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A TORTO E A DIREITO

UM BLOGUE SEM PÉS NEM CABEÇA, A TRECHOS LÚCIDO, CONTUDO, TRANSLÚCIDO...MODÉSTIA À PARTE

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PEDRO E INÊS: UMA ESTÓRIA DE FACA E ALGUIDAR

pedro e ines.jpg

Inês foi aia e Pedro foi rei. Para quem não está ao facto, isto, de facto, foi um facto. Logo, tivemos mais um caldo entornado na nossa História ou um caldinho como é comum dizer-se. Tanto que se consumou e tragicamente se consumiu.


Então (ou nesse ou naquele tempo, conforme vos aprouver), nas galerias sombrias do Paço, Pedro cruzava-se, amiúde, com Inês, ali, a dois passos, e reparava que os seus olhos eram lindos e de uma luminescência esfuziante. Para não dizer dos ombros que eram alvos e cândidos; davam para encher o olho (mais adiante, explico a razão porque davam para encher o olho). De tal modo que, cada vez que se viam, Pedro sentia uma vontade desmedida de lhe deitar a alça do vestido abaixo.

Permitam-me, aqui, uma pequena digressão: Segundo estudos efectuados muito recentemente, está comprovado, por portas e travessas, que os reis eram uns licenciosos do piorio (não confundir com licenciados porque, salvo honrosas excepções, eram uns bestuntos analfabetos), capazes dos piores desregramentos, pondo em causa o pundonor da monarquia. É claro que estes hábitos ancestrais não constituem novidade para quem está a par das marotices da nobreza de antanho. No entanto, é só mais uma achega para tentar desmistificar a falsa noção que as pessoas têm acerca da superioridade moral da aristocracia de outrora. Felizmente que a fidalguia, agora, tem maneiras! Honras lhe prestem porque fidalguia sem comedoria é gaita que não assobia, como disse alguém, não sei quem. Prossigamos:


Certa noite de luar (como sabem, o luar nada mais é do que a luz do Sol reflectida pela Lua), a aia devaneava, doce, lânguida, derramando uma lagrimazinha de crocodilo, quiçá pelas cebolas do Egipto, entre frondosos arbustos, aprumando o busto, inalando a fragrância que vinha do Mondego ou talvez do Alva, quando Pedro, arrastando o manto, coçando o mento, exalando menta e avivando a mente, se encontrou com ela, cara a cara e de caras e - reza esta estória - pintaram a manta. 
O calor da noite (ou entusiasmo), a brisa branda do Dão, o aroma das benefes, a distância dos olhares pudibundos e furibundos dos cortesãos e cortesãs, fez com que os dois amantes inacabados percebessem que era chegado o tempo de acabar com aquela indefinição do amor.

Sem perderem tempo, submeteram-se, segundo a própria vontade, aos ímpetos lúbricos da carne, como convinha e, claro, a bronca estalou: toda a corte ficou a saber que o rei estava metido numa grande alhada por via de uma bela plebeia, pois embrulhara-se nas saias de uma, pondo em perigo os bons costumes, usos e abusos da realeza.

Vou abreviar isto porque não me está a correr bem, peço desculpa...


A troco de uma mão-cheia de Dobras, três magalas horrentes, coniventes e sem dentes, apanharam Inês, lavando no rio, desacautelada, semi-nua, semi-inconsciente das intenções maliciosas dos conspiradores, defensores da nata e, com a frieza inata dos estripadores, vararam-na...


Pedro uivou que nem um lobo, espumou de raiva que nem um cão, berrou que nem um bode e jurou vindicta.

Cavalgou por todo o reino e além fronteiras, conforme tinha aprendido no livro de Bem Cavalgar Toda Sela, vasculhou as comarcas, as dinamarcas, perscrutou as marcas, as peugadas, os rastos, os indícios, os vestígios, os sinais, enviou emissários, comissários, mercenários e, por fim, caçou os sanguinários.
Os assassinos a soldo foram sumariamente presentes ao Rei que os esventrou, sem mais aquela, perante uma multidão exaltada, aficionada e sedenta de sangue e arena.

Ao primeiro extraiu-lhe o fígado pelas costas e fê-lo em iscas. Ao segundo, sacou-lhe o coração pelo peito e, tendo-o desfeito, jogou-o aos cães; a multidão ululava de prazer mórbido e gritava "olé!". O terceiro jamais apareceu, mas foi excomungado, exonerado e expulso das Forças Armadas, sem direito a qualquer estipêndio ou subsídio.
Depois, com uma lágrima ao canto do olho, dado que era zarolho, Pedro sentou o corpo jacente e arrefecido de Inês numa poltrona e jurou punição aos poltrões. A fidalguia contrita, temendo o castigo régio, comia tremoços e pevides e enganava a inquietude torcendo as orelhas.
Um a um, em fila do pirilau (fila indiana), vieram beijar as mãozinhas frias de Inês que lhes retribuía com um sorriso de morte.
Nunca casaram nem tiveram filhos, tampouco foram felizes para sempre. Também nunca brincaram às escondidas ou à apanhada, mas amaram-se perdidamente até ao fim.

Passados séculos, ainda se escuta o restolhar dos seus corpos quando se passa junto ao túmulo, no Mosteiro de Alcobaça.

Nota final: Mais uma vez quero pedir desculpa ao professor José Mattoso pela minha falta de rigor histórico e, por conseguinte, elevada ignorância. Muito obrigado e bem haja!

AINDA SOBRE A CRISE DA VELHICE E OUTRAS COISAS CHATAS DA IDADE

a velhice3.jpg

Nota breve: Há tempos, tinha escrito alguma coisa relacionada com o assunto em epígrafe, até como homenagem póstuma a uma pessoa que me era muito querida. Todavia, o que se segue a esta nota tinha-o deixado em jeito de comentário no blogue da Maria quando ela sugeriu, simpaticamente, que isto podia dar um artigo. Assim, com algumas alterações e algum excesso de auto-estima à mistura, aqui fica a transcrição, agradecendo o estímulo da minha "colega" bloguista; e, a talhe de foice, o meu pedido de desculpas às pessoas que fazem o sacrifício de passar por aqui, por repisar o tema.

 

O enorme problema (ou mais um dos muitos problemas que inventámos) é o de vivermos num mundo que cultiva (alimenta) a apologia da eterna juventude. A coisa vai-se tornando mais difícil de suportar, na medida em que nos confrontamos com o espelho, ano após ano, naturalmente. Pelo menos, enquanto não descobrirem o "elixir da juventude eterna".
Numa sociedade que privilegia o supérfluo, a valorização descomedida da juventude acaba por criar uma espécie de estigma da velhice. Não sei se o papel dos velhos é tão subestimado noutros lugares, mas, por cá, existe e persiste o sentimento generalizado de que os idosos já não têm nada para dar à sociedade; são uns chatos esclerosados e, por conseguinte, uns atrasos de vida, é uma ideia que tem atravessado gerações (dava pano para mangas, este assunto). 
"Lugar aos novos" é uma expressão muito enraizada em algumas culturas, nomeadamente na nossa, que reflecte bem o que afirmei. 
Todos passámos, passamos ou passaremos por crises. Fazem parte dos nossos conflitos interiores e vão surgindo ao longo das nossas vidas. Ninguém lhes é isento e têm mil causas. Acredito que se acentuam com os anos e que, consoante a nossa resiliência mental, minimizá-las seja uma luta constante.

Contudo, continuo a não acreditar no "envelhecimento com alegria"; é uma tanga. É claro que discutir estes estados de espírito não os torna assuntos do dia, nem me tiram o sono; por agora.


Há quem diga que, na essência, as nossas crises são crises de valores, tais como tradição, crenças, normas de conduta social; enfim, coisas inventadas pelo homem para que todos andemos muito certinhos e com as contas em dia com "Deus". Ou, por outras palavras, para que o processo de participação numa sociedade "pacífica" filtre indivíduos pouco cordatos, dada a sua resistência ao status quo e, assim, gere sujeitos mansos...

Na minha modesta opinião, julgo que as crises da humanidade vão muito para além de todas as normas e juízos: são profundamente existenciais; são reflexos dos nossos medos e da nossa constante perseguição da imortalidade ou, pelo menos, a pena desmedida de não podermos regressar ao útero materno. O tempo é cruel, como dizia alguém, não sei quem... 

Ó TIO, Ó TIO!

ó tio, ó tio.jpg

«Ò tio, ó tio! O tio sabe que, hoje em dia, há um novo meio de comunicação?»

«Ah, sim, meu insigne sobrinho? Então, diga lá!»

«Ó tio, vá lá, estou a falar a sério! Foi descoberto um novo meio de comunicação!»

«Está bem... e que meio vem a ser esse que lhe suscita tanto entusiasmo?»

«Ó tio, o que lhe sei dizer é que são umas vias tão rápidas, tão rápidas que a gente nem sabe aonde vai parar, pois acontece tudo num ápice!»

«Aonde você vai com tanta velocidade?! Troque-me isso em meninos, miúd...em miúdos, quero dizer!... E num ápice?!... Acho que estamos a ir depressa demais...»

«Pois estamos, tio, mas é porque as vias são bestialmente velozes!»

«Você não estará a fazer confusão com aquela coisa da física quântica que teletransportava o Capitão James Kirk e o Senhor Spock para a outra banda enquanto o diabo esfregava um olho?»

«Talvez tenha razão; parece que essas coisas mandam, efectivamente, as pessoas à outra banda, como o tio diz...»

«Mas, isso tornou-se banal, meu caro sobrinho! Não se esqueça de que estamos a falar de um meio de comunicação, indistintamente do tipo: toda a gente está constantemente a mandar para aqui e para ali a torto e a direito, menino!»

«Ó tio, fique descansado que eu vou investigar e depois conto-lhe como é que são elas!»

«Espere aí, meu rico menino. Agora fiquei cheio de curiosidade. Pode-se saber, ao menos, o nome desse novo meio de comunicação?»

«Ó tio, por via de regra, são vias de facto!»

 

«Ó tio, ó tio!»

«Diga lá, agora, sobrinho!»

«O tio, sabia que o homem é uma criança?»

«Ah! Ele é isso? Olha que menino, hã?!»

 

«Ó tio, ó tio!»

«Hum?»

«O tio sabia que o homem é um animal que come muito?»

«Ah, sim?! Espere aí que eu já lhe dou o arroz!»

A BANANA E A ACTUAL CONJUNTURA

a banana.jpg

O excelentíssimo senhor Presidente do Conselho de Ministros reuniu, de emergência, o CME (Conselho de Ministros Extraordinários), na Presidência do Conselho de Ministros em São Bento.

Importa salientar, para quem não está familiarizado com o universo ministerial, que os ministros ordinários têm assento noutro conselho: o Conselho de Ministros Ordinários.
Embora não haja, por enquanto, qualquer comunicado oficial, observadores bem atentos (com bom ouvido; direito ou esquerdo, tanto faz) admitem que o actual elenco governativo vai ter de enfrentar duras críticas da oposição para justificar, de forma convincente, a causa da situação bizarra de toneladas de cascas de bananas que apareceram espalhadas pelas escadarias de acesso ao Parlamento. É um tema que estará certamente na agenda do dia, dado que não se sabe quem as despejou e com que intenção. Já há, até, quem especule que se pode tratar de um acto terrorista perpetrado pela jihad islâmica. Contudo, sendo prematuro tirar ilações, é seguro que vai constituir motivo de debate na AR, com altercações muito violentas e, quiçá, escorregadelas à mistura. Mas, mudemos de assunto.
No atinente (atinente soa bem neste contexto, caraças!) à actual conjuntura pensa-se que não há falta de articulação, excepto uma ou outra situação embaraçosa, coisinha pouca e, nesse sentido, a juntura está para durar. Até consta, por portas e travessas, que o ministro do Desemprego e Insegurança Social fez uma proposta no sentido de ninguém mexer uma palha, dado que a situação sócio-económica está a melhorar a olhos vistos; contado ninguém acredita.

Seria, assim, um período experimental de reflexão profunda, tipo "De Profundis Valsa Lenta", experiência pessoal que o saudoso José Cardoso Pires relatou como um ensaio em branco, tendo sido antecipadamente aprovado pelo ministro do Erário, só para não ter que acrescentar uns pontos e retirar umas vírgulas na proposta do OGE para 2019, de per si ("de per si" também fica muito bem, aqui) fanadote. Deste modo não teria necessidade de se armar aos cucos, fazendo-se passar por muito entendido na matéria, lá porque é presidente do Eurogrupo.
Todavia, o Ministro da Inducação e Ciências Ocultas vai, certamente, preconizar que se devem submeter todos os estabelecimentos de ensino, inclusive os ocultos, sobrenaturalmente, a um período de revisão da imatéria dada.
O ministro da Doença Crónica deverá propor a vacinação em massa de todas as massas, sobretudo das duras, não se sabendo, por enquanto, contra o quê ou quem, esperando-se a qualquer momento a emergência de algum vírus muito pernicioso e obstinado; com a cláusula de que a recusa à vacinação pode ser sujeita a forte sovadela no infractor e consequente perda de pontos no cartão de acesso ao "médico de família" que, como se sabe, é uma figura de estilo.
A Ministra da Justiça Cega deverá consultar a Procuradoria Geral da República das Bananas sobre se os dias contados a mais nas penas dos reclusos devem ser, ou não, descontados para efeitos de reforma.
Contudo, a mais popular e justa (não consensual) das medidas, deverá ser a que foi sugerida ao Ministro do Erário, pelo seu colega da Economia Paralela: aumentos e regalias para todos, pois há dinheiro a rodos. Consta que o senhor Presidente do Conselho de Ministros já terá desaprovado, energicamente, tal sugestão, berrando o seu desacordo aos ouvidos do ministro, dado que, alegadamente, o tipo é surdo e mudo, mas conta tudo. Como sempre, as paredes têm ouvidos.

Comenta-se à boca cheia, pelos corredores da AR, que o senhor Presidente do Conselho de Ministros terá dito em surdina a outro ministro vá-se lá saber quem, que não era uma ideia em mente, mas, infelizmente, demente. Vamos ver se alguém desmente...
A talhe de foice, esclarece-se que a banana, apesar de ser rica em vitaminas, sais minerais e outras coisas mais, deve ser comida depois de descascada. Aqui fica a clarificação e a advertência...

AURÉLIA

aurélia.jpg

Aurélia tinha um corpo de sonho: uma anca graciosa, uma coxa bonita, uma perna bem torneada e um pé de lótus. Porém, o seio  era o que despertava todos os sentidos que, como se sabe são cinco: visão, audição, tacto, olfacto e paladar. Houve alguém, não sei quem, que se lembrou de um sexto, mas isso é outro filme.

Cheio, embora não exageradamente, podia-se tomar, não a peito, mas como um seio farto. Aliás, igualzinho ao que tivera a sua mãe, a sua avó e, pasmem-se (também fiquei boquiaberto), o seu bisavô! Era, indubitavelmente, o seio da família. Contemplar tal seio era um consolo para os olhos e um lenimento para as dores d'alma; era como estar no seio de Deus.

É claro que Aurélia tinha tudo no seu lugar e aos pares, mas se escrevesse, por exemplo, que tinha dois seios, isto perdia a piada toda. Assim, ainda vale meia piada e viva o velho!

Herdara também o hábito espontâneo de ter o coração ao pé da boca ainda que, às vezes, falasse com ele nas mãos. Contudo, não tinha pêlos no coração. Honra lhe seja feita.

Sobrava-lhe, isso sim, aquela inevitável tendência impulsiva para dizer tudo à boca cheia. É claro que andava sempre com o credo na boca, como não podia deixar de ser! Depois, admirava-se de andar nas bocas do mundo! Pela boca morre o peixe; é o que é e sempre foi!

À noite, recolhia-se pela calada; ninguém dava pela sua ausência. Era raro escutar-se-lhe uma palavra, um murmúrio sequer; quando muito, um suave ressono. Até lhe chamavam, por brincadeira, a calada da noite, predicado que estava associado ao acto de dormir. Realmente, Aurélia, dormia.

Costumava sentar-se numa chaise-longue (a "chaise-longue" fica bem aqui; dá um ar mais chique à descrição) com uma perna às costas. Além disso, tinha outra perna porque, graças a Deus, Aurélia tinha um par de pernas. Todavia, não era um par de pernas qualquer: com efeito, era um par de pernas composto por duas pernas, digamos assim. Demais a mais, eram duas pernas de se lhes tirar o chapéu (ou de chapéu na mão), como podem constatar na fotografia a meio corpo; tanto esquerdo como direito (o meio corpo). Já notaram?... Não?... Então é porque ainda estão a digerir o seio farto da bela Aurélia. Experimentem do meio corpo de frente ou de trás. Olhem com atenção! Se for preciso recorram a uma lupa.

Ainda está para aparecer alguém que se venha (peço desculpa pelo termo infeliz "se venha") para aqui gabar de ter uma fotografia a corpo inteiro. Até porque, na verdade, Aurélia sempre fora mulher de furtar o corpo ao que quer que fosse. Não era pessoa para dar o corpo ao manifesto, isso não! Pelo menos de corpo e alma!

Penso que o caso dela não era virgem, caso contrário seria um caso sério, mas, ainda assim, um caso casto. Em todo o caso não foi um caso fortuito, muito antes, pelo contrário! Às vezes são coisas que não vêm ao caso, acontecendo por acaso. Até porque Aurélia era caranguejo e isso trouxera-lhe alguns contratempos porque não era mulher de avanços, coitada!

Aurélia, só tinha um defeito: a sua língua era de prata e comprida. Além disso era muito viperina (a língua de Aurélia); e para dar à língua, não havia ninguém que se lhe igualasse. Uma coisa é certa: fosse em que circunstância fosse, Aurélia não tinha papas na língua. 

Por último, quando se tratava de puxar pela língua de alguém, ninguém melhor do que ela para levar, fosse quem fosse, a revelar o que desejasse saber. Também sabia tudo na ponta da língua, faculdade admirável, numa mulher como Aurélia. Também era certo que tinha sempre alguma coisa debaixo da língua para sustentar uma conversa. Criatura fantástica!

No fundo, Aurélia era uma mulher cheia de singularidades.

"SEMPRE FOI ASSIM"

dizem sempre foi assim.png

"Sempre foi assim" é uma expressão evasiva. Cheira a conformismo e, por conseguinte, falta de entusiasmo. Corta drasticamente todas as esperanças. É um argumento oposto à perspectiva de que "para melhor, está bem...; para pior já basta assim", recorrendo novamente a uma paráfrase.

Quando não é exactamente assim e alguma coisa muda, pauta-se, diria quase sempre, pela falta de equilíbrio. Explicando melhor e recorrendo agora a um provérbio acerbo: "Uns comem os figos, a outros rebenta-lhes a boca"...

Naturalmente que se está melhor hoje do que dantes, é indesmentível; aliás, no meu tempo, o feijão era a cinco tostões o litro! Com efeito, houve evolução, mas continua muito abaixo das expectativas. Prometem-se mundos e fundos a torto e a direito, é humano. São promessas criadas pelos vendedores de banha da cobra do costume, uns línguas de pau a que a generalidade já não liga, sabendo-se que são vãs.

Assim, e porque as mudanças são sempre tardias e insuficientes, os pobres subsistem um pouco menos pobres e os ricos ficam ligeiramente mais ricos, a grosso modo. Está tudo relacionado com as "crises", diz a gente que entende muito destas coisas e sustenta que a pobreza é um facto social inevitável. Outra gente vai mais longe e afirma que a pobreza é uma consequência da busca pelo desenvolvimento e progresso...

Acho que a liberdade, se calhar, não permite que a pobreza seja erradicada porque ser pobre parece ser um estatuto adquirido à nascença, uma espécie de estigma que não se pode extirpar. Nasce-se pobre, morre-se pobre. A mesma premissa também pode ser válida para os ricos. Pelos vistos, trata-se, aqui, de duas disposições estatutárias que determinam 'direitos' adquiridos. Do mesmo modo, pode-se nascer pobre e morrer rico e vice-versa, mas isso será assunto para um artigo exclusivo.

 

Ainda sou do tempo ("da outra senhora") em que um pobre estava proibido de assumir publicamente o seu estado, pelo menos em locais muito bem frequentados. A pena era, invariavelmente, a Mitra. Não a mitra pontifical, usada pelos prelados de algumas igrejas cristãs, mas o albergue para onde ia, temporariamente, se fosse apanhado a mendigar na via pública. Pelo menos, penso que não lhe faltaria uma sopinha para ficar mais aconchegado. Em teoria...

Passadas que são algumas gerações e vivendo-se, agora, numa sociedade "democrática", a substância da pobreza de hoje não está a ser muito diferente de outras que se julgavam suprimidas do quotidiano. Pode-se dizer, usando um eufemismo, que é uma substância mais discreta, até "envergonhada"...

 

Pela lógica do poder do dinheiro (plutocracia), cuja ideia e prática parecem dominar a sociedade global, o objectivo (com bons resultados para os detentores desse poder) é reduzir as pessoas a mão de obra mal paga e sem direitos. Parece que se está a assistir a um retrocesso civilizacional e já não há vontade nem força para contrariar este trágico recuo. É uma lógica tão cega e insensível como um processo meramente físico, coisa automática e destituída de humanidade.

A ética social deixou de coexistir com um certo "capitalismo humanista"; se é que alguma vez se respeitou tal conceito nos sistemas supostamente democráticos. Não quero dizer, com isto, que os regimes alegadamente socialistas foram um sucesso em termos de equidade social, mas, outro sim, pensar que a discussão em torno de antagonismos ideológicos, na minha humilde opinião, já não faz sentido para o comum dos mortais (não comprometido com a política e os negócios - a simbiose perfeita), se me permitem algum cinismo nesta afirmação...

 

Com base no novo (velho) aforismo de "um por um e Deus por todos" ou mais por uns do que por outros, é possível viver numa ilha rodeada por um mar de pobreza desde que ele não encapele, transpondo os seus limites. 

 

Um senhor de provecta idade - já falecido -  e, naturalmente, muita vivência e calejo, com o qual tive alguns desabafos, respondeu, um dia, a uma pergunta que lhe fiz sobre o que pensava acerca de uma sociedade mais justa e, naturalmente, equilibrada: "Nem que venha Deus!" Ele que até era ateu.

 

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