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A TORTO E A DIREITO

UM BLOGUE SEM PÉS NEM CABEÇA, A TRECHOS LÚCIDO, CONTUDO, TRANSLÚCIDO...MODÉSTIA À PARTE

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FILA JOTA

thriller.jpg

Estava sentado na fila jota. Simultaneamente, metia pipocas na boca e mastigava-as como se fosse uma máquina de triturar, permanecendo imerso na acção que decorria na tela.

Os olhos, sem pestanejarem, mantinham-se fixos e vidrados no ecrã de cinemascope, numa mescla de sofrimento, raiva, horror e gulodice.

Com efeito, a personagem sentada na fila jota, que preferiu manter o anonimato - chamemos-lhe Joseph para respeitar a sua privacidade - , tinha olhos de vidro, por muito inverosímil que nos pareça. Para além dessa particularidade, nutria uma admiração incondicional pelo ursinho Teddy de Johnny English.
Efectivamente, Joseph sofria na mesma medida em que o drama se desenrolava à frente dos seus olhos e adquiria contornos cada vez mais definidos, linhas rectas e curvas, por vezes concêntricas, mas, sobretudo, fantásticas e irreais - passe a redundância. Porém, Joseph mantinha-se hirto; sem pestanejar.

Tratava-se, na realidade, de uma visão, embora já saibamos que tinha olhos de vidro. Contudo, uma visão perturbadora e desligada da vastidão circundante e do drama que se desenrolava à sua frente porquanto era a sua percepção do enquadramento da cena, naquela perspectiva espacial da fila jota.

Contudo, ele sabia perfeitamente o que isso era porque já experimentara estar atrás da câmara.
Subitamente, numa mudança brusca de plano, o serial killer que interpretava o papel de psicopata e fisiopata*, alternadamente, avança de faca em riste em direcção às costas de Johnny English que, por sinal, estava de costas voltadas para o homicida, um travesti de nome Dorothy Shung Li, natural de Shangri-La, humanista e feminista dos sete costados. Daí a sua propensão compulsiva para atacar pelas costas e, ainda por cima... quer dizer por trás, sem avisar.
Enquanto decorria a tragédia no ecrã, cuja tortuosidade deixava antever um desfecho sinistro que poderia ter tanto de nefasto como de fatal como o destino ou, quiçá, de tragicomédia, vá-se lá saber - só quem passa por estes acontecimentos inesperados é que sabe dar o valor - , permanecia sentado na fila jota, colado ao conforto da cadeira, não obstante o desconforto da trama que se desenrolava na tela, olhos marejados de lágrimas pela incapacidade física de não poder acudir ao indefeso Johnny English...onde é que eu ia?...Ah, pois..., escrevia, a dado passo, que a faca se preparava para golpear o sujeito alvo, bárbara e covardemente porque, como já referi, ele estava de costas voltadas para Dorothy Li.
Joseph, impotente, sentado na fila jota, como tinha referido também, não aguentou mais a tensão do momento porque foi, efectivamente, um momento de tensão, e berrou a plenos pulmões, vomitando pipocas: «Cuidado, o gajo está mesmo atrás de ti, Johnny!»
Debalde. A faca penetrou as costas de English, implacável e fria, talvez seis vezes, mais facada, menos facada, rasgando-lhe, pelo menos, um pulmão e trespassando-lhe o coração, o qual caiu redondo (o Johnny, embora "o qual" nos possa colocar alguma dúvida em relação a quem ou o que caiu redondo), não sem antes ter esboçado um esgar de dor de barriga, vindo a perder a vida imediatamente após ter falecido, vítima de homicídio doloroso.
Saiu da sala visivelmente frustrado e o caso não era para menos, pois não conseguia entender porque é que continuavam a dar papéis importantes a gajos surdos.

*Do grego phýsis, "natureza" + páthos, "sofrimento", estão a  ver? Portanto o(a) que utiliza objectos cortantes, contudo naturais, para matar com muita dor.

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