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A TORTO E A DIREITO

UM BLOGUE SEM PÉS NEM CABEÇA, A TRECHOS LÚCIDO, CONTUDO, TRANSLÚCIDO...MODÉSTIA À PARTE

A TORTO E A DIREITO

UM BLOGUE SEM PÉS NEM CABEÇA, A TRECHOS LÚCIDO, CONTUDO, TRANSLÚCIDO...MODÉSTIA À PARTE

"ONDE É QUE VOCÊ ESTAVA NO 25 DE ABRIL?"

A propósito desta pergunta que se converteu num ícone da imagem do jornalista e escritor Baptista Bastos (BB) e recorrente em conversas de carácter biográfico, ditas e escritas, apraz-me tornar ao assunto do 25 de Abril. É sempre bom recordar factos que nos enchem de orgulho, embora reconheça que não é um sentimento geral. Isto porque ainda há gente que pensa que as ex-colónias eram parte integrante do território nacional. Apesar dos anos, ainda há muitas feridas por sarar, nomeadamente as relacionadas com o processo de descolonização.... Todavia, não podemos, simplesmente, varrer esta data da memória colectiva, como pretendem algumas alas mais 'conservadoras' da nossa sociedade.

Sendo assim, apeteceu-me contribuir, também, para que este dia permaneça perene na nossa lembrança e escrever mais qualquer coisa acerca dessa fantástica e exclusiva data para as gerações que a testemunharam e de alguma forma viveram, particularmente a minha que, na altura da "Revolução de Abril", combatia nos territórios ultramarinos...


Lembro-me perfeitamente - como se fosse hoje - de ter experimentado um sentimento novo: uma mistura de expectativa e alguma apreensão. Expectativa porque, acabado de regressar (provisoriamente) da mais feroz frente de guerra: a da Guiné (não descorando as outras, mas esta era a que nos estava a dar água pelas barbas), e tendo consciência de que não estava livre de volver ao mesmo lugar ou a outros, assim que começaram a surgir os primeiros relatos radiofónicos de um movimento militar, uma das minhas primeiras reacções, pelo menos a mais imediata, foi a de pensar que não ia voltar ao "ultramar"...
Apreensão porque não sabia qual era o carácter, tampouco o objectivo desse movimento, embora tivesse uma noção vaga de que era preciso dar outro rumo a isto. Não porque emergisse, subitamente, da minha razão algum tipo de consciência política ao ponto de julgar o regime que estavam a tentar derrubar, como o mau da fita, mas porque tinha o conhecimento exacto de que a guerra na Guiné estava perdida e, como tal, se prosseguisse, o desfecho ia ser muito mais trágico para o nosso lado...

 

Lembro-me perfeitamente - como se fosse hoje - que antes de frequentar um curso militar na Ota, para o qual havia sido convocado, fui colocado na Base Aérea do Montijo, integrado em manobras militares no âmbito da OTAN.
No intervalo de um turno de trabalho nocturno, aproveitado para esticar o corpo em cima de uma tarimba, entre o dormitar e alguma inquietação própria de quem em estado de alerta (mesmo em simulacro) não deve adormecer profundamente, senti um alvoroço imprevisto vindo da área operacional que não distava muito do local onde eu descansava. Um "Hammarlund" sintonizado no Rádio Clube Português, o emissor que a malta, por opção ou mero acaso, tinha no ar, difundia notícias contraditórias sobre um golpe militar que estava a decorrer em Lisboa. Todavia, não me apercebi imediatamente do que se passava, até que o meu camarada Nicolau me deu um safanão nas pernas para me instar a prestar maior atenção aos acontecimentos. Graves - pensei, depois, com o raciocínio mais lesto e reforçado com um café quente e um cigarro.
À medida que o tempo decorria e o dia ia clareando, a rádio continuava a transmitir marchas militares e música de intervenção, intercaladas com relatos exaustivos de última hora. Parecia que tinha caído o Carmo e a Trindade e, com efeito, o Carmo acabara de cair literalmente...

Contudo, passadas as indefinições iniciais, a situação, lá mais para o fim do dia e dias subsequentes, parecia estar controlada pelas forças militares revoltosas. Tal suposição era baseada exclusivamente no que escutávamos e víamos na rádio e na televisão, pois, desde a madrugada de 25 de Abril até ao dia 1 de Maio, ficámos retidos na unidade: ninguém entrava nem saía, por ordem do comando, talvez ainda indeciso em relação ao lado que pretendia apoiar. Penso, embora sem certeza, que essa ordem era extensiva à malta dos países que participavam no exercício e estava estacionada na base aérea...

 

Passado que foi o 'período de reflexão' do comando da unidade, durante o qual as manobras militares foram mandadas às urtigas, tivemos ordem de soltura no primeiro dia de Maio.

Finalmente chegara, também para nós, o dia tão esperado. Lembro-me perfeitamente - como se fosse hoje - que atravessar o Tejo na lancha militar que nos devolveu a Lisboa, foi algo fantasticamente incomum, relativamente à monotonia de  outras travessias...

Talvez, sugestionados pelo momento particular, ao desembarcar, tenhamos tido a percepção de que pairava sobre as colinas da cidade um efeito de luz diferente, magnífico até, e que ao cheiro a maresia se juntavam os aromas do alecrim e do manjerico. Penso nessa impressão com alguma nostalgia, mas não muita. Os anos ajudaram-me a obter algum calejo emocional e a olhar para trás com uma visão mais lógica e menos romântica do maior acontecimento da nossa História...no meu tempo...

Mas, continuando, onde notámos maior diferença foi nos sorrisos abertos das pessoas que se cruzavam connosco. Inclusive - muitas - pagavam com beijos, abraços e cravos a generosidade dos homens fardados que lhes tinham acabado de restituir a liberdade e a confiança. Era como se fossem os primeiros dias de todas as esperanças, com a particularidade sui generis e, quiçá, única no mundo, de os militares estarem ao lado de um povo...

 

A esta distância temporal, julgo que valeu a pena um punhado de capitães ter lutado (por obra de destino ou acaso, sem sangue) para mudar Portugal.

Muito ficou por fazer, evidentemente, e ficamos com alguma mágoa ao vermos que, entre outras situações de injustiça - para utilizar um termo macio - , questões como a sustentabilidade e equidade social ainda são motivo para discussões políticas (pouco convincentes), passados 44 anos de "democracia". Porém, nada surpreendentes para mim, tendo ideia da fraca qualidade de quem nos tem governado nas últimas décadas...

 

 

 

"Ó ZÉ, ATÉ PARECE QUE ESTÁS C'A MOSCA, PÁ!"

zé pinto.JPG

Talvez não saibam, mas esta expressão banal, contudo, utilizada em muitas conjunturas, tem uma origem remota e assaz curiosa. Se quisermos ser rigorosos, sob o ponto de vista cronológico da coisa, diremos que teria saído da boca de alguém, não se sabendo quem, mais precisamente no dia 31 de Fevereiro de 1917, ainda por confirmar. Tudo leva a crer que era um indivíduo caucasiano, embora não fosse do Cáucaso. Provado está, sem provas concretas, que era um filha da mãe incógnita, muito popular na aldeia de Pé de Porco, paredes meias com Pé de Cão no concelho de Torres Novas. Todavia, há quem desminta tal tese e sustente que não senhor, que quem proferiu tal frase foi outra pessoa do sexo feminino, não identificada, de nome Vitalino Silvério, residente em Cabeço de Santa Quitéria, no concelho de Alenquer.

Bom, mas deixemos estas conjecturas conjunturais para os estudiosos porque é pouco relevante ou, mesmo, nada relevante estar aqui a partir pedra com relação à autoria de tal expressão. Adiante.

Conta-se, então, e de fonte fidedigna - acreditem se quiserem - que um indivíduo de nome José Pinto, por alcunha bizarra o Zé Pinto, muito conhecido na zona pela sua delicadeza de maneiras, a despeito de ser uma figura rude, habituado a amanhar a terra e a dormir com as vacas ou com a mulher, sempre que era necessário, era tido como um gajo bestialmente sociável e um bom samaritano. O Zé Pinto era assim mesmo; para ele estava sempre tudo "porreiro, pá!" Conseguintemente, se preciso fosse, prontificava-se sempre para dar a camisola interior a um pobre, como se costuma dizer.

Frequentador assíduo da igreja, ou não fosse um ateu convicto, o Zé Pinto era o exemplo mais manifesto de humildade e modéstia. Diria, até, de simplicidade (passe a prolixidade).
Certo dia, na taberna onde se embebedava por tradição e convicção - era um bêbedo militante desde a primeira hora - , José Pinto, aliás Zé Pinto (que raio de alcunha!), mostrava-se agitado, nervoso, excitado, inquieto e tenso (desculpem lá, mas estas buchas só ajudam a encher esta estória que, de outra forma, não seria tão aborrecida), tendo, inclusivamente, partido três copos de três (graças a Deus que, pelo menos, o vinho não se entornou).

Os amigos solidários que com ele se embebedavam judiciosamente, acharam que algo estava errado com o Zé. Seria porque as vacas não teriam produzido a quantidade habitual de leite? A mulher tinha-se negado às suas investidas lúbricas? Os nabos não haviam crescido o suficiente? As galinhas teriam deixado de por ovos?
Como se tais conjecturas não bastassem, foram observando discreta, mas minuciosamente a fisionomia do José Pinto - ou simplesmente o semblante do Zé Pinto, que nestas coisas ele era muito susceptível, e eis que um deles, porventura mais atento aos pormenores, lhe notou um insecto pousado na testa. Um exame um pouco mais meticuloso mostrou que o referido insecto era uma mosca.
Como somos pródigos a inventar ditos, logo o dito ditou para que ficasse ditado; e de copo em riste: "Ó Zé, até parece que estás c'a mosca, pá!" Assim, ficou registado para sempre como um lugar comum.
Prometo que qualquer dia escrevo sobre outros lugares comuns...

VOLTA, RUIZINHO!

volta ruizinho.jpg

Volta, Ruizinho, meu querido filhinho!

Esta casa é um deserto desaprazível e inóspito, para não dizer agreste, desde que desertaste!
A mãezinha e o paizinho já compraram um televisor LED TV 4K ultra HD para substituir aquele a válvulas que quebraste com um "Tobi Mae Gueri" (pontapé frontal voador).
O paizinho mandou reconstruir a mesa que partiste ao meio com uma "Hiji Otoshi - Uti" (cotovelada de cima para baixo).
A mãezinha anda a chatear a molécula ao paizinho, dizendo-lhe que, pelo preço que o paizinho pagou pelo conserto, podia ter comprado duas mesas de pinho no IKEA (passe a publicidade) e é verdade, meu filhinho! O paizinho quer fazer as coisas à sua maneira, de modo que albarda-se (ou aldraba-se) o burro à vontade do dono.
A maninha já comprou mais peixinhos para o aquário, para substituir os que despejaste na sanita.
A avozinha gastou o dinheirinho todo da reforma deste mês e comprou outro serviço de loiça em porcelana, Vista Alegre (passe a publicidade), para substituir o que escaqueiraste com um "Mae Keague" (pontapé elevado perna dura).
Os vidros da porta de entrada do prédio que estilhaçaste com um "Soto Mawashi" (Pontapé de fora para dentro) já foram substituídos.
Também vais constatar que mandámos pintar a casa toda para tirar aquelas grafites obscenas que gostavas muito de fazer nas paredes.
O avôzinho abriu os cordões à bolsa e disse à mãezinha para comprar um frigorífico novo para substituir aquele que amolgaste com um "Seiken Guedan Zuki" (soco baixo).

Volta, Ruizinho!

A vizinha do primeiro direito mostrou-se relutante, ao principio, mas agora afirma estar disposta a negar, perante a justiça, que tu a violaste repetidamente.
O vizinho do rés-do-chão esquerdo garante, a pés juntos, que já não se lembra quem foi que lhe meteu uma porta do carro adentro com um " Kaiten - Soto Mawashi" (pontapé giratório de fora para dentro).
A gata da vizinha do segundo direito está a recuperar muito bem depois do "Kansetsu Gueri" (pontapé lateral baixo) que lhe deste inadvertidamente. Nós sublinhámos que foi inadvertidamente e até dissemos à vizinha que tu gostas muito de bichinhos, mas só ao longe.
Inclusivamente, a vizinha do primeiro esquerdo, afirma que não eras tu quem vertia águas, diariamente, à sua porta.
Mas tudo isso já passou, Ruizinho! Agora estás quase a deixar o Centro Educativo e o tempo tudo cura; nós é que estamos desertos para te ver, meu filhinho!

Volta, Ruizinho!

Aguas passadas não movem moinhos e o que lá vai, lá vai, meu filho!
Esperamos por ti com ansiedade e expectativa, desejosos que regresses!
És sempre bem recebido. Afinal, como mereces!
Demais a mais, a mãezinha e o paizinho já compraram pistolas de vários calibres e têm praticado tiro ao alvo com regularidade.

O paizinho garante que te mete uma bala no meio da testa, antes que tenhas tempo de exclamar "ai, minha rica mãezinha!". E, mesmo que tenhas tempo, a mãezinha jura a pés juntos que faz orelhas moucas, meu filhinho!


Volta, Ruizinho, volta!

 

NÃO É PARA RIR

não é para rir.jpg

«Quanto mais me bates, mais gosto de ti!» - exclamava ela enquanto ele a sovava desalmadamente.
«Adoro homens brutos como tu!» - dizia ela depois de ele lhe aplicar vários socos na barriga. 
Dobrada sobre si, ela pedia mais e ele não se fazia rogado, socando-a na boca, nos olhos e no fígado.
«Com mais força! - implorava ela com veemência -
 Os teus murros são doces carícias para mim!»

E ele não se ensaiava, fazia-lhe a vontade, agredindo-a com maior afinco e com método, dado que sabia quais eram os seus pontos fracos. Lá nisso, justiça lhe seja feita pelo elevado grau de profissionalismo. Ou não fosse um "kick-boxeur portugais poid lourd"; e prosseguia com encontrões, pontapés, mais socos, cabeçadas, joelhadas e toda a sorte de indescritíveis brutalidades.
Meia hora depois, mais minuto, menos minuto, ele parou. Exausto, apesar de possuir grande caparro. O cenário não era para menos: ela jazia desfalecida sobre a cama, sangrando abundantemente de várias feridas. Para não falar na profusão de hematomas e contusões.
«Então? Porque paraste?» - balbuciou ela.
Ele não se mexeu. O aspecto dela não era, de todo, agradável e pareceu arrependido de a ter espancado quase até à morte porque, aparentemente, ficou triste; de uma tristeza comovente; quase a fazer esquecer aquele tipo de gente que chora azeite por um olho e vinagre pelo outro. Vá-se lá saber o que vai na cabeça de um violentador...
Pegou na samarra, cobriu os ombros, colocou os óculos de sol, não obstante ser noite, e encaminhou-se, decididamente, para a porta da rua.
Ela ainda tentou detê-lo, mas faltaram-lhe as forças. No entanto, murmurou com raiva: «Maricas!»
Podia ser mais uma estória digna do anedotário nacional, daquelas de nos deixarem esboçar, quando muito, um sorriso irónico, se não fosse o epílogo trágico de muitas histórias...reais...

O REGRESSO 2

o regresso3.jpg

Após quarenta anos longe da pátria, uma madrasta que o obrigara a sair da sua "zona de conforto" e emigrar; e tendo juntado uns cobres para poder gozar uma reforma tranquila até ao fim dos seus dias, juntamente com a sua amada esposa e a prole - afinal, as pessoas pelas quais se sacrificara durante anos a fio - , ei-lo regressado à terra e à casa onde nascera; naturalmente expectante e com um enorme aperto no coração; sobretudo uma vontade incomensurável de abraçar a família. O homem morria de saudades; é compreensível!

Se fizermos bem as contas, chegaremos, quase todos, à proposição final de que quarenta anos não são quarenta dias, n'é verdade?

No entanto, para sua grande desolação, a mulher havia partido há vinte e quatro anos, cansada de esperar e desesperar por ele durante dezasseis anos.

A filha, que tinha completado quatro anos quando ele abalou, saíra de casa há oito anos, depois que atingiu a maioridade, trinta e dois anos após ele partir e oito anos depois da saída da mãe.

O filho, actualmente com cinquenta e dois anos, tinha vinte e oito anos quando a mãe perdeu a esperança de rever o pai e abandonou o lar, dezasseis anos depois dele, e não assistiu à partida da irmã, pois aos trinta e dois anos, quando ela completara vinte e quatro anos, ele partira também, vinte anos antes do regresso do pai.
Porém, desistiu de os procurar porque foi sempre uma nódoa a matemática.

PUDIM ABADE DE PRISCOS

Entrou no restaurante, sentou-se e abriu o cardápio. Pediu um consomé de marisco - para começar - e uma dose de bacalhau com broa e batatas a murro. Para beber, meia garrafa de tinto de Colares.

Após meia hora de espera, trouxeram-lhe uma tigela com sopa, supostamente do dia, e um jarro pequeno com vinho branco. A sopa tinha pouca consistência e estava quase fria. Nada recomendável para aconchegar um estômago a necessitar de algo quente e tão salutar como o poder retemperador de uma boa sopa. No vinho destacou imediatamente um cheiro pronunciado a acetona ou vinagre; algo parecido. Provavelmente, terá oxidado, mas, mesmo assim...

É claro que não podia exigir equilíbrio superlativo ao conteúdo de um jarro, ademais de proveniência duvidosa. No entanto, provou um bocadinho. Julgou que era chato não tocar no vinho. Não fossem levar a mal.

"Um descuido qualquer um tem!" - pensou; ele que até nem tinha feitio para reclamar. Por isso, sorveu o caldinho todo e botou mais vinagrete no copo.
Passada uma hora de espera, e após a ingestão de mais um jarro daquela zurrapa, meia-dúzia de papos secos e uma espécie desconhecida de queijo curado de ovelha, trouxeram-lhe um prato com uma cabeça de pescada cozida com todos, inclusive com a menina da caixa registadora; ainda por cima vinha sem olhos (a cabeça de pescada), coisa que, não fosse ele um tipo que aceitasse tudo com resignação, seria uma omissão imperdoável e motivo suficiente para recusá-la (a cabeça de pescada)!
Todavia, a chatice é que não tinha pedido nada disto! A menina da caixa registadora, vá que não vá, já que vinha com os olhinhos no sítio, mais a mais de carneiro mal morto. Era uma visão de encher o olho, algo que entrava imediatamente pelos olhos, de tal modo que era inevitável.

Contudo, dois enganos seguidos já eram um sinal de desorganização, mas, como acabei de referir, ele era um indivíduo muito pacífico e infinitamente paciente.

Não obstante, comeu metodicamente a cabeça de pescada, deixando a menina da caixa registadora para o fim. Curiosamente, é uma tendência que algumas pessoas têm, julgo que por gulodice. Claro que também me incluo no rol dessa propensão: deixo sempre o melhorzinho para o fim. Manias!... Mas, continuemos, perdoem-me o aparte:
Para a sobremesa, encomendou um pudim Abade de Priscos. No entanto, trouxeram-lhe uma maçã assada e, ainda por cima, fria.
"Outro engano, não, porra!... Será para algum programa de apanhados?" - pensou, cada vez mais confuso com esta estória. 
Chamou calmamente o empregado de mesa e procurou ser simpático, apesar de tudo, porque não queria, de todo, criar ali uma disposição conflituosa. O que é que iriam pensar? Até podiam chamar a polícia e, para ele que não estava habituado a lidar com constrangimentos, seria uma circunstância embaraçosa. Daí que, aparentemente tranquilo, perguntou:
- Será possível falar com o gerente deste estabelecimento?... Pretendo pôr tudo em pratos limpos!
Foi uma festa! O homem até teve direito a abraços e palmadas nas costas, imagine-se!
Havia uma porrada de loiça suja acumulada na cozinha...

OS TRÊS PORQUINHOS

os três porquinhos.jpg

Era uma vez (once upon a time, para inglês ver) dois porquinhos que estavam a brincar alegremente no bosque (calma! Também sei que falta um porquinho nesta narração, mas isto é apenas o começo, ok?) quando, detrás de um arbusto, surgiu o lobo mau; um lobo ranhoso (ovelha ranhosa não soava bem neste contexto) que só serve para estragar a estória!
Portanto, a perseguição começou logo ali, sem demora nem falinhas mansas.
Um dos porquinhos, mais lesto que o outro, conseguiu trocar as voltas ao lobo e correu o mais que as suas patinhas curtas lhe permitiram, apressando-se a erguer uma cabana de colmo. Porém, era tarefa hercúlea de mais para um porquinho que até parecia da Índia e, por conseguinte, foi devorado pelo carnívoro em menos de um farelo. Todavia, o segundo porquinho, apesar de ser mais lento que o primeiro, aproveitou-se do tempo despendido pela fera na perseguição, captura e ingestão do primeiro. Assim, conseguiu terminar um abrigo de barro...
Permitam que faça aqui um breve parêntese para vos explicar, muito resumidamente, que demora sempre um bocadinho a tragar um marrancho, mesmo sendo um bácoro, como devem calcular. Seja do pé para a mão ou da mão para o pé - há quem goste mais do chispe do pé ou da mão - , é preciso preparar o suídeo e, enfim, tem regras que não vale a pena expor aqui, senão isto deixa de ser resumido. Poderei voltar ao assunto, exclusivamente, a pedido.
Bom, mas como dizia, o segundo porquinho ainda teve tempo para terminar o abrigo de barro, mas debalde (pensa-se que, se fosse de balde de cimento, poderia ter tido melhor sorte, mas sem certeza). O lobo, ainda não saciado, desfez aquilo com um simples, mas eficaz, sopro e papou o pobre enquanto o diabo esfrega um olho (não se sabendo qual, mas também não é relevante).
Regalado e saindo dali de papo farto, o lobo mau regressava ao seu domínio na floresta (ou no bosque, tanto faz) quando lhe veio à memória que faltava um porquinho. Nitidamente chateado, pois ia preparado para dormir uma merecida sesta (segundo a sua interpretação), deu meia volta e volveu a caminho da casa dos três porquinhos, dado que era muito respeitador da tradição. Sobretudo da que faz parte do imaginário infantil.
Chegado ao lugar e após ter ladeado a casa de chamas, matando o último ocupante por inalação de fumo é que se lembrou que não tinha fome e que, aparentemente, aquela morte podia ter sido evitada ou, pelo menos, adiada até melhor altura (leia-se até o porquinho engordar mais um bocadinho).
O que é que ele ia fazer com tanta carne entremeada e tanta tripa? É banal dizer-se que a necessidade aguça o engenho e, neste caso, aguçou-lhe a necessidade de dar alguma utilidade ao excedente. Sem mais delongas, desmanchou o bicho, atou as partes e pô-las ao fumeiro. Foi desta descoberta empírica que se inventaram os enchidos (o famoso presunto de Chaves, que não é um enchido - não precisam de me corrigir - só foi descoberto, séculos mais tarde), embora a afirmação careça de confirmação científica como é óbvio.

Nota de autor: "Olá fui eu que criei os únicos originais infantis embora tivesse manuscrito - por encomenda - uma versão pornográfica para cinema de um dos contos cuja personagem principal é o Lobo Mau (como não podia deixar de ser) protagonizada pelo malogrado actor de Hollywood John Holmes.
Certamente, já adivinhou que me estou a referir à estória presente e ao Capuchinho vermelho. A talhe de foice, JH interpretou, magistralmente, a personagem do lobo mau, como é fácil de intuir.
Contudo, nem sabe a alegria que senti ao ler esta versão. Chorei baba e ranho imagine! Permita-me apenas uma ligeira crítica construtiva: como já leu os meus contos há-de reparar que não exagero nas vírgulas. Não leve a mal hã?! Continue assim que ainda vamos ter outro prémio Nobel da literatura. Todavia atenção ao excesso de vírgulas na sua escrita ok?"

Maria Pereira Virgulosa
Vila Nova da Barquinha

Nota do bloguista: Efectivamente nunca li os dois contos, não espero lê-los nos próximos tempos e tenho raiva de quem escreve este tipo de literatura infantil que só serve para criar cismas nas crianças!

 

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