepino".

Por isso, e porque tinha uma grande preocupação social e uma consciência política prodigiosa e, obviamente, ímpar para aquela época, gostava de visitar e conversar com o operariado. Pode-se considerar, sem exagero, que foi, talvez, o grande precursor do sindicalismo revolucionário depois Dele, a grosso modo...

Certo dia, em visita à região de Estremoz a convite de um compadre e correligionário, Jesus parou junto a uma pedreira onde esforçados homens trabalhavam o mármore. Estacou bem perto de um deles que logo caiu de borco, aparentemente encantado com a magnífica presença do Filho do Senhor; e Jesus disse: «Que fazes, irmão? Levanta-te e anda! Sou lá pessoa de reverências, homem de Cristo?!», ao que o trabalhador retorquiu: «Mestre, aqui é o meu labor; só que tropecei nestas pedras e caí!», e erguendo-se com as lascas marmóreas na mão(*), exibiu-as para que o Mestre carpinteiro as contemplasse. Jesus disse: «Não ouses falar para mim com duas pedras na mão porque todo aquele que tiver telhados de vidro, entrará no Reino do Céu pelo buraco de uma agulha (vulgo buraco negro)! Ademais, transformá-lo-ei numa estátua de sal, se se atrever a olhar para trás, mesmo de relance! No entanto, como a vindicta não me compraz, ao contrário do que muita gente pensa, perdoarei ao sacana que negar o meu nome, mas só na condição do galo cantar três vezes! Se o galo não cantar, tenho pena!

Portanto, quem não está comigo está contra mim (uma grande verdade)! E quem estiver comigo jamais em tempo algum estará sozinho (lógico, apesar da redundância)!»

Ouvindo isto, o trabalhador, temeroso e simultaneamente maravilhado, arremessou as pedras para longe, primeiro uma e depois a outra, ficando conhecido na história como aquele que lançou a primeira e a segunda pedra, seguidinhas.

O Cavaco só lançaria as "Pedras Preciosas na Arte Sacra em Portugal" muitos séculos mais tarde.

 

(*) O calendário gregoriano foi promulgado pelo Papa Gregório XIII, se a memória não me falha, em 1582. Daí a frase corrente: "chamar o Gregório", da qual não se consegue extrair qualquer relação com o calendário.

(*) A fazer fé nas sagradas escrituras, deduz-se que José não foi o pai biológico de Jesus, uma vez que o "Filho de Deus foi concebido por obra e graça do Divino Espírito Santo" na pessoa de Maria de Nazaré que se manteve virgem até ao final dos seus dias. Ademais, os testes de paternidade, nesses tempos recuados, ainda estavam pouco desenvolvidos e não eram comparticipados pelo SNS, por conseguinte, só Deus sabe...

(*) Não se sabe, ao certo, se teria sido a mão direita ou a esquerda, mas penso que é irrelevante para a estória.

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