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A TORTO E A DIREITO

UM BLOGUE SEM PÉS NEM CABEÇA, A TRECHOS LÚCIDO, CONTUDO, TRANSLÚCIDO...MODÉSTIA À PARTE

A TORTO E A DIREITO

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A CRISE DA VELHICE, A BUSCA DA IMORTALIDADE E A EFEMERIDADE DA VIDA

a velhice.jpg

Uma das maiores obsessões que inventámos e de que padecemos nesta estranha sociedade, é a de vivermos num mundo em que a apologia patológica da pulcritude, associada à procura da juventude eterna, dita regras e tendências.

Paradigma desse louvor à beleza e aos novos é a constante procura de elixires e unguentos 'milagrosos' com que somos constantemente assediados, através da divulgação publicitária, e que vendem, obviamente, muito bem.
Numa sociedade que privilegia esta espécie de hedonismo, a sobrevalorização da juventude acaba por criar uma espécie de estigma da velhice.
Não sei qual é o lugar dos velhos em algumas culturas ditas avançadas mas, neste "jardim à beira-mar plantado", há um sentimento generalizado de que os idosos já não têm nada para dar à sociedade; pelo contrário, só dão trabalho e despesas. Daí não serem estranhas para nós, portugueses, notícias que dão conta da existência actual de milhares de camas nos hospitais do Estado, ocupadas por idosos abandonados pelas famílias. É uma disposição nada afectiva que tem percorrido várias gerações (dava pano para mangas, este assunto) e não me parece que vá mudar.
De certo modo a frase "Lugar aos novos", expressão muito enraizada cá no burgo, reflecte bem o que afirmei.
Passámos, passamos e passaremos por crises existenciais. Fazem parte do decurso do envelhecimento e induzem-nos medos como, por exemplo, não viver o suficiente para ver os nossos filhos e netos terem sucesso na vida ou não termos tempo de materializar este ou aquele projecto importante. Penso que são receios difíceis de evitar, por muito que queiramos que não nos incomodem, e vão surgindo à medida em que sentimos que já não nos sobram muitos anos até ao "juízo final".
Embora ignore idiotices como "envelhecer é um privilégio e um presente (não sei de quem)" ou "envelhecer com alegria é uma arte", reconheço que há velhices chatas c'mo caraças. Resistir, assim, ao envelhecimento, gera sofrimento, às vezes insuportável, tanto nos sujeitos, como em quem convive com eles. Na verdade, não me cabe, aqui, sugerir um meio termo; nem sei se existe uma solução equilibrada para a forma como devemos encarar o fim dos nossos dias.
O que é certo é que os efeitos, mais ou menos acentuados, da passagem do tempo, são o resultado natural do processo degenerativo e não há remédios milagrosos que possam obviar o que é inevitável, é a lei da vida (e da morte). Pelo menos, enquanto não for descoberto o tal "elixir da juventude eterna", uma espécie de Santo Graal da imortalidade.
Na minha modesta opinião, que é a opinião de um leigo na matéria, julgo que as crises existenciais são reflexos dos nossos medos e da nossa constante perseguição da eternidade. São crises que fazem parte da nossa existência e que se agudizam com o aproximar do inverno da vida.
Quando morremos, os que nos sobrevivem comentam, quase invariavelmente, que houve circunstâncias em que não valeu a pena tanto desassossego. Tudo acaba um dia e ponto. Só que, enquanto seres vivos, desvalorizamos isso porque não temos a noção da precariedade da nossa condição e do quanto nos poderíamos ter aproveitado desse facto transitório. Não consideramos isso importante e assim perdemos a oportunidade de tirar proveito de cada fragmento dessa fugaz passagem por este mundo, adiando coisas que nos poderiam ter feito felizes e aos que amamos, apesar do seu carácter efémero. Não percebemos como a nossa existência é frágil, sendo sujeita a agentes imponderáveis, e continuamos a protelar até que, num simples estalar de dedos, ela se vai, passageira, para outro lugar...
Em memória do José Francisco, definitivamente ausente deste mundo. Ironicamente em vésperas de um reencontro, após quase vinte anos longe da vista e do coração.
Disse-lhe, algumas vezes, para vir ver a sua mãe, antes que ela morresse, e o palerma andou a adiar a vinda, até que um estupor de um AVC lhe fodeu os planos. Puta de vida de merda, mais as suas imprevisibilidades!
Até sempre, Zé! Se o infinito for o nosso destino...

 

DEUS, O DIABO, O ENGENHEIRO E OS MALANDROS DO COSTUME

deus, o diabo, o engenheiro e os malandros do cost

"Um engenheiro morreu e chegou às portas do Céu (é do conhecimento geral que os engenheiros, devido à sua incorruptibilidade, quando dão o peido mestre (leia-se derradeiro suspiro), vão direitinhos para o Paraíso sem passarem pelo Purgatório (a isenção do juízo final está contemplada em Jeremias, versículo 37:15-16, mais coisa, menos coisa).
São Pedro, mazelado, cansado de séculos de existência e desconfiado desde que o seguro morreu de velho, antes de franquear as portas ao engenheiro, procurou a sua ficha no arquivo geral da ordem dos engenheiros, mas, como o programa informático do Céu já estava um bocadito obsoleto e, por isso, transformado num caos, não a conseguiu encontrar. Então, disse ao engenheiro:
«Lamento, mas não podes entrar; a tua ficha deve ter-se extraviado!»
O engenheiro, perante a recusa do guardião do Céu, não teve outro remédio senão descer vários lances de escada até chegar às portas do Inferno. O espertalhão do Mafarrico nem pestanejou; ofereceu-lhe alojamento de bandeja e demais apoio logístico.
Todavia, após ter sido instalado, faltava ali qualquer coisa, algo onde se pudesse sentir mais proactivo e, claro está, mais realizado. Só assim poderia garantir rentabilidade ao seu espírito sagaz e empreendedor. A necessidade aguça o engenho, como dizia alguém, não sei quem.
É preciso não esquecer que o nosso pobre engenheiro foi parar num lugar inóspito, logo sem grandes condições de habitabilidade, daí ser exigível, pelo menos, uma "zona de conforto" decente para poder trabalhar. Isto, não obstante toda a gente saber que o Inferno é um sítio indecente.
O tempo foi passando e já existiam alguns projectos materializados, entre os quais um de segurança contra incêndios, um térmico, um acústico e também sistemas altamente sofisticados de monitorização de cinzas e ar condicionado. Foram também montados os mais diversos aparelhos electrónicos, redes de telecomunicações, programas de manutenção e, evidentemente, um sistema rigorosíssimo de controlo de qualidade, não fosse a ASAE meter lá o bedelho só para chatear. Perante a evidência de melhorias tão concretas, o engenheiro passou da condição de degredado a reputado.
Um dia, Deus lembrou-se de fazer uma vistoria à Secretaria Geral do Céu e, estranhando a falta de reclamações que habitualmente chegavam das bandas do Inferno, ligou para o Demónio e perguntou:
- «Então, como é que vão as coisas por aí?»
- «Agora, estão bem melhores do que estavam! Temos vários programas de melhoria contínua, implementados no contexto da prática infernal, naturalmente, mas tudo a funcionar a cem por cento, graças a mim e aos projectos deste fantástico engenheiro que caiu do Céu! Se quiseres algumas indicações pormenorizadas acerca da implementação destes sistemas, manda-me uma mensagem para ohdiabo@vilmail.com..
Isto, agora, só aqui para nós que ninguém nos ouve: Francamente, não sei porque é que ainda não reformaste o Velho, pá, está, cada vez mais, senil!»
- «Hã?!... Vocês têm aí um engenheiro?! Mas, isso é um autêntico disparate! O lugar dele é aqui no Céu, caraças! Está registado na CRC (Conservatória do Registo Celestial) e tu assinaste por baixo. Manda-o para cima se fazes o favor!»
- «O quê?! Nem pensar! Este engenheiro é uma mais valia, pá! Estás parvo ou fazes-te? Garanto-te que vai ficar comigo, eternamente, e nem se fala mais no assunto; era o que faltava!»
- «Manda-me esse gajo para cima, senão lixo-te com uma pinta do caraças! Abro-te um processo daqueles que se podem arrastar por muitos e longos anos (passe a redundância)!»
O Diabo riu desbragadamente, feito um velhaco como é a sua obrigação, e retorquiu:
- «Ah, sim? Então, só por curiosidade, pá, diz-me uma coisa: Onde é que vais arranjar um advogado, um juiz ou até, mesmo, um procurador, aí no Céu, diz-me? Recambias essa gente toda para aqui e agora queres fazer omeletas sem ovos, n'é?! Mais a mais, ambos sabemos que, recurso após recurso, esses processos que se arrastam, acabam por prescrever, ora!»"
 
Nota: Este foi-me enviado, há uns tempos, não muito longínquos pelo meu querido amigo "Zé do balão", do qual só me restam boas memórias. Estejas onde estiveres: Céu ou Inferno (nunca no purgatório porque não é carne nem peixe), passe a alegoria, espero reencontrar-me contigo, um dia destes ou, quiçá, daqui por uns anos, não obstante ser um agnóstico militante desde a primeira hora, como é curial dizer-se. A vida está cheia de imponderáveis, meu amigo! Não sei, se tu, desse lado, entendes, mas penso que estás numa posição mais omnisciente...

CLEO PETRA & MARK ANTÓNIO: UMA TRAGÉDIA PEGADA

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Hoje, consagro este epítome - também gosto muito desta palavra - a duas personagens de uma das mais famosas tragédias da obra Shakespereana.

No caso particular, penso que não ficará atrás de uma verdadeira tragédia grega. Acho que não encontro melhor epitáfio para lhes prestar, senão dedicar-lhes esta síntese. Julgo que quem conseguir ler isto até ao fim deverá estar de acordo comigo.
Como as estórias têm que começar por algum lado, começo pelo imaginário nariz de Cleo Petra. Era tão evidente e tão exclusivo que não podia pegar nesta estória por outro lado; todos temos que convir que era um verdadeiro monumento. Até Marie Robes Pierre, que não era dado a divagações particulares sobre anatomia humana porque, só de pensar nisso, sentia-se mal naquele corpo que Deus lhe dera, escrevera nas suas "Memórias" que (sim, Marie pensava como quase todas as pessoas, pois "cogitare humanum est") "se o nariz de Cleo fosse mais curto, não teria mudado a face do mundo". Ora, apesar de considerar Marie Robes Pierre um dos expoentes máximos do iluminismo, não posso estar mais em desacordo com a pouca iluminação de tal presunção. Quando muito, teria mudado a própria face. Mas quem sou eu para contrariar tais fundamentos ou as suas pressuposições? Deus me livre, apesar de ser agnóstico!
Não obstante o nariz desproporcionado, Cleo era um espanto. De tal modo que, quando passeava por entre a multidão, espantava aquela gente toda. Porque razão? - perguntam vocês com toda a pertinência. Eu respondo: Porque a rainha tinha um olfacto apuradíssimo e, por via dessa excepcional particularidade, antes de sair do palácio para se misturar com o povo, guardava sempre um spray repelente na sua malinha de mão. Tirando esta esquisitice, era muito popular e muito querida...

Depois desta breve introdução, é aqui que entram duas personagens que alimentavam animosidades recalcitrantes entre si, sem razão aparente, segundo reza esta estória: o imperador Júlio César e Pompeu, um general romano natural de Pompeia, evidentemente.

Obviamente que, provocação daqui e provocação dali, só podia dar escaramuça e o inevitável aconteceu, como tudo o que é inevitável.
Como era previsível, a Legião Romana do imperador era em maior número e altamente organizada e, por consequência, derrotou facilmente o bando de maltrapilhos e indisciplinados fenícios e cartagineses de Pompeu na célebre batalha campestre de Farsália. Acerca desta batalha, sabe-se, agora, que, após profundas pesquisas arqueológicas recentes, a cerca de meio metro, mais ou menos, veio a confirmar-se, através do carbono 14, que aquilo não passou de uma farsa.

Há quem sustente a tese de que Pompeu, depois de alguns reveses que não passaram pelos crivos da História, solicitou o estatuto de refugiado político ao Egipto.
Obedecendo a esta proposição, vou continuar a descrever o que aconteceu a seguir, incidindo particularmente na teoria do pedido de asilo político de Pompeu. Só para não acabar abruptamente a estória, senão isto deixa de ter piada. Então, sucedeu o seguinte:
Por essa altura subiu ao trono, Ptolomeu que, desde pequenino não ia à bola com Pompeu, vá-se lá saber porquê, e vai daí, matou-o enquanto este dormia uma sesta. É claro que César, apesar de adversário figadal de Pompeu na grande farsada de Farsália, não gostou e deslocou-se pessoalmente ao Egipto para repor a ordem no império. Degolou o Ptolomeu com requintes de malvadez e ofereceu a sua cabeça, de bandeja... perdão, ofereceu o trono, de bandeja, à nova rainha, Cleo Petra...

É aqui que reentra a personagem principal: Cleo Petra que, devido ao tamanho do nariz, já vinha a despertar, há uma porrada de tempo, desejos lúbricos no imperador...
Pois, acontece a qualquer pessoa, mesmo ao ti' César porque a vida não é só chegar, ver e vencer. Isso é que era bom!

Ora, Cleo, como não podia deixar de ser, partilhou os seus lençóis com o senhor. Porém, naqueles tempos ainda não haviam panaceias para levantar a moral e, além disso o velho sofria de arritmia galopante, uma doença chata que herdara da sua progenitora. Com efeito ele era um grande filho da mãe doente, desde o primeiro vagido.
Em face desse problema genético, César regressou a Roma para fazer um tratamento com águas termais, mas não resultou e, é claro, foi definhando aos poucos até que os médicos chegaram à triste conclusão de que o melhor era eutanasiar o homem; aquilo era sofrimento a mais...

É aqui que entra a personagem secundária - mas não menos importante - pela primeira vez: Mark António, ex-ajudante de César, que tinha formado um triunvirato de conveniência com Lépido e Octávio, dividindo tarefas administrativas do Estado. Quer dizer, todas menos dormirem, à vez, com Cleo, isso estava fora de questão. Por isso, Mark tomou uma decisão drástica. Isto porque, desde os tempos de César, já andava a arrastar a túnica a Cleo, às escondidas do imperador. Assim, para não ter a concorrência por perto, despachou o Lépido para a Patagónia, o Octávio para os Montes Hermínios e rumou ao Egipto. Antes de lá chegar, Cleo, através do olfacto, já sabia da sua vinda. Pudera!...

A pirâmide de Queóps desmoronou-se, as esfinges de Gisé e Tebas desfingeram-se, os Deuses rejubilaram, enfim, foi o bom e o bonito! Cleo Petra sabia receber muito bem, caramba!
O pobre Mark António andava doidinho de amor, isso é factual e indesmentível - passe a redundância. Mesmo com o rosto cheio de equimoses que mais parecia uma paisagem lunar, nunca desistiu da sua rainha. Amores, assim, tão lindos, acontecem uma vez de mil em mil anos; Pedro e Inês, comparados com este casal, deviam ser como o cão e a gata!

Por Cleo Petra, Mark António, até era capaz de guerrear com Hórus e Doktem; que se lixassem, ele amava desesperadamente! Havia o ónus do nariz da sua amada, que doía para caraças, mas que fazer se naquele tempo ainda não tinham inventado as cirurgias plásticas?!
Assim, como assim, concordaram em passar a fazer amor de lado, enfim, do mal o menos!...

É aqui que reentra, finalmente, outra personagem: Octávio, regressado a Roma. Como não era parvo, apesar de medir metro e meio de altura, aproveitou-se do idílio de Cleo e Mark para atacar o Egipto à socapa ou seja, pela calada da noite.

Cleo, para além de ser muito batida em batalhas na cama, também o era na batalha naval. Assim, fez uma pausa entre duas refregas amorosas (sem tirar fora, sublinhe-se) com Mark (evidentemente) e enviou ao encontro de Octávio a sua "invencível armada". Uma armada onde se incluíam algumas naus catrinetas cedidas pelo reino de Portugal de então, ao abrigo de um acordo de cooperação e defesa, bilaterais, celebrado entre ambos os reinos. Porém, foi derrotada; em parte porque muitas naus catrinetas metiam água, e Mark António, atormentado pela dor e pela loucura, veio a falecer de desgosto e sífilis.
Octávio que, desde os tempos de Mark, já cobiçava o nariz soberbo de Cleo, preparava-se, agora, para tomar para si tão ansiado e maravilhoso despojo de guerra. Todavia, Cleo estava pelos cabelos com todos os imperadores, senadores, cônsules, consulesas, pretores, tribunos, governadores, duques, duquesas, legados, legionários, et cetera, e (acho que vou rematar isto às três pancadas porque já sinto as pálpebras a quererem colar) suicidou-se com veneno de cobra, não catalogado. Todavia, ficou provado, através de análises ao sangue, que era um veneno mortal. Foi Shakespeare quem o disse e não altero nem uma vírgula, pá, desculpem lá!

 

SINDICATOS DOS POLÍTICOS

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O Governo da República está a estudar a hipótese, algo inédita e nunca vista - passe a redundância - , de se constituir, a médio prazo, uma grande central sindical que englobe, pelo menos, três sindicatos representativos da classe política: um frontal, outro occipital e um terceiro parietal. Este último em plano inclinado para os políticos irem, rapidamente, de carrinho.

Pensa-se que será o primeiro país da UE a debater o assunto com muita rectidão, honradez e de forma aberta, sem estigmas nem labéus.
Muito antes deste debate que, não sendo quinzenal, é de primordial importância para a vida nacional - sublinhe-se - , teria havido uma iniciativa, aprovada pela generalidade dos deputados da AR, no sentido de se recolherem assinaturas e serem criadas as condições necessárias para se formar uma associação sócio-profissional com várias tendências partidárias: a primeira para a partida, a segunda para a largada e uma terceira para a fugida. Porém, um louro (vulgo papagaio) do governo sublinha que, por enquanto, ainda está tudo em águas paradas de bacalhau (imagine-se o cheiro).

Ora, por muito contraditório que nos pareça, é claro que vai sair porcaria porque o ideal seria a coisa ter ficado em banho-maria, mas a gente já sabe, há muito, que os políticos são como as fraldas; e reparem que não sou eu que o digo, isto é consensual!
Todavia, dada a natureza do tema, ainda que por enquanto não passe de uma intenção, torna-se evidente a sua complexidade se forem revelados outros pontos em discussão. Assim, há quem defenda a regionalização, distribuindo-se, desse modo, os políticos pelo Norte, pelo Centro, pelo Sul e, naturalmente, pelas regiões autónomas. Pelas últimas, só enquanto não for submetida a escrutínio a continuidade da ligação umbilical ao "Contenente". É preciso levar a possibilidade do corte do cordão em linha de conta, mas pode ser com uma tesoura esterilizada. Agora que a Catalunha já é um estado independente e soberano, nunca se sabe. Bom, mas já me estou a afastar do assunto principal, peço desculpa, adiante.

Há, também, quem defenda acerrimamente o centralismo, advogando que fique tudo como dantes, "quartel-general em Abrantes" ou seja: Todos os políticos inscritos permanecem no Pequeno-Ocidente-Lusitano, com direito a levarem os jornais A Bola e o Correio da Manhã para a AR, para além dos habituais subsídios, tenças, abonos, alcavalas, estipêndios e outras ajudas de custo.

Há, ainda e finalmente, quem defenda com unhas e dentes uma organização com pendor mais marcial, tipo Esquerda-Direita-Opus-Dois, porém, mais pragmática e, naturalmente, mais musculada. É claro que terá de ser um organismo com os pés bem assentes no chão, com batimentos fortes e cadenciados, e de preferência em formação de ordem unida.
Contudo, outras tendências minoritárias lideradas, sobretudo, por independentes de todos os quadrantes ideológicos: partidos ou movimentos políticos, grupos religiosos e até outras vocações inconfessáveis (seria chato confessá-las aqui, como devem calcular), defendem que os políticos profissionais não são trabalhadores por conta própria, nem por conta de outrem, devendo por isso associar-se em cooperativas de produção e comércio de azeite, dado que, de uma maneira geral, são uns grandes azeiteiros!
Um dos pontos com mais enfoque ("enfoque" fica mesmo bem aqui, q'é q'acham?) nas discussões já tidas e havidas - passe a redundância - , centra-se na garantia de, para além do direito ao direito, os políticos passarem a ter direito aos: Discurso directo, indirecto, indirecto livre, de direito e redondo. Este último, só para não se tornar chato. Ademais, reivindicam menos horas de trabalho de terça a quinta e o direito a coçarem os tomates na AR. É claro que, neste particular, as mulheres podem reclamar discriminação, podendo, para o efeito, apresentar um requerimento estatutário de igualdade. No entanto tratar-se-á, apenas, de uma formalidade.

Os mentores desta iniciativa corporativista, José Onófrio Pires do Ó e Tolentino Sá de Miranda e Vasconcelos, que preferiram manter o anonimato, deputados pelos PDMC (Partido Democrático na MÓ de Cima), no governo, e PDMB (Partido Democrático na MÓ de Baixo), na oposição, respectivamente, alegam que esta tomada de posição é um "anseio de todos os políticos democratas e, sobretudo, um imperativo nacional, a bem da Nação e dos portugueses!"

A SEMIBELA ADORMECIDA

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Era uma vez uma donzela, chamada Semibela, que morava num lindo castelo medieval. Semibela vivia no castelo com a sua parentela, inclusive com uma parelha de cavalos de arções, um dos quais, palafrém: um vistoso cavalo de cem moedas - passe a redundância - de encher o olho a qualquer cavaleiro que se prezasse do seu métier. Era mesmo um animal de arregalar o olho. O outro, num volver de olhos, saltava imediatamente aos olhos: era um pobre cavalo cansado e um chato de um cão de fila, conquanto fosse um cavalo. Isso entrava pelos olhos.

Mas, desculpem-me, já me dispersei novamente. Ia a dizer que a razão pela qual lhe puseram o nome de Semibela prendia-se com o facto de ter nascido assim: não era cem por cento bela. Era só um bocadinho; metade a bem dizer.

No entanto, antes de prosseguir com a narrativa, tenho a obrigação de informar os eventuais leitores e leitoras que, efectivamente, a estória perde-se na memória do tempo. Por conseguinte, não estejam a pensar que é actual porque é uma estória passada em tempos que já lá vão ou até em tempos idos, digamos assim.
Como referia, a tal donzela Semibela e achegados, inclusive os cavalos de arções - nunca é de mais salientar -  viviam nesse lindo castelo e, por razões que a própria razão desconhece - parafraseando alguém, não sei quem - , uma bruxa muito má que vivia perto e que conhecia, como a palma da mão ou até à légua, os hábitos dos seus residentes, lançou um feitiço sobre o castelo e pôs tudo a dormir (há sempre uma bruxa malvada para estragar um bom enredo, mas, sem ela, penso que isto ainda tinha menos graça).
Desse modo, a perversa criatura adormeceu todos sem excepção e, naturalmente, a nossa querida donzela, transformando-a numa semi-bela adormecida.

Assim, naquele estado letárgico e sereno, não se sabe a sua duração, Semibela deve-se ter deixado acariciar, languidamente, quiçá sem conhecimento de causa, pelos raios solares que lhe entravam habitualmente pela janela do quarto; semi-bela, semi-nua e semi-virgem (em próximo artigo, dedicado exclusivamente aos leitores adultos, explicarei a razão de ela ser semi-virgem), estendida nos semi-imaculados lençóis do seu semi-profanado leito.
Passado tempo, não se sabe precisar, como já disse, mas pensa-se que foi uma eternidade, parou ali, por mero acaso ou por obra do destino, um nobre e formoso cavaleiro, alto e espadaúdo, filho de boas famílias, gente muito bem na vida e obviamente muito bem relacionada; até havia quem aventasse que o pai do nosso herói era um chefe de fila ligado à Cosa Nostra, algo que não interessa para a estória, mas, pronto, é só para encher isto. Prossigamos: 
Achando estranho o silêncio que provinha do castelo, como resposta ao seu chamamento, decidiu aproximar-se, movido pela curiosidade e pela montada, uma vez que vinha montado.
A ponte levadiça estava descida e as enormes portas escancaradas, o que lhe provocou alguns calafrios. Porém, ao apalpar a testa,  não lhe pareceu ter febre, não obstante ficar a exsudar (exsudar fica bem aqui, caraças!) perante aquele cenário inquietante; diria mesmo tétrico, se me permitem. 

Contudo, ele era um nobre e resoluto cavaleiro e, como tal, aventurou-se intrepidamente pelas escadarias, corredores, salas, quartos, pátios interiores e exteriores, torres, ameias e, em todos os espaços que observou, só viu corpos semi-adormecidos; uns semi-belos e outros semi-feios.
Quando chegou ao quarto de Semibela, onde jazia semi-bela, semi-nua e semi-virgem, deixou entrever o clássico gesto do ósculo (acho que ósculo também fica bem aqui, mas se não gostarem digam que eu retiro), tão conhecido de todos nós.

Todavia, ele sofria de rinite alérgica, associada a uma crise de febre-dos-fenos. Ora, não obstante ser muito senhor do seu ciclópeo nariz aquilino, não detectou, rapidamente, o cheiro pútrido a cadáver que pairava no ar.

Ao aproximar os seus lábios dos lábios semi-abertos de Semibela, reparou que estavam gelados e ressequidos. Foi, então, para seu espanto e horror, acossado por mil moscas varejeiras que irromperam bruscamente pela boca de Semibela, já defunta. A pobre criatura de Deus, encontrava-se, sabe-se lá desde quando, em avançado estado de putrescência.
Choroso, frustrado e denotando uma raiva mal contida porque a verdadeira estória não acaba assim, como todos a recordamos do nosso imaginário infantil, pegou no corpo exânime de Semibela e atirou-o para as águas turvas do fosso, repletas de famélicas piranhas.
Sendo uma estória com um desfecho muito trágico e até insólito, não podemos deixar de louvar a contribuição inegável deste jovem e nobre cavaleiro para a manutenção da saúde pública.

UM NEGÓCIO DA CHINA

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Já deixaram de ser segredo as viagens rodeadas de mistério e de ministério - evidentemente - que o misterioso ministro dos Negócios Estrangeiros tem andado a fazer a Pequim, onde se tem reunido com o seu homólogo chinês.

Um dos objectivos prioritários dessas viagens assenta na necessidade de aprovar os orçamentos dos casinos de Macau, já em fase bastante adiantada de composição (não confundir com de decomposição) mas, também, tratar de alguns negócios não menos importantes como, por exemplo, a renegociação da venda da EDP ao grupo China Three Gorges Corporation, uma conhecida tríade mafiosa, conhecida por Três Gargantas Fundas em homenagem à malograda Linda Lovelace.

Como é do conhecimento geral, se esta venda foi um mau negócio para Portugal, foi, outrossim, um negócio da China. É só consultarem as vossas facturas de electricidade e não venham cá com cantigas...
Bom, mas se se conseguir revogar o negócio a nosso favor, a gente paga com outro favor e despacha o Mexia e o Catroga para a Coreia do Norte, para gerirem as CRGEN, LDA (Companhias Reunidas de Gás, Electricidade e Urânio, Lda), lá do sítio. Depois falta idear a táctica para o grande acontecimento que vai marcar o Novo Ano chinês que, como se sabe, será comemorado em 16 de Fevereiro, se Deus quiser. Isto apesar de ser um ano com muito galo. Refiro-me, claro está, ao facto do 'protectorado' de Macau retornar à administração de Portugal. "Já não era sem tempo, dizia Lim Po Cu das Dores, um português natural de Oliveira de Azemeis, mas a residir no 'protectorado' há uma porrada de anos; praticamente desde que nasceu.
Porém, a notícia não tem nada de surpreendente, como já se devem ter apercebido, pois a História tem demonstrado, ao longo dos tempos, que a China teve sempre dificuldades insuperáveis em adaptar-se à cultura macaense. No fundo, reflecte um pouco a nossa que, se é deveras estranha para nós, imaginem para os chineses...
Se quisermos ser mais rigorosos na perspectiva histórica da coisa, sabemos que a muralha da China foi construída, basicamente, com o propósito de dificultar a onda migratória de macaenses para o seu território, até aí inexpugnável; se bem se lembram, na década de 1960 do século passado, Mau Zé Tuga, um magnata luso-descendente (louro?!), curiosamente com os olhos em bico e sempre a fazer beicinho, já vinha a ameaçar Macau que ia erguer uma grande muralha e que os macaenses iam pagá-la com o corpinho.
Não obstante toda a problemática à volta desta temática, andam-se a fazer coisas às cegas, não se sabendo muito bem o que são, pois os observadores não têm observado seja o que for até à data em que escrevo este artigo.

Com efeito, isto não passa de mera especulação porque nunca se vê o senhor ministro, nem à saída, nem à entrada de Macau, tampouco com uma declaraçãozinha à comunicação social para tranquilizar as massas chinesas, sem embargo da tinta da china que tem corrido. Ora, tudo isto perspectiva um absoluto desconhecimento das realidades do Oriente e subsequente desorientação.
O actual governador militar do território, o General de vinte estrelas Frang Gong Bao, disse um dia destes, numa entrevista exclusiva a Jay Chop Suey, um reputado jornalista da Beijing News, que perante a continuação do impasse nas negociações entre Portugal e a China, irá pedir a demissão do cargo e solicitar a cidadania portuguesa, por causa das tosses. E não é só o governador; os seus conterrâneos têm vindo a demonstrar a sua habitual e pachorrenta impaciência perante a actual situação. Inclusive, fala-se na eventualidade de um êxodo em massa chinesa para Portugal. Como se não nos bastasse o esparguete, valha-nos Deus!
Urge fazer qualquer coisa e justificadamente porque, das duas uma: ou o governo português aceita o pedido de protecção ou Macau invade aquilo tudo e não é pouco! Mais a mais, já não falta muito para as legislativas (2019) e Portugal está a preparar um caderno reivindicativo, em jeito de ultimato, para apresentar aos espanhóis na próxima cimeira ibérica, a propósito de Olivença que, como deduziram (e muito bem), tem tudo a ver...
Prosseguindo com a linha de raciocínio anterior, uma vez recuperada Olivença - a nossa Olivença, diga-se em abono da verdade - o resto da Espanha está no papo até meados de Dezembro, altura em que os reinos das Astúrias, Aragão, Galiza, Navarra, Taifas e naturalmente Catalunha, se juntarão às nossas forças vivas para submeter o reino de Castela e unificar, finalmente, a Ibéria. Granada ainda não sabe para que lado se há-de virar, se para a Ibéria ou para o Estado Islâmico. Mesmo assim, oxalá (Do árabe ua  illāh) este grande projecto peninsular tenha pernas para andar!
Ainda de regresso à China, sabe-se de fonte bem desinformada que os chineses, com o seu habitual sorriso amarelo, lá vão tentando convencer o mundo de que o arroz xau xau é bem melhor do que o nosso malandrinho com joaquinzinhos. No entanto, Macau contrapõe e ameaça com a eminência de uma invasão se eles teimarem em denegrir o arroz malandrinho com joaquinzinhos.
Assim, os indicadores indicam - passe a redundância - que o governo chinês vai levar este aviso muito a sério, parecendo que os macaenses também abdicarão das suas acções expansionistas, pelo menos até à Festa da Lua.
No pressuposto de que Macau respeitará o acatamento do seu vizinho e actual 'administrador', uma delegação do Partido Monárquico Mandarim, na ilegalidade, deslocou-se a Lisboa, rodeada de excepcionais medidas de segurança e disfarçada de chinesice, a fim de se inteirar dos segredos da nossa generosidade para com o investimento estrangeiro e a forma como o facilitamos. Isso aliado à fantástica qualidade de vida de alguns portugueses.
Entrevistado, o chefe da delegação, visivelmente entusiasmado, afirmou: "Com os vistos Gold e massagens tailandesas, vamos vivel num autêntico palaíso asiático!"
Esperemos, então, por um final feliz...

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  • Anónimo

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