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A TORTO E A DIREITO

UM BLOGUE SEM PÉS NEM CABEÇA, A TRECHOS LÚCIDO, CONTUDO, TRANSLÚCIDO...MODÉSTIA À PARTE

A TORTO E A DIREITO

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UM CASO DE AMNÉSIA

um caso de amnésia.jpeg

11 de Janeiro:

É, no mínimo, curioso o número de voltas que um gajo dá, até descobrir a utilidade das coisas!

É evidente que a minha pobre memória já não é a mesma desde que... olhem, varreu-se-me!

A título de exemplo, hoje, vasculhei as gavetas de uma caixa de tamanho médio, existente aqui no espaço onde presumo que durmo, mesmo ao lado de uma abertura que dá para um espaço que confina com outras aberturas pelas quais penso que ainda não me aventurei. Lá chegarei, se Deus quiser.
Assim, voltando à tal caixa de tamanho médio existente aqui neste espaço onde presumo que durmo, mesmo ao lado da tal abertura - vou chamar-lhe candeeiro e vou ver se não me esqueço - , vasculhei as gavetas, como penso que fiz, e observei uns pacotes misturados com outros objectos. Num dos pacotes, já aberto, descobri umas coisas cilíndricas e moles, com revestimento de papel de cor branca, lado a lado, só faltando, aparentemente, uma, ou duas. Tentei tirar uma com a ponta dos dedos, mas foi preciso virar o pacote ao contrário e bater com ele várias vezes na ponta do dedo indicador esquerdo (sou destro) para, finalmente, puxar uma que se partiu ao meio e, ao partir-se, fiquei com um bocado de uma substância castanha presa entre os dedos; por sinal com um cheiro agradável que penso que seja uma erva aromática, por exclusão de partes.

Fiquei tão excitado com a descoberta que corri imediatamente para a abertura que dá para o espaço que confina com outras aberturas, mas, receoso, refreei o impulso para não me desorientar.
Finalmente, já o sol se tinha posto na linha do horizonte, decidi deitar-me na carpete para descansar das primeiras emoções. Tinha sido um dia pródigo em novas sensações, algumas um bocado bizarras, diga-se em abono da verdade.

Amanhã, se Deus quiser, vou tentar descobrir para que serve uma coisa branca, circular e ligeiramente côncava que encontrei em cima da caixa de tamanho médio. De manhã, inadvertidamente, deixei que me escorregasse das mãos e quase que se escaqueirou no chão; ainda se lascou um bocadinho, coisa sem importância.

 

10 de Julho:

Despertei mais cedo do que é costume, decidido a pôr tudo em pratos limpos, não obstante desconhecer o significado desta expressão, e tudo o que consegui foi um punhado de contratempos.

Levantei-me cheio de dores nas costas e com uma vontade enorme de urinar. Decidido, caminhei dois passos até à abertura que dá para o espaço que confina com outras aberturas. A necessidade aguça o engenho e era urgente. Por isso não havia tempo a perder e eu carecia de verter águas. Ainda, sem passar para além da dita abertura, senti-me húmido e quente nas partes baixas e pensei que era natural isso ter-me acontecido pois, afinal, alguém tinha tido o cuidado de me limpar, após sentir-me aliviado, não sei, pareceu-me ter sido uma senhora que não consegui identificar, mas cuja cara me é familiar. Satisfeito, tornei a deitar-me na carpete.

 

5 de Agosto:

Raios partam a puta da memória! Agora não sei o que é uma carpete, mas descobri, finalmente, que a substância dos tais cilindros serve para fumar e fiquei muito contente com a descoberta. De tal modo que meti logo uma mão cheia deles, de uma assentada, na boca e peguei-lhes lume! Tossi tanto que cuspi a prótese dentária que pensava ter engolido há séculos. De repente começou a chover sem razão aparente; até porque fazia um dia bonito e cheio de sol - lá fora estava tudo seco - e senti-me deveras confuso com a incoerência do tempo.

Momentos depois, pareceu-me escutar um burburinho e um som parecido com o de uma sirene e vi uns sujeitos de porte atlético irromperem por ali adentro, seguidos pela tal senhora cuja cara não me era estranha. Lembrei-me, naquele preciso momento, que era a minha esposa. Um deles avançou para mim, com cara de poucos amigos, trazendo debaixo do braço uma espécie de camisa ou colete; não sei precisar porque foi tudo muito rápido. Apercebi-me de que eram uns quatro ou cinco, todos vestidos de branco. Ironicamente, antes de adormecer assim de repente, não sei como nem porquê, perguntei-me para que seriam necessários tantos, para segurar uma pessoa tão franzina e sorri a pensar que tudo isto era um sonho mau e que ia acordar no momento seguinte...

 

20 de Novembro:

Devia estar desesperado, pois a minha memória não experimenta melhorias significativas, mas que se lixe! Parece que me estou a habituar a passar mais tempo metido na tal camisa ou colete que referi há tempo. Hoje enfiaram-me montes de "M&M's" pela goela abaixo. Não sabiam a chocolate, mas achei muita piada ao colorido e, pelo menos, acalmaram-me. Fiquei sem saber se a substância castanha dos tais cilindros moles, para além de causar muita tosse e servir efectivamente para fumar, é boa para a saúde. Tampouco tenho a certeza da sua existência e continuo sem saber se para além da abertura que dá para o espaço que confina com outras aberturas, existem outros espaços, ou, afinal, se isto não passa de um pesadelo do qual é impossível despertar. Contudo, essa ideia fixa deixou de ser relevante porque, pelo aspecto do novo espaço, tenho a sensação agradável de que mudei de sítio.

Uma coisa é certa: pelo menos trocaram-me a carpete e, por sinal, esta já não range tanto. Agora já não sinto tantas dores de costas ao acordar, graças a Deus...

ADÃO E EVA OU OS ETERNOS MITOS PROTO-ESTÓRICOS

adão e eva.jpg

Há "long time ago" ou seja: há uma porrada bem valente de tempo (estive tem-te-não-caias para começar este texto com "once upon a time", mas pensei que era só para inglês ver e isso era presunção a mais), andava um hominídeo de sexo indeterminado a passear no jardim da Celeste (sublinho que substantivos próprios como Celeste, por exemplo, ainda não constavam no léxico da criação universal, mas é só para se ter uma noção geral, mesmo que abstracta, deste episódio proto-humano).

Vou chamar Eva ao hominídeo com alguma reserva porque, apesar de parecer ter alguns traços ou formas semelhantes ao Homo Linnaeus, não tinha carácter nem género definido ou explicando o melhor que posso: aparentemente, ainda não possuía as características físicas que distinguem, actualmente, um macho de uma fêmea. No entanto, se não lhe chamasse Eva e não tivesse inventado o nome Celeste em cima do joelho, a estória não tinha piada. Aliás, passados que são milhares de milénios, ainda hoje, em muitos casos, é difícil fazer tal avaliação, assim, do pé para a mão e vice-versa. Todavia, abordarei este assunto noutra altura, se me apetecer, pois presumo que é um tema do agrado de muitas pessoas. Prossigamos, então, que se faz tarde e está na hora do lanche.

Eva dirigiu-se ao Criador:

«Estou a cismar, cá, c'uma coisa. Sei que foste Tu que me moldaste e me mandaste vir ter com a Celeste e também sei que isto é um lugar porreiro e paradisíaco, mas falta-me qualquer coisa que não consigo explicar por enquanto. Só sei que, às vezes, me deixa à beira do desespero e a Celeste não consegue preencher essa lacuna.»
«Então, Eva, o que é que te deixa à beira do desespero?...Conta-me!»
«Sinto-me muito, mesmo muito só e já estou farta de comer maçãs!»
A Entidade Criadora, reparando numa protuberância que sobressaía na parte ântero-superior do pescoço de Eva, também concluiu que havia um vazio na vida daquele ser indefinido que carecia de ser preenchido e disse:
«Ora, o que tu queres, sei eu! Julgas que nasci ontem ou quê? Porque é que não pensei nisso antes, caraças?! Vou-te arrancar uma costela e faço-te um dildo; e estás solenemente proibida de comer mais maçãs, senão ficas com prisão de ventre; e podes continuar a brincar com a Celeste porque, por enquanto, nenhum mal advirá de uma boa brincadeira. Afinal, ainda não inventei o pecado!»

«O que é um dildo?! Isso come-se?»
«Não, propriamente..., mas está bem, faço-te um Adão se melhor te apraz. Devo avisar-te que não vou conseguir moldá-lo de forma perfeita e vai ser hostil quando as coisas não lhe correrem conforme os seus desejos. Está escrito e vai ser assim; não há volta a dar. Para além destes defeitos, vai ter, certamente, mais. Olha, por exemplo, uma auto-estima desmedida e um sentimento de posse exclusivo.

Previno-te que não vai ser pêra doce...perdão, maçã doce aturar um tipo assim, mas é impossível moldá-lo à minha imagem e semelhança porque só consegue usar uma percentagem ínfima do seu cérebro. Ninguém é perfeito e Eu, apesar de ser omnisciente, não fujo à regra.

Assim, a escolha é tua. Ainda estás a tempo de reconsiderar se queres continuar com a Celeste e viver uma vida porreira, idílica, repleta de lazer, prazeres inolvidáveis e sobretudo sem dor.

Com este gajo vais ter muitos sofrimentos, nomeadamente partos dolorosos e uma catrefada de filhos para criar.

Se pensas que só vais parir o Abel e o Caim, podes tirar o cavalinho da chuva! Vais ter toneladas de roupa para lavar, principalmente, fraldas. Não esqueças que as descartáveis só vão aparecer daqui a milhares de milénios.

Vais ter, também, de passar um ror de roupa a ferro, ter noites perdidas, oferecer paparicos ao pitecóide, subjugares-te aos seus ímpetos carnais sem invocares dores de cabeça e ainda, submeteres-te aos seus humores bestialmente variáveis.

Contudo, tranquiliza-te que nem tudo vai ser mau, vais ver! É claro que fará coisas que, pela sua natureza muito peculiar, terás alguma dificuldade em entender, tipo ter fantasias muito porcas; pesquisar na net o tamanho ordinário de um pénis para ver se o seu está dentro dos parâmetros; assoar o nariz, com as mãos, na via pública; coçar os tomates; afastar-se da sanita para ver quão comprido e vigoroso é o jacto de urina; peidar-se debaixo dos lençóis, agitá-los e rir-se alarvemente da proeza; regozijar-se com as erecções matinais, et cetera.»
«Parece-me bem; é diferente de tudo aquilo a que estou habituada!» – disse Eva, muito contente e já a pensar em cenas repletas de volúpia com Adão.
«Sendo assim, resta-Me impor-te uma condição.»
«Qual?»
«É imperativo que o deixes pensar que tirei uma costela dele e não de ti, senão temos o caldo entornado!...Os homens também têm sentimentos que diabo (o diabo, aqui, ainda era uma figura de retórica, dado que a divisão entre o bem e o mal ainda não tinha acontecido)! Ah, outra coisa: essa maçã, no teu pescoço, não é tua. Vais ter de a restituir ao Adão!»

LIMITE DE VELOCIDADE DENTRO DAS LOCALIDADES

Sempre à frente, os marotos dos dinamarqueses - no caso, dinamarquesas - , com mais esta ideia genial.

Creio que uma ideia destas seria capaz de suscitar o entusiasmo da malta masculina cá do burgo, levando-a a uma condução mais atenta e respeitadora dos limites de velocidade impostos dentro das localidades. Penso, até, que tampouco se justificaria a existência de radares. Só tem um inconveniente: é uma medida sazonal. Com o frio que está, é lixado andar com as maminhas ao léu. Por muito quentinhas que as meninas sejam...

FILA JOTA

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Estava sentado na fila jota. Simultaneamente, metia pipocas na boca e mastigava-as como se fosse uma máquina de triturar, permanecendo imerso na acção que decorria na tela.

Os olhos, sem pestanejarem, mantinham-se fixos e vidrados no ecrã de cinemascope, numa mescla de sofrimento, raiva, horror e gulodice.

Com efeito, a personagem sentada na fila jota, que preferiu manter o anonimato - chamemos-lhe Joseph para respeitar a sua privacidade - , tinha olhos de vidro, por muito inverosímil que nos pareça. Para além dessa particularidade, nutria uma admiração incondicional pelo ursinho Teddy de Johnny English.
Efectivamente, Joseph sofria na mesma medida em que o drama se desenrolava à frente dos seus olhos e adquiria contornos cada vez mais definidos, linhas rectas e curvas, por vezes concêntricas, mas, sobretudo, fantásticas e irreais - passe a redundância. Porém, Joseph mantinha-se hirto; sem pestanejar.

Tratava-se, na realidade, de uma visão, embora já saibamos que tinha olhos de vidro. Contudo, uma visão perturbadora e desligada da vastidão circundante e do drama que se desenrolava à sua frente porquanto era a sua percepção do enquadramento da cena, naquela perspectiva espacial da fila jota.

Contudo, ele sabia perfeitamente o que isso era porque já experimentara estar atrás da câmara.
Subitamente, numa mudança brusca de plano, o serial killer que interpretava o papel de psicopata e fisiopata*, alternadamente, avança de faca em riste em direcção às costas de Johnny English que, por sinal, estava de costas voltadas para o homicida, um travesti de nome Dorothy Shung Li, natural de Shangri-La, humanista e feminista dos sete costados. Daí a sua propensão compulsiva para atacar pelas costas e, ainda por cima... quer dizer por trás, sem avisar.
Enquanto decorria a tragédia no ecrã, cuja tortuosidade deixava antever um desfecho sinistro que poderia ter tanto de nefasto como de fatal como o destino ou, quiçá, de tragicomédia, vá-se lá saber - só quem passa por estes acontecimentos inesperados é que sabe dar o valor - , permanecia sentado na fila jota, colado ao conforto da cadeira, não obstante o desconforto da trama que se desenrolava na tela, olhos marejados de lágrimas pela incapacidade física de não poder acudir ao indefeso Johnny English...onde é que eu ia?...Ah, pois..., escrevia, a dado passo, que a faca se preparava para golpear o sujeito alvo, bárbara e covardemente porque, como já referi, ele estava de costas voltadas para Dorothy Li.
Joseph, impotente, sentado na fila jota, como tinha referido também, não aguentou mais a tensão do momento porque foi, efectivamente, um momento de tensão, e berrou a plenos pulmões, vomitando pipocas: «Cuidado, o gajo está mesmo atrás de ti, Johnny!»
Debalde. A faca penetrou as costas de English, implacável e fria, talvez seis vezes, mais facada, menos facada, rasgando-lhe, pelo menos, um pulmão e trespassando-lhe o coração, o qual caiu redondo (o Johnny, embora "o qual" nos possa colocar alguma dúvida em relação a quem ou o que caiu redondo), não sem antes ter esboçado um esgar de dor de barriga, vindo a perder a vida imediatamente após ter falecido, vítima de homicídio doloroso.
Saiu da sala visivelmente frustrado e o caso não era para menos, pois não conseguia entender porque é que continuavam a dar papéis importantes a gajos surdos.

*Do grego phýsis, "natureza" + páthos, "sofrimento", estão a  ver? Portanto o(a) que utiliza objectos cortantes, contudo naturais, para matar com muita dor.

MITOS BÍBLICOS

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Naquela manhã Abraão acordou o filho muito cedinho:
«Levanta-te Isaac, temos de abalar, já, meu filho!»
«Mas..., paizinho, nem uma torradita e um leitito de burra?!»
«Anda! Levo aqui pãnito, azeitonitas e um queijito de Serpa, vá, comemos pelo caminho, despacha-te!»
«Paizinho, não leva, ao menos, uma garrafita de vinhito?»
«Bebes aguinha do Ardila e já vais com sorte, meu menino!»
Chegados ao local indicado pelo mensageiro do Senhor, nos sonhos de Abraão, ali pintaram a manta... perdão, estenderam-na e despacharam o resto da merenda.
Isaac estava impaciente para adorar e sacrificar fosse o que fosse:
«Paizinho, quando é que a gente vai adorar e sacrificar?»
«Tem calma, moço, tudo tem a sua hora, que diabo! Ai..., perdoai-me, Senhor, porque invoquei Lúcifer, esse capeta dum cabrão!»
Passado algum tempo e estando Isaac a dormir uma soneca à sombra de uma azinheira, o pai aproveita a oportunidade, salta-lhe em cima, dá-lhe uma cachaporrada no toutiço, amordaça-o, amarra-o à árvore e posta-se de alerta à espera que o filho acorde:
«Q'a porra vem a ser esta, paizinho, só pode 'tar a mangar?! Até pareço um enchido de Estremoz!»
«Está escrito, meu filho, não m'arranjes mais cargas de fezes q'aquelas que já tenho; olha q'ainda levas uma lamparina! Vá, não podemos contrariar as escrituras!»
Abraão pôs-se a jeito para desferir um golpe de cutelo no seu indefeso filho:
«Desinfectou isso, ao menos? Pode-se apanhar o tétano, paizinho!»
Abraão não teve tempo de responder. Um enorme e repentino rugido, vindo dos céus, acompanhado de vento e poeira, acabara de anunciar a presença de um anjo do Senhor:
«Oiça lá, ó seu grandessíssimo Abraão, então você, sua besta quadrada que não tem outro nome, confundiu o seu rapaz com um borrego, seu tira moncos, seu..., seu ratecégo, seu tombaque? Vá lá judiar com o raio que o parta, seu alarve! Arre porra que você não vale um chocalho d'erva, catano! Não sabe que é aquele bicho que tem de imolar? Para a próxima vai de raboleta para o inferno, 'tá ouvindo?»
O pobre e assustado ancião virou-se e viu ali, escarrapachado, um carneiro escanzelado, vindo, sabe Deus d'onde. Mataram-no e Abraão fez um ensopado dentro dos condicionalismos inerentes. A carne saiu um bocadito dura, mas, pelo menos, o anjo chamou-lhe um pitéu e comeu que nem um bruto. Cheio e farto - passe a redundância - , agarrou nos quatro arrátes, com muita dificuldade, e desapareceu por entre as nuvens. Com tanta emoção junta, pai e filho ficaram sem fome. Abraão até se esquecera das suas dores nos artelhos, própria da sua provecta idade.
O Isaac, coitadinho, é que não se lembrava de ter apanhado um escalda rabos tão grande. O importante é que não ficaram derramados com o episódio que, graças a Deus, foi resolvido sem infortúnio. Todavia, isto ficou fortemente guardado na alembradura de ambos, de tal modo que, mais de 2000 anos depois, é repetidamente recordado pelas alminhas lá daquele monte que não vou identificar q'é p'ra não ficarem raladas dentro dos caixões. Nã é que se importem, agora, muito, mas, naquela altura, a coisa podia ter dado para o torto e seria uma grande moidera, n'acham? E termino esta estória sem talho nem maravalho, não sem esclarecer, finalmente, que as personagens e o contexto histórico e geográfico são fictícios como deverão entender, n'é?

DIÁLOGO ENTRE COLBERT E MAZARINO

colbert e mazarino.jpgColbert: «Para encontrar dinheiro, há um momento em que já não é praticável enganar seja quem for.

Senhor Superintendente, gostaria que me explicasse como é que é possível continuar a gastar tanto, quando já nos empenhámos até ao pescoço?!...»

Mazarino: «Bom, então, passo a explicar:

Se estivermos a falar de um miserável Zé ninguém coberto de dívidas, e não tendo como as pagar, é óbvio que vai preso. Mas o Estado..., bem..., o Estado é diferente! Não se pode mandar prender o Estado que diabo! A solução natural para o problema é continuar a acumular dívidas... Todos os Estados o fazem, não somos excepção, Colbert!»


Colbert: «Ah sim? É essa a sua convicção, então? No entanto, continuamos a precisar de dinheiro. Como é que havemos de o obter se já criámos todos os impostos imagináveis?»

Mazarino: «Criando outros com designações incompreensíveis para a população ignara. Dada a sua complexidade, presumirão que são vitais para combater a falta de liquidez das finanças do reino e, naturalmente, a manutenção do seu estatuto de pobreza e, por consequência,iliteracia»

Colbert: «Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres. Sujeitamo-nos a uma insurreição popular!»

Mazarino: «Realmente tens razão, também pensei nessa possibilidade!»

Colbert: «Bem, sobram os ricos!»

Mazarino: «Os ricos também não, nem ouses tal pensamento! Deixariam de gastar ou pior ainda: tratariam de transferir a totalidade das suas fortunas para reinos onde não fossem taxadas! Um rico que gasta faz viver centenas de pobres, não esqueças!»

Colbert: «Então onde vamos arranjar dinheiro?»

Mazarino: «Ai, Colbert, comes muito queijo, homem de Deus! A coisa processa-se da seguinte forma: há uma quantidade enorme de gente entre os ricos e os pobres: os que trabalham, com o sonho de um dia se tornarem ricos e com um medo insuportável de ficarem pobres. É a esses que devemos sobrecarregar com impostos atrás de impostos, cada vez mais, sempre mais, percebes?! Esses, quanto mais lhes tirarmos, mais se esfalfarão a trabalhar para compensarem o que lhes tirámos. São uma reserva inesgotável!»

As personagens são reais, o diálogo é fictício ( adaptação livre da peça teatral Le Diable Rouge, de Antoine Rault. Circula por aí...), mas pode-se reportar aos tempos actuais, como facilmente se depreende nesta magnífica rábula...

“Jean-Baptiste Colbert (Reims, 29 de Agosto de 1619 — Paris, 6 de Setembro de 1683) foi um político francês que ficou conhecido como ministro de Estado e da economia do rei Luís XIV. Instalou o Colbertismo na França, onde teve uma grande importância no desenvolvimento do mercantilismo ou da teoria mercantilista (com adeptos fervorosos em Portugal), bem como das práticas de intervenção estatal na economia, que o mercantilismo advogava.
Em 1651, Michel Le Telier, apresenta-o ao Cardeal Mazarino que o contrata para gerir a sua vasta fortuna pessoal. Antes de morrer, em 1661, Mazarino recomendou Colbert ao rei Luís XIV de França, salientando as suas qualidades de dedicado trabalhador. Nesse mesmo ano o rei fez de Colbert ministro de Estado e, em 1664, atribui-lhe o cargo de superintendente das construções, artes e manufacturas e ainda o de intendente das Finanças.” - Wikipédia

ESFÉRICA OU CHATA?

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«Faço-a esférica ou faço-a chata?» - perguntou Elohim (Elo para os amigos), com um pé na Via Láctea, a dar uns toques num asteróide.

«Faze-a chata!» - disse Mefistófeles (Mefisto para os amigos).
«Fá-la, burro!» - corrigiu Elo.
«Estou a falar, e não me chames burro, caralho!» - disse o anjo das Trevas.
«Não é isso, é o pronome!» - disse Elo - E além disso proíbo-te terminantemente de utilizares termos náuticos que ainda não criei!
«Ah, é o pronome?...Realmente!» - fez Mefisto com a ligeira impressão de que Elo tinha metido a pata na poça.
Elo, para não ficar mal na fotografia, criou a Gramática logo no primeiro dia. Mefisto olhou-o com despeito: "Tem a mania que é o Criador, foda-se!" - disse entre dentes...
Assim, a Terra foi criada e ficou chata. Fizeram-se as inscrições e publicações legais na Conservatória do Registo Celestial, como manda a Lei, mas Mefisto ainda lembrou:
«E depois vêm o Copérnico, o Galileu, o Kepler e mais gajada chatear-nos, vais ver!»
«Deix'os vir, podemos muito bem com as teorias deles!» - fez Elo
«E Portugal é para fazeres hoje, ou guardas para amanhã?» - perguntou Mefisto.
«Tem tempo, tem tempo!» - disse Elo
«Ficava feito e dava tempo àqueles manjericos para se prepararem!» disse Mefisto
«Prepararem?» - fez Elo - «Essa é boa!... Para quê?»
«Democracia, qualidade de vida, adesão ao Mercado Comum, essas merdas, 'tás a ver?» - disse Mefisto
«Já te disse que tem tempo!» - repetiu Elo, feito 'nhurro'.
Mefistófeles achou que o mar estava encarapelado de mais para a pesca, muito embora a noção de mar não passasse, por enquanto, dos planos da Criação. Elohim irritava-o sobremaneira. Omnipotente, omnisciente, infinitamente bom, infinitamente justo. "São os piores", pensou. E com um suspiro: "Portugal podia ser, se Ele quisesse, uma grande e próspera Nação."
Elohim percebeu que o outro começava a encordoar e que isso lhe poderia estragar as sestas...
«Vai um bagacinho?» - perguntou Elo.
«Quê, já criaste?» - fez Mefisto.
«Posso fazer agora, alinhas?» - disse Elo.
«Não quero, o primeiro fica sempre muito rascante!» - respondeu Mefisto
«E uma voltinha a pé? É porreiro para as coronárias, pá!» - fez Elo
«'Tás parvo, ou fazes-te? Com este reumático não me tenho nas canetas!» - respondeu Mefisto.
Elohim pensou que o dia não dava para mais nada, não obstante ainda não terem sido criados os dias, tampouco as noites. Não quer dizer que tivesse sido dos menos produtivos. No entanto, criada a Gramática, as contracções pronominais, um plano para o bagaço, e a Terra Chata, por acordo entre as partes, era tempo de descansar.
«Vou-me chegando.» - disse Elo.
«Ci vediamo domani!» - respondeu Mefisto, embora Roma fosse, ainda, uma quimera.
«Até amanhã, se eu quiser!» - fez Elo
"Peneiras do catano!" - pensou Mefisto, descendo aos infernos.

EXALTAÇÃO AO AMOR

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Vítor entra em casa, apressado e a tiritar de frio. Tira o blusão que atira para cima da poltrona, alheio ao cão que repousa nos estofos coçados pelo tempo.

Cláudia, sem claudicar, mantém-se de pé, virada para a lareira onde crepita um lume acolhedor; lá fora faz um frio glaciar. 

O recém chegado olha para Joana, que foi Cláudia quando ele entrou, e toca-lhe nos ombros com suavidade. Não obstante, Maria que foi Cláudia quando ele entrou, e Joana quando a tocou nos ombros, estremece pois estava absorta em pensamentos que se enovelavam na mente como o fogo nas cavacas. Volta-se e encara o homem com um olhar lânguido e simultaneamente voluptuoso - passe a redundância.
No entanto, Graça que foi Cláudia quando ele entrou, Joana quando a tocou nos ombros, Maria que estremeceu porque estava absorta em pensamentos, permaneceu expectante, receosa sobre o assunto inadiável que trouxera Vítor até si e que o perturbava tanto, ao ponto de quase sufocar.

Todavia, Natália que foi Cláudia quando ele entrou, Joana quando a tocou nos ombros, Maria quando estremeceu porque estava absorta e Graça quando se beijaram apaixonadamente, descola docemente os lábios húmidos dos lábios do seu amante e exclama:
- Ah, Vítor, se amar fosse fácil, não te quereria tanto como agora, meu Deus!
Porém, Sofia está equivocada, ele era Vítor quando entrou, e ela Cláudia. António quando a olhou e ela Joana. Luís quando a fez estremecer por estar absorta e ela Maria. Artur quando se beijaram e ela Graça. Francisco quando aliviaram o beijo e ela Natália. José quando ela disse que não quereria tanto a Vítor como agora.

Assim, Arminda de seu nome Luísa, contrafeita com a situação embaraçosa, pede desculpa a Nuno, de seu nome Paulo. Pensam celebrar a concórdia com uma noite só para eles, cheia de exaltação ao amor.
- Que dizes, Fernando?
- Porque não, Margarida?
E vão. Lúcio e Emília estão tão jubilantes por se terem reencontrado que tampouco se lembram das promessas de Teresa a Samuel.
Ninguém adivinhava desfecho tão dramático quanto o de Narciso e Elvira. Quiçá, Luís e Cremilde.

SEXO BIZARRO

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Confesso que o assunto não é virgem e penso que, neste aspecto, o leitor e a leitora deverão estar de acordo comigo. Todavia, tentarei abordá-lo, quero dizer, vou mesmo abordá-lo, mas numa perspectiva que não fira susceptibilidades porque não é esse o meu objectivo, apesar de não ser tão óbvio assim. Isto, não obstante parecer um bocadinho melindroso, não o nego. Avancemos, então, com caldos de galinha, com esperança de que não se entornem.

Para conferir alguma dignidade à complexidade desta matéria, só para não parecer vulgar, ou, até mesmo, ordinária, a despeito de estar na ordem do dia, decidi alterar o título deste artigo que inicialmente pensei em titular de DESVIOS SEXUAIS. Isto porque me pareceu pretensioso porquanto, não sendo psicólogo nem sexólogo, pareceria mal meter a mão ou o que fosse em seara alheia, mesmo que a frase "meter a mão" se me afigure muito apelativa. Depois deste ligeiro proémio com bolinha vermelha, prossigamos, então.

Segundo a opinião dos entendidos, nem todos os desvios da função sexual são considerados aberrações, embora, na generalidade, tenham como causa determinante, desarranjos de ordem psíquica. Excepção à regra são os vulgares fetiches. Ora, à luz da ciência actual e ao contrário do que muita gente pensa, o fetiche parece ser um óptimo estimulante sexual, embora careça de estudos mais determinantes.
Vejamos alguns casos de fetichismo que podem ajudar a compreender o fenómeno, interpretando-o como algo natural e, obviamente, dentro do comportamento comum, ou normal. Passo a citar:

Caso a) - Pessoas que conseguem obter excitação sexual manipulando ovos cozidos sem casca ou que conseguem ter três orgasmos consecutivos ao cheirar um par de meias em pura lã virgem, com uma semana de uso, em pleno Verão.
Caso b) - Sujeito que experimenta um orgasmo intenso (durante meia hora, no mínimo), após comer um quilo de bombons belgas com lacinho e tudo.
Caso c) - Indivíduo (do género masculino, ou feminino) que adora fazer sexo alternativo, imediatamente após a higiene oral.

A propósito deste último caso, Adolf Hitler, no seu badalado livro Mein Kampf, agora reeditado em Portugal, surpreendentemente ou talvez não, vendeu muitos exemplares só porque, a páginas tantas, confessa que fazia cunilíngua (do latim cunnilingus mustache) à Eva Braun, prática que, para os padrões morais da época, era considerada muito semítica e suja e punida com câmara de gás. Contudo, Hitler e Eva eram pessoas excepcionais e safaram-se até ao dia em que o "fuhrer" foi apanhado com a boca na botija.

Naturalmente que, na perspectiva das mentalidades actuais, esta prática - vulgaríssima, aliás - não se enquadra em nenhum caso patológico de sexo bizarro. Que fique aqui bem claro que concordo em absoluto!

Ainda, sobre este costume trivial, se inquirirmos um universo de mil portugueses (e portuguesas, claro), dos 18 aos 118 anos, sobre o assunto, a maioria vai responder, invariavelmente, que não fez nos tempos mais recuados e não lhe passa pela cabeça fazê-lo nos tempos mais próximos, sabendo-se que é consabida a habitual tendência para mentirem e, neste particular, não fogem à regra. Adiante, senão disperso-me.

No que confere verdadeiramente aos distúrbios de natureza sexual, ou desvios, como quiserem entender e continuando a citar, a zoofilia ocupa um lugar de destaque entre as práticas consideradas bizarras. É banal referirem-se factos de relações sexuais entre seres humanos e aves de capoeira, cães, gatos, cavalos, burros, bois, vacas, bodes, cabras, ovelhas e por aí adiante. Inclusive, há referências a insectos, imagine-se! Como facilmente se depreende, a zoofilia não é rara e já vem de tempos muito recuados no tempo (passe a redundância).
Existem expressões curiosas no léxico popular que comprovam a existência dessas condutas. Por exemplo, frases como "não há meio de me livrar daquela melga", ou "ainda por cima tenho que gramar aquele camelo na cama!", ou "hoje vou dormir com aquela cabra!", ou "que mal fiz a Deus para aturar aquele cabrão?", ou "não gosto dele, é um porco!", ou "será que é assim tão burro, que não perceba que já não gosto dele?", ou, ainda, "aquela vaca estragou-me a vida!", et cetera; os exemplos multiplicam-se. Um leque vastíssimo de pessoas confessa, deste modo, que mantém relações carnais com bichos de duas, quatro patas e, em casos raríssimos, com mais de quatro patas. As relações com animais de uma pata ainda não entraram para as estatísticas, mas prevê-se para breve o seu arrolamento.

Algumas relações são satisfatórias, outras nem tanto, mas, enfim, é a vida, não se pode ter tudo! Contudo, embora nos pareça estranho, cada um é livre de fazer amor com quem ou com o que quiser. Há relatos que referem práticas sexuais com tijolos, garrafas, escovas de dentes eléctricas e outros objectos. Nada a obstar desde que a relação seja franca, mutuamente consentida e profícua; ninguém tem nada a ver com isso! Outros casos há, mais difíceis, de relações sexuais com couves galegas, portuguesas e de Bruxelas. No entanto é claro que não há impossíveis. Tudo se resolve com muita fé e força de vontade.

A posição para consumar o acto sexual também tem muito que se lhe diga, dado que não existem normas, mundialmente aceites, que definam qual ou quais as posições mais correctas para praticar sexo, o que tem sido motivo de acesas discussões entre adeptos de várias posições e adeptos da posição clássica.
Continua a ficar ao critério de cada um, a posição mais cómoda e, naturalmente, mais satisfatória. Quanto ao sexo em grupo, "ménage à trois", troca de casais, "swing", et cetera, serão assuntos de que me ocuparei num próximo artigo porque já estou que nem posso, estas coisas excitam-me, peço desculpa, vou ali molhar os pulsos com água fria e já venho.

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