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A TORTO E A DIREITO

UM BLOGUE SEM PÉS NEM CABEÇA, A TRECHOS LÚCIDO, CONTUDO, TRANSLÚCIDO...MODÉSTIA À PARTE

A TORTO E A DIREITO

UM BLOGUE SEM PÉS NEM CABEÇA, A TRECHOS LÚCIDO, CONTUDO, TRANSLÚCIDO...MODÉSTIA À PARTE

MANIFESTO DA POUCA VERGONHA

manifesto da pouca vergonha.jpg

Desavergonhados do mundo inteiro, univo-vos! Estais à espera de quê?
A união faz a força!
O povo está com a pouca vergonha, assim como a pouca vergonha está com  o povo!
A pouca vergonha unida, jamais será vencida!
Juntos seremos muitos!
Os envergonhados que paguem a crise!
Abaixo os envergonhados!
Os envergonhados são uns totós!
Viva a pouca vergonha!

Que mal tem cagar na praia ou mijar na piscina? Fazer festinhas no cassetete do polícia ou cuspir na sopa? Porque é que parece mal tirar cera dos ouvidos com o dedo mindinho ou cortar as unhas dos pés enquanto se espera ser atendido numa repartição pública? Tirar a prótese dentária para chupar entrecosto ou limpar as mãos à parede? Não lavar o cu ou tirar burriés do nariz e metê-los na boca? Peidar no Rossio ou coçar as bolas na Rua Augusta? Porquê? Por obra e graça de quem? Por amor da santa! Porque é que, também, não se podem ler as legendas dos filmes portugueses em voz alta? Quem diz as legendas dos filmes, diz outra coisa qualquer, sei lá, por exemplo, deixar crescer a pêra só dum lado ou entrar em casa pela porta do cavalo. Quem não tiver porta do cavalo pode usar a dos fundos, vai dar ao mesmo!

Viva a pouca vergonha!

Abaixo a vergonha na cara e noutras partes do corpo!

Ressonar alto e bom som é bestial, mas beijar o umbigo ainda é melhor!
E quanto ao amor ou sexo (como lhes quiserem chamar)? Devia fazer-se em primeiro lugar em qualquer lugar. Desde a clássica mesa alemã até ao trampolim, passando pela mesa alentejana e pelo banco do jardim, na Buraca, em Almoçageme, Alcoentre, no Coito, no Colo do Pito, na Picha, na Venda da Gaita, no Chiqueiro, na Cama Porca, na Campa do Preto ou na Catraia do Buraco. Desde o amor carnal até ao amor platónico, passando pelo amor virtual ou residual, de olhos fechados ou às apalpadelas e apalpadeles, da Terra à Lua ou a ver estrelas.
Vá lá, deixem-se de vergonhas porque vergonhas não pagam dívidas!

Viva a pouca vergonha!

A vergonha é uma vergonha!

Sugiro, encarecidamente que, a partir desta data, façamos um abaixo assinado pela institucionalização da pouca vergonha de norte a sul do país! Lutemos, pois, a pés juntos (se não houver pés, podem ser mãozinhas de vaca com grão de bico) pela legalização de gestos tão naturais e tão nobres como apalpar o rabo aos senhores na Rua das flores ou às senhoras na Rua das Damas, a partir das horas de ponta com a ponta toda!

Unidos venceremos! Unidos venceremos!

Viva a pouca vergonha!

A vergonha morreu de velha (sim, eu sei que a frase está incorrecta, mas que se lixe)!

Pouca vergonha!...

O HOMEM COM AR SUSPEITO

homem com ar suspeito.jpg

Talvez, a aparência do homem que acabara de entrar no casamento sem ser convidado, o tivesse denunciado: o sorriso rasgado de orelha a orelha, a ausência de uma pala negra sobre o olho direito ou do olhar furtivo e desconfiado, imagens de marca de qualquer homem com ar suspeito que se preze de patentear tais particularidades.

Para ajudar a todos estes factores de suspeição, o facto de não se notar a presença de um volume estranho que, normalmente, se deixa adivinhar sob qualquer gabardina, preferencialmente coçada, de um homem com ar suspeito. Sinais por demais evidentes, cuja inexistência comprometia, seriamente, a sua presença no evento.

Sub-repticiamente, dirigiu-se à primeira pessoa que lhe pareceu mais receptiva a perguntas:
«Boa tarde, amigo, desculpe lá, o senhor é que é a noiva?»
«Não, senhor, eu sou o mestre de cerimónias. Porque é que pergunta?»
O homem com ar suspeito puxou a gola da camisola para fora, esgargalou o pescoço e, um pouco menos tenso, respondeu:
«Ainda bem que o encontro, era mesmo consigo que eu queria falar...não queria incomodar...ainda por cima já é tarde!»
Tentando disfarçar alguma perturbação e até temor perante a presença do homem com ar suspeito, o mestre de cerimónias engoliu apressadamente três tigelinhas de Cristal Atlantis - passe a publicidade - , não reparando que duas delas já não continham arroz doce. Sem lhe dar tempo para se desengasgar, o homem com ar suspeito voltou à carga:
«Já agora, talvez me possa informar se o casamento está a decorrer conforme as suas expectativas...»
«Olhe..., se quer que lhe diga..., não sei!» - respondeu-lhe o mestre de cerimónias, quase a sufocar - «Tenho est...estado a assistir à fin...final da Taça.»
Aproximando-se mais do mestre de cerimónias, agora com um ar inquisidor, perguntou:
«Benfica?»
«Com efeito...»
«Porra, já podia ter dito, homem! Venham daí esses ossos!»
Pouco confortável, o mestre de cerimónias olhou em redor e, como já não havia frango, viu-se na obrigação de pedir desculpas; que agora era só refugo, nem sequer um ossinho para chupar; que se tivesse fome ainda se podia arranjar uma sandes de mortadela e escorripichar uma garrafita de Casal Garcia - passe a publicidade...
«Deixe estar, não se incomode, antes de vir para cá, comi qualquer coisa!» - respondeu o homem com ar suspeito, enquanto, dissimuladamente, deixava a mão deslizar para dentro de um bolso da gabardina.
«Mas, talvez me pudesse dar uma ajudinha.»
«No que estiver ao meu alcance, amigo!»
«Olhe - disse segredando ao ouvido do mestre de cerimónias, para não dar muito nas vistas - , tenho aqui umas acções da SLN, fresquinhas, fresquinhas! Faço-lhe um preço de amigo!»
«Ó meu amigo, sei muito bem o que essa porcaria vale agora!»
«Oiça, oiça, espere lá, não se vá embora!» - murmurou o homem com ar suspeito, puxando o outro pelo braço esquerdo, pois era canhoto - Só porque é benfiquista, além das acções que são quase de borla, ainda leva um conjunto de duas toalhas de mesa, três pares de cuecas de senhora tamanho cinquenta e dois, cinco pares de peúgos de lã unisex, tamanho 47, dois panos de cozinha, um avental, dois jogos de cama - um de casal ventoso e outro de solteirão convicto - e, ainda, um chapéu de sol e uma ventoinha a pilhas. Hã, agrada-lhe?» - começou a esvaziar os bolsos da gabardina. - «Pela alminha da minha mulher que Deus tem e era uma santa, eu seja ceguinho! Leve que é material feito em Portugal, nada de chinesices; ainda têm selo e tudo, veja lá! Garanto que vai bem servido. E olhe que nestas coisas nunca me engano e raramente tenho dúvidas!»
«Bem, se você diz que traz selo, é um peso que me tira das costas!» - recuou o mestre de cerimónias, mal refeito do peso que o outro lhe acabara de tirar, a suar as estopinhas e com os olhitos gulosos postos nos panos e na ventoinha. - «Pronto, está bem, fico com isso tudo. Ponha ali em cima do bolo da noiva, se faz favor!»
«A propósito de noiva...» - perguntou o homem com ar suspeito, sacando uma amostra de água de colónia de dentro da gabardina e empestando o ar com o borrifo que espalhou sobre si. - ela é virgem?»
«Olhe, penso que não. Ela é caranguejo, se não estou em erro.»
«Bom, então, posso alimentar algumas esperanças, não?»
«Naturalmente! Sabe como é hoje em dia; casa-se e descasa-se. No entanto, devo informá-lo de que a noiva já está de esperanças, vai para seis meses. Só para não ir desprevenido.»
«Pois, o problema é a falta de água que tem havido. Não chove, é uma chatice!» - retorquiu o homem com ar suspeito.
«Sim, mas não se preocupe. Da maneira que a vida está, mais tarde ou mais cedo, vem de lá chuva, pode apostar mais uns pijamas, uns tapetes, uns edredões, umas mantas e uns cortinados. Vá por mim que sou barbeiro nas horas vagas...»

SEXO NO SÉCULO XXII

sexo no século XXII.jpg

Chegaram ao condomínio, situado no subúrbio da cidade e estacionaram o veículo de propulsão electromagnética numa plataforma móvel que o transportou ao silo correspondente. Depois, entraram no ascensor,  desceram noventa pisos e digitaram o código de entrada do apartamento. Em seguida, dirigiram-se ao andróide mordomo, comutaram-no para a posição off, arrumaram-no na despensa e (uf!), em uníssono, chamaram:

«Querida, onde estás?...Uhu!... Estamos cheios de fome, amor! Estrelas-nos dois ovinhos instantâneos de avestruz?»

Dos lados da casa de banho, ela respondeu:

«Estrelem vocês, meus queridos, agora não posso, estou a acabar a depilação!... Ai! Têm que mandar arranjar esta pistola de raios lazer que está uma autêntica porcaria; fico cheia de pêlos púbicos na mesma, q'horror!»

Seleccionaram o programa, apropriado para o efeito, na máquina de estrelar ovos instantâneos de avestruz e contaram as novidades do dia:

«Queres saber uma que nos contaram hoje no serviço? Então, não é que o Tó Zé foi apanhar a mulher na cama com o andróide jardineiro, pá, já viste?! E sabes que mais? A coisa deu divórcio litigioso, o gajo aproveitou o pretexto e amancebou-se com o andróide, 'tás a ver? Há cada uma que a gente até fica com as caras à banda, francamente!

Estranhando o silêncio da mulher perante a novidade tão surpreendente que acabaram de lhe anunciar, dirigiram-se à casa de banho, pé ante pé, e descobriram-na na posição de quatro com o andróide-chefe e, simultaneamente, a fazer um felatio ao andróide da limpeza doméstica.

Perante o cenário de libertinagem pura e dura com que se depararam, não estiveram com rodriguinhos: mandaram um par de estalos à mulher por andar a estragar os robôs com mimos e deram-lhes uma descasca do caraças por estarem a fazer aquelas coisas dentro do horário normal de expediente. E ainda os ameaçaram com desligamento colectivo, sem justa causa, por via das tosses.

Passado o infeliz episódio, resolvido a contento de todas as partes envolvidas e após o jantar, entretiveram-se a fazer zaping em canais de memórias televisivas do século XXI. Entre os programas Sinais do Além no CMTV, O Preço Certo na RTP1, o Love on Top na TVI24 e A Vida nas Cartas - O Dilema na SIC, o tempo ia passando enquanto esperavam que o andróide lava-loiça acabasse de arrumar a cozinha.

Depois das tarefas domésticas cumpridas desligaram a máquina e foram-se deitar; o dia tinha sido bestialmente cansativo.

«Querem ter relações sexuais?» - perguntou ela, solícita.
«Estamos com dores de cabeças...» - esquivaram-se.
«Deixem lá, delegamos nas nossas unidades sexuais autónomas» - disse ela.
Trataram de colocar umas caixinhas cheias de luzinhas coloridas, a piscar e a silvar intermitentemente, cada uma em cima da respectiva mesa de cabeceira e caíram instantaneamente num sono profundo, quase de morte. Os módulos deram, então, início a um ciclo de coito tântrico automático (ou não fossem autómatos) que se iria prolongar noite adentro.

 

Módulo y - Pronto para inicializar acto, coordenadas XPD (xray, paso-doble) - 33° 69' 96'', diga se já posso metê-lo, over.
Módulo x - Over me, é claro; para já, apénis tenho contacto visual. Pode dar início à aproximação copular. "Just a minute" (pronuncia-se jast a minete), necessita lubrificar um pouco. Memorizar expressões e interjeições designativas programadas para hoje: «isso, aí, aí tá bom, quero-te todinho só pra mim, tens um corpinho de sonho, mete-o todo, ai, ui"...brup, slurp, truca-truca, chloc, over.
Módulo y - Cuidado, não perca controlo, nem declame poesia erótica do Bocage, ou do António Botto sob risco de sobreaquecimento das células de iões de hidrogénio! Comutar para a posição de gozo total ATL (argenta, tango-louco) - 433... Ah, confirme se tomou pílula, over.
Módulo x - Afirmativo, pílula processada. Vou comutar libido para pilota automática para poupar as pilhas (pilas em madeirense). Diga se tomou comprimido azul, over.
Módulo y - Ok, acabei de processar sete. Já sinto algo. Todavia, mantenho-me em standby a aguardar efeito mais acentuado, over.

Bastante mais tarde:

Módulo y (a escaldar e a deitar fumo) - Gozei que nem uma máquina, noite inesquecível, estou exaurido, tenho que desligar, over and over.

Na manhã seguinte:
«Dormimos que nem uns anjinhos!» - exclamaram, na casa de banho, sentados numa cadeira de barbeiro, enquanto um andróide fazia uns escanhoados perfeitos nos seus dois rostos.
«Ontem não vos contei o que se passou na mercearia do senhor Narciso? Vejam lá que a nossa vizinha do 222º esquerdo pegou-se com uma venusiana do 335º direito! Tudo por causa da outra deixar sempre a roupa a pingar no estendal e molhar-lhe a roupa toda! O bom e o bonito, foi quando a venusiana acusou a nossa vizinha de ter feito sete abortos espontâneos de uma relação extra-conjugal com um terminal de computador obsoleto e ter ido para a cama com um sujeito verde com antenas cromadas, vejam só! A nossa vizinha não se ficou e chamou-lhe venusiana* que é coisa que detestam que lhes chamem. Manias! Zangam-se as comadres e descobrem-se logo as verdades, é uma vergonha!... Ai, estas malditas hemorróidas dão cabo de mim!» - desabafou ela, a fazer um semicúpio com água das malvas no bidé.
Eles, com os ares mais paternalistas da galáxia, imersos na banheira, enquanto deixavam o robô lavar-lhes os descomunais órgãos pudibundos, perguntaram:
«Foi bom, o sexo, ontem?»
Ela anuiu com indiferença. Eles desconfiam, há algum tempo, que ela tem um caso traumático com um andróide ucraniano, mas certezas, certezas, só aquele habitante do Cavaquistão, com a cabeça entre as orelhas, é que tinha.

Não tardaram a separar-se. Eles, com a dificuldade habitual devida ao peso excessivo das partes pudendas, lá seguiram a caminho de mais um dia de trabalho e ela para uma cinemateca próxima de casa, onde desempenha trabalho de recuperação e catalogação de filmes indianos "hard-core" do século XX. Uma actividade cultural assim, a modos muito "kitsch".
É um trabalho visual árduo e, naturalmente, cansativo, não obstante aqueles olhos grandes e doces que Saturno, um dia, lhe há-de comer.

* - As venusianas são seres hermafroditas com três pernas, quatro mamas, duas vaginas e um pénis atrás das costas.

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