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A TORTO E A DIREITO

UM BLOGUE SEM PÉS NEM CABEÇA, A TRECHOS LÚCIDO, CONTUDO, TRANSLÚCIDO...MODÉSTIA À PARTE

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POEMA PRÓ PUDOR

cesário verde.jpg

Todas as noites ela me cingia
Nos braços, com brandura gasalhosa;
Todas as noites eu adormecia,
Sentindo-a desleixada a langorosa.

 

Todas as noites uma fantasia
Lhe emanava da fronte imaginosa;
Todas as noites tinha uma mania,
Aquela concepção vertiginosa.

 

Agora, há quase um mês, modernamente,
Ela tinha um furor dos mais soturnos,
Furor original, impertinente...

 

Todas as noites ela, ah! sordidez!
Descalçava-me as botas, os coturnos,
E fazia-me cócegas nos pés...

 

Cesário Verde, in O Livro de Cesário Verde

 

José Joaquim Cesário Verde: 1855 - 1886, poeta...

REQUERIMENTO AO REI

gomes leal.jpg

 

Visto que aquela antiga fibra histórica

da Honra é coisa velha, e que não vale um chavo,

e a Justiça uma flor sòmente que a Retórica

põe à janela, ao sol - como a burguesa um cravo;

 

 

 

Visto que aquele forte e antigo herói, o Brio,

que andou na Grécia, em Roma, em Diu, Aljubarrota,

é hoje um velho tonto, asmático, com frio,

que traz um chapéu pífio e uma casaca rota;


Já que é ainda a Igreja, a exótica coruja,
que odeia o recto sol, e só em trevas anda,

e a Moral uma colcha, aparatosa e suja,

que D.Instituição estende na varanda;

 

Já que da antiga Lei, a deusa cuja porta

entravam a tremer as almas mais tigrinas,

resta a pele hoje só duma pantera morta,

onde se põe os pés mimosos das meninas;

 

Já que é «Amor do Bem», a cândida bonina,

que o Estado põe ao peito, e que enternece os tolos,

e a Economia ideal, chorosa cavatina,

que a Monarquia canta em noites que dá bolos;

 

Já que é a ilustração o grande dó do peito,

que a Ordem faz soltar duma garganta d'ouro,

e o Progresso, o gentil, mimoso amor-perfeito,

que a loura opinião bordou para o namoro;

 

Pois que chamam ao Génio um louco - que se mete

a lutar contra os reis e mais os seus furores

que não arrasta o estro em forma de

tapete, nem faz da Inspiração um capacho de flores;

 

Visto que é inda hoje, o heróico Pensamento,

o crânio que combusta a lava do trabalho,

um doido, um pobretão, que na trapeira, ao vento,

namora D. Ideia, e come açorda d'alho;

 

Visto que é hoje o Estudo um sórdido trapeiro,

cuja lanterna desce aos antros onde há gritos,

e a austera Probidade um reles pardieiro,

desabitada há muito, e há muito com escritos;

 

Enfim, já que não tem o Roubo antipatias,

o ferro em brasa, o estigma, as infamantes notas,

- é preciso extirpar, ó rei! as regalias

do que furta milhões sobre o que furta botas.

 

É preciso extirpar o preconceito sério

contra o gatuno audaz, jovem, mas sem bom senso,

que não pôde trepar ainda a um ministério,

e teve tempo só para furtar um lenço.

 

É forçoso arrancar o vil labéu do pobre

ratoneiro em botão, gatuno inda em raiz,

que nos subtrai do bolso um desprezível cobre,

por não ter inda a jeito a burra do País.

 

E sendo iníquo, enfim, uns rirem na opulência,

outros apodrecer num cárcere corrupto...

eu ergo ó rei! a voz ante a vossa clemência,

e em nome da Equidade, em nome da Coerência,

- requeiro a liberdade do Matuto.

 

António Duarte Gomes Leal(1848-1921), poeta e crítico literário português.

MARIA

maria.jpg

É difícil, senão impossível, determinar a origem do nome Maria. Talvez a partir do "hebraico Myriam", que significa "senhora soberana ou vidente", mas é incerto ou, se calhar, improvável.

Por ser um nome bastante comum, e até anterior a Cristo, pode ter derivado do "sânscrito Maryáh" que significa, literalmente, a "Pureza, a Virtude e a Virgindade".

Outra tese sustenta que o nome "Maryam" teria aparecido a partir das expressões "assírias Yamo e Mariro"​, as quais se transcrevem como sendo "Mar azedo ou Acre no idioma aramaico assírio".

Pelo que consegui apurar na net e na escassa produção literária que possuo sobre o assunto, não cheguei a qualquer conclusão. Se houver alguém que entenda da matéria, faça o favor de se chegar à frente e contribuir com o seu conhecimento... 

Certo é que, na tradição judaico-cristã, está associado ao culto mariano e é um nome que, como todos os católicos sabem, é dedicado com muito fervor à "Virgem Maria, mãe de Jesus"


Todavia, a mãe de que vos escrevo, não sendo Maria como a "Virgem", nem por isso foi menos santa e ademais foi mãe de duas belas raparigas e, em especial, de um rapaz lindo, passe a imodéstia do moço.

Naturalmente, cada qual com características e temperamento próprios; uns mais ambiciosos e desembaraçados, por conseguinte mais resolutos, outros mais acomodados, enfim, "cada um cumpre o destino que lhe cumpre...", parafraseando Ricardo Reis.

É difícil imaginar exemplos de irmãos que partilhem a mesma sensibilidade, os mesmos pensamentos, as mesmas aspirações e os mesmos ideais, a não ser os irmãos gémeos e, mesmo esses, sob consulta.

Mas voltemos ao tema principal embora, por paradoxo, não se debruce sobre o título:

Lembro-me que esta mãe, não sendo Maria, tampouco virgem, não ficava a dever nada à outra "Santa". Isso posso afiançar! 

A juntar a essa virtude, era, verdadeiramente, uma "dona de casa" de primeiríssima grandeza. Por exemplo, era sempre a primeira a despertar, levantando-se, geralmente, pela calada da noite, fosse Verão ou Inverno. Depois, chegada a hora de acordar a prole, tratava de a acordar, fazendo-o com cuidado extremo.
Quando entrava no quarto de um, era seu costume aproximar-se da cabeceira em pezinhos de lã, beijar-lhe delicadamente a testa e passar a mão com suavidade pelos seus cabelos. Ninguém gosta de sair do sono, seja de que maneira for, mas ela tinha esta maneira tão meiga de os acordar que, despertar e ver o seu doce olhar, era uma sensação inexplicável e de uma cumplicidade profunda.

E  dizer do seu cheiro...como era bom o seu cheiro! Um dos filhos ainda conserva uma batinha bem guardada que ela usava, no dia a dia, até pouco antes de morrer, supondo que ainda o preserva porque, desde que partiu, nunca mais abriu a bolsa onde a guarda religiosamente.

É qualquer coisa que, sem pretender sacralizá-la, tem pudor em corromper, expondo-a ao ar profano, após anos de recolhimento. Não é dado a misticismos, mas isto é algo que o seu raciocínio não consegue explicar. A faculdade de estabelecer relações lógicas, às vezes, foge ao seu lado racional...

Uma das razões, talvez a mais forte, porque era a primeira a levantar-se, tinha a ver com a convicção de que a melhor hora para começar o dia era aquela hora em que havia silêncio. De tal modo que isso se transformou num hábito que permaneceu quase até ao final dos seus dias. Ela gostava muito do silêncio; da paz do silêncio e de pensar com os seus botões.

Ela pensava muito com os seus botões; sobretudo na melhor forma de gerir o frágil orçamento familiar. E como era entendida no assunto! Uma ministra das finanças como ela e não precisávamos de resgates nem de troikas e podíamos mandar aquelas couvinhas de Bruxelas ir dar uma volta ao bilhar grande!
Todos os dias, anos a fio, era a mesma rotina: passar a ferro, estender a roupa lavada, lavar a roupa suja e aprontar o dejejum para todos. O "chefe de família" era sempre o primeiro a ser servido e com honras de suserano, pois adquirira, desde há muito, o hábito de tomar o pequeno almoço na cama!...

No entanto, era sempre a última a servir-se. Era sempre a última em todas as circunstâncias e se mais existissem...
Cuidava diligentemente dos filhos, como só as mães sabem fazer, e geria o parco vencimento que entrava em casa, proveniente da única fonte de rendimento: o trabalho do marido.
Trabalhava que nem uma moura, como é comum dizer-se e, mesmo assim, ainda lhe sobrava tempo para cobri-los com mimos.
Era casada, claro, mas daquelas mulheres casadas à moda antiga; subserviente às vontades e caprichos do parceiro e, se calhar, pouco amadas ou talvez amadas de uma maneira assaz estranha. Quando se ama muito, não se sobrecarrega com todos os pesos do mundo; tenta-se distribuí-los com equidade. Isso é amor total, despido de egoísmo!...
Porém, eram tantos o apego, a bondade e a ternura que brotavam dela que, só agora, passados tantos anos, alguém se continua a dar conta do seu amor incondicional e da falta que lhe fazem o seu colo, os seus beijos e os seus doces afagos! Ela que não era Maria, nem virgem, mas uma santa!

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