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A TORTO E A DIREITO

UM BLOGUE SEM PÉS NEM CABEÇA, A TRECHOS LÚCIDO, CONTUDO, TRANSLÚCIDO...MODÉSTIA À PARTE

A TORTO E A DIREITO

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O SACA-ROLHAS

saca rolhas.jpg

A vítima estava de barriga para cima e tinha um buraco redondo no meio da testa; perfeito, sem mácula, sem pinta de sangue; um distinto buraco de bala. Contudo, como não podia deixar de o fazer na circunstância, o inspector dos homicídios, homem muito batido nestas andanças, procedeu à avaliação do diâmetro do orifício onde a bala penetrara e deduziu sem pestanejar: «Calibre de 9 mm.»

Um minuto depois, surgiu outro agente e informou: «Já foi encontrada a arma do crime. É um furador; estava no bolso esquerdo das calças do cadáver. O inspector dos homicídios mirou e remirou o utensílio e fez um exercício de raciocínio lento: «Estou mais inclinado para lhe chamar um saca-rolhas, hã, q'é que acham?»

Como não houve quem contrariasse a sua suposição, baseada certamente em largos anos de experiência, intuição e um faro fora do comum, ou não fosse ele o inspector dos homicídios - não esqueçamos - , prosseguiu: «Bom, então tomem nota: o homicida é um gajo destro e quis tomar-nos por parvos ao guardar o saca-rolhas no bolso esquerdo das calças do cadáver. Para além disso tentou, debalde, confundir-nos com o velho truque do furador de balde. Ademais o crime foi perpetrado à queima-rolha, senão não tinha aberto um buraco tão perfeito!»

Chamou os restantes polícias e ordenou: «Ninguém sai daqui! Mandem reunir os suspeitos do costume!»

Depois de reunidos os suspeitos do costume, notou-se a falta de um: «Então porque é que falta aqui um suspeito do costume?» - Perguntou o inspector dos homicídios. O principal suspeito respondeu de pronto: «Não veio porque o Benfica joga, hoje, com o Sporting e eu dispensei-o para ir ver o jogo, senhor inspector; ele sofre muito da bola!»

«Bem, dispensa-se esse e vamos prosseguir!» - Disse o inspector dos homicídios.

Alinhados por alturas, o principal suspeito apontou as duas suspeitas que o precediam: uma criada de quarto e a sua esposa (a esposa da criada de quarto, entenda-se!) e declarou com alguma ironia: «Como vê, senhor inspector, estou acima das suspeitas; aliás, de qualquer suspeita!»

Discretamente, o inspector dos homicídios puxou de um bloco de notas e começou o interrogatório: «Alguém cometeu, aqui, um crime de homicídio muito grave na ex-pessoa deste cadáver que jaz no chão sem pinta de sangue! Espero não ser obrigado a arrancar-vos a confissão a saca-rolhas! Nem mesmo o senhor, como principal suspeito, está isento. Daí estar aqui presente como principal suspeito!»

Imediatamente, as duas suspeitas que precediam o principal suspeito reclamaram, com veemência, a sua inocência alegando que eram canhotas.

Um dos agentes sugeriu: «Não podemos afastar a hipótese do homicida ser o tipo que foi dispensado para ir ver a bola, senhor inspector!»

«Então, a seguir ao encontro, ligas para o telemóvel do gajo para ele comparecer com urgência no interrogatório!» - respondeu o inspector dos homicídios.

Quando se preparavam para intervalar e assistir ao encontro pela televisão, por proposta do principal suspeito - um benfiquista dos sete costados - , eis que surgiu o médico forense, mais branco do que a bata branca que trazia vestida: «O morto está vivo! O morto está vivo, ele espirrou!»

O principal suspeito pôs imediatamente o braço no ar e disse: «Fui eu, senhor inspector, não tenho como negar!»

«Foi o senhor o quê, homem de Deus, desembuche?!» - Questionou o inspector dos homicídios.

«Fui eu que matei o cadáver que jaz no chão, acabado de ressuscitar, senhor inspector!» - Respondeu o principal suspeito.

«Vamos lá esclarecer a cena do crime. Faça favor de relatar tudo direitinho e sem pontuação!» - Ordenou o inspector dos homicídios.

«Foi sem querer senhor inspector havia muito fumo na sala e o exaustor tem estado avariado daí que tínhamos de andar às apalpadelas inclusive até levei um sopapo da senhora da limpeza que a seguir insistiu que a apalpasse novamente mas o que eu queria mesmo era a rolha por isso andava à procura dela e confundi a cabeça do cadáver com a rolha foi assim que desse modo o matei depois de morto inadvertidamente e enfim foi a tragédia que se consumou aqui senhor inspector» - Declarou o principal suspeito, ofegante.

«Então vou acusá-lo, primeiro, de assédio sexual na pessoa da empregada da limpeza, seguido de homicídio por negligência grosseira, pois devia ter tido o cuidado de se certificar que era, efectivamente, a rolha que estava a sacar, não obstante o fumo envolvente!» - Concluiu o inspector dos homicídios.

«Por enquanto só pode acusá-lo de assédio sexual, inspector. O cadáver está vivo! Acabei de o restituir à vida!» - Contrariou o médico forense, negro como um tição, agora com a cor que Deus lhe deu, passado o choque com o insólito acontecimento.

O inspector dos homicídios perguntou ao médico forense qual o método que tinha utilizado para o reanimar: «Tornei a rolhá-lo.» - Explicou o médico forense.

«Então temos aqui, para além do acto repreensível de assédio sexual,  um caso de duplo homicídio: negligência grosseira e um homicídio frustrado!» - Sentenciou o inspector dos homicídios.

Restituído à vida, o cadáver com semblante preocupado, aproximou-se e disse: «Doutor, o senhor esqueceu-se de me lacrar; assim a rolha vai saltar de certezinha!»

«Xi, grande bronca! Nem me lembrei que você é alérgico ao pólen, pá!» - Desculpou-se o médico forense.

No entretanto, o inspector dos homicídios lembrou-se de algo que, a julgar pela sua expressão facial, devia ser extremamente importante. Perguntou ao criminoso que deixara de ser o principal suspeito: «O senhor tem licença de porte de saca-rolhas?»

«Não tenho, não, senhor inspector!» - Respondeu o homicida que tinha deixado de ser o principal suspeito, pálido de morte. «Cacei-o! Afinal você só estava autorizado a sacar caricas! Faça favor de abrir uma garrafa de espumante antes de o algemar, vamos lá! O tempo urge, ainda não jantei, caraças!» - Ordenou-lhe o inspector dos homicídios, impaciente e com as paredes do estômago coladas. Numa fracção de segundo, o facínora que tinha deixado de ser o principal suspeito, deu um salto para trás das costas e apoderou-se da arma do crime: «Alto lá, aqui ninguém se mexe ou faço-lhe um furo na testa!»

De saca-rolhas em riste fugiu dali e, quando corria para a saída que nem um criminoso que deixara de ser o principal suspeito, ouviu-se um espirro violento seguido de um estampido abafado, tipo um tiro através de uma almofada (ou travesseiro). A rolha ainda fez ricochete numa pedra da calçada, mas já era tarde, pois o inspector dos homicídios queria aquilo resolvido a tempo de não ter que aquecer o jantar no micro-ondas e, como já estava cansado desta estória sem pés nem cabeça, rematou o final às três pancadas:

Atingido na barriga de uma perna, tanto se dá que tivesse sido na direita ou esquerda, o autor do crime que deixara de ser o principal suspeito, ainda teve tempo para gritar: «mãezinha!»

«Foi a rolha que o matou!» - Confirmou o médico forense.

«Está morto?» - Perguntou o inspector dos homicídios.

«Morto e bem morto!» - Reconfirmou o médico forense.

«Bom, então, levante-se imediatamente um auto ao cadáver ressuscitado, por crime de homicídio involuntário, e prenda-se imediatamente, com efeito retroactivo e sem direito a recurso!» - Ordenou o inspector dos homicídios.

Ó TIO, Ó TIO!

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- Ó tio, ó tio!
- Diga lá, menino!
- É verdade que o governo tinha anunciado, em 2014, que ia criar um novo visto para atrair talentos estrangeiros, com o intuito de obviar a saída dramática de jovens qualificados, mas "piegas", da sua "zona de conforto"?
- Claro que sim, menino! Aliás, esse foi, e continua a ser, o objectivo capital do governo, pois assenta na ideia simples de que é necessário ocupar os espaços deixados vagos, criando condições atractivas para os talentos estrangeiros, nomeadamente estudantes, que queiram vir ocupá-los, dadas as vantagens do visto que só visto, contado ninguém acredita!
- Ó tio, ó tio!
- Diga, menino!
- Mas o tio não acha que há aqui uma contradição? Porque razão continuam a sair jovens qualificados do país e, simultaneamente, oferecem-se vistos aos talentos de fora com a promessa de se lhes garantirem as condições que se podiam dar aos nossos?
- Ó menino, não vê que temos que dar continuidade à modernização da política migratória nacional? Aliás isso faz parte da nova orgânica do Alto-Comissariado para as Migrações! É o intercâmbio migratório, a livre circulação dentro do espaço Schengen, menino!
- Ó tio, ó...
- Nem tio, nem meio tio! Olhe, vamos, mas é, às urgências curar esse coma alcoólico! Pode ser que tenhamos sorte e ainda seja atendido hoje...

MANIFESTO CONTRA A EVITERNA CRISE

manifesto contra a eviterna crise.jpg

Caros amigos, soou a hora de esbanjar!

A crise é um sofisma colossal, acreditem, há muita massa para gastar! 

Diz-se que é das crises que se devem tirar grandes lições e ilações da História e bate-se exaustivamente na tecla gasta de que se devem evitar os erros do passado, et cetera. Uma tanga! Depois há aqueles idealistas românticos a debaterem e a subscreverem ideias estravagantes como, por exemplo, o "redesenho" da arquitectura financeira internacional e outras baboseiras. Mas o que é isso? Estão todos doidos ou quê?! A Banca é que manda nisto, seus morcões! Enganem lá os pobrezinhos! Esses, sim, sempre viveram em crise! Deixá-los, nasceram miseráveis, vão continuar miseráveis e sê-lo-ão até morrerem, coitados! Temos muita pena, mas a equidade social não chega para todos!

Agora, nós não que diabo! Há dinheiro a rodos, ouro aos montes e riqueza "até vir a mulher da fava rica"!  Urge derreter tudo aqui antes que nos roubem! Ou então investir nas Ilhas Falkland, Malvinas, Antígua e Barbuda, Barbado, Seychelles, Trinidad e tantos outros lugares onde as nossas poupanças triplicam em menos de um farelo...
Juntemo-nos, pois, porque a união faz a força e assim poderemos vencer os pindéricos que invejam o que ganhámos com o suor do rosto alheio.

Unidos, venceremos, unidos venceremos!

Abaixo o porco do mealheiro, o colchão, o pé de meia, o porta moedas, a conta a prazo, o aforro, o pequeno crédito e todos os instrumentos próprios dos pobretanas endividados, essas aves raras que nunca passaram da cepa torta!
Apelo para que algumas palavras existentes no nosso léxico deixem de ser pronunciadas por gente da nossa linhagem, pois não têm sentido prático. Palavras como subsídio, tença, abono, estipêndio, pensão, pré, mesada, alcavala, entre outras de que não me lembro, são palavras infelizes e redutoras porque todas estabelecem um limite para o que se gasta e, como tal, são um absurdo! E, meus caros amigos, o dinheiro é como o amor e as azeitonas: nunca é suficiente. Muito embora não devamos exagerar nas azeitonas porque são muito reimosas e, por conseguinte, um veneno para quem sofre de hemorroidal.
Em conclusão, o que queremos, afinal de contas, é continuar a poder gastar à vontade, sem limites, sem as travancas próprias dos tesos, dos lisos, dos falidos, dos secos, dos sem cheta; abaixo essa gente reles! Não tem onde cair morta, gentinha desgraçada!
Vivam a fartura à fartazana - passe a redundância, mas fica bem aqui - , a opulência, a ostentação, o favorecimento, a evasão fiscal, o suborno, a fraude, a luxúria, o esbanjamento, os paraísos fiscais e tudo aquilo que tenha a doce fragrância da ilicitude!
Vivam os perdulários, os gastadores e todos os que derretem dinheiro a rodos sem remorsos e com alarde!
Viva a (in)saciedade de consumo! Esbanjar é vital até à falência final (dos outros porque a gente safa-se sempre)!
Viva eu que sou um teso do caralho (belo trocadilho!) e estou para aqui a escrever disparates! Tens é dor de cotovelo, é o que é! Diz lá se não gostavas de ser rico, à custa dos parvos, hum? A inveja é muito feia, sabes?

QUARENTA ANOS

o regresso.jpg

Fazia quarenta anos que Pedro partira para a França em busca de melhores condições de vida desde que deixara de ser "piegas" e abandonara a sua "zona de conforto".

Quarenta extensos e penosos anos, ao longo dos quais Zulmira tinha aguardado, ansiosamente, o regresso do seu marido amado.

Nos seus sonhos e fantasias de mulher solitária conseguia, ainda, evocar aquela saudosa imagem, embora menos definina, mas, mesmo assim, capaz de alimentar a sua volúpia.

O homem alto, moreno e de bigode farto que lhe dera o derradeiro beijo de despedida na estação de Santa Apolónia, jamais lhe saíra da memória.

Finalmente chegara o dia tão ardentemente esperado: o dia do regresso do seu querido esposo.

Havia recebido uma carta de Pedro manifestando-lhe a intenção de regressar a casa, cansado de errar por terras gaulesas. Afinal errare humanum est como diria o outro se fosse vivo.

Zulmira esperava-o na estação de Santa Apolónia, inquieta, naturalmente. Quarenta anos são uma eternidade e não sabia se iria reconhecer Pedro, passado tanto tempo. Entretanto começavam a desembarcar os primeiros passageiros, provenientes de Paris, carregados de bagagens. Zulmira procurava descobrir, impaciente, um rosto familiar entre os grupos de pessoas que saíam do comboio.

Subitamente conseguiu vislumbrar um homem alto, moreno e de farto bigode. «Meu Deus, será que é ele?» - Pensou, o coração em ritmo acelerado. Era tal e qual o seu Pedro de há quarenta anos com os mesmos tiques, a mesma expressão, o mesmo bigode. Foi como se o tempo tivesse estacado na despedida e, volvidos tantos anos, recomeçasse no exacto ponto onde fora interrompido. 

Absorta no feliz reencontro, nem quis saber do insólito acontecimento, só podia ser um milagre o que lhe estava a acontecer, e esqueceu momentaneamente as dores reumáticas de que padecia. Imediatamente, movida por um desejo reprimido durante décadas, correu apaixonadamente para os braços do filho de Pedro.

 

JANTARES DE FAMÍLIA

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Lembro-me, com profunda saudade, como se fossem hoje. Assim, passo a descrevê-los, não sem alguma pontinha de melancolia. Faz parte da minha natureza q'é que querem?

Vinham todos, inclusive o avô e a avó, muito embora ambos estivessem naquela fase da vida em que alguém tinha de estar sempre atento ao que faziam porque num momento estavam lúcidos e no seguinte desatavam a dizer ou a fazer disparates. É claro que ríamos como riem os netos com os despropósitos dos avós; achávamos piada porque nos revíamos neles.

As datas dos jantares não variavam, eram sempre na véspera do Natal ou quando o avô ou a avó faziam anos.

Lembro-me tão bem da azáfama que antecedia um jantar de família. Era a mãezinha a correr de um lado para o outro, feita barata tonta, a avó arrastando o esqueleto pelos cantos da casa, perdendo uma vértebra aqui, um fémur acolá, o avô que deixava cair a prótese dentária e nós a escondê-la «eu já disse ao meu pai que tem que ir a um protésico para encher a placa!» - dizia a mãezinha muito ralada; e o paizinho que resmungava sempre entre dentes que aqueles jantares tinham que acabar; e que a mãezinha já não tinha saúde para os organizar; e que era sempre a mesma a chegar-se à frente; e que a família da mãezinha era uma cambada de penduras, et cetera. A mãezinha ripostava sempre: «deixa lá filho, é a única maneira de nos reunirmos!» e outros lugares comuns.

Continuo a lembrar-me como se fosse hoje: Assim que acordávamos, vestíamo-nos à pressa e corríamos até à cozinha para surripiar alguma guloseima já feita, ou rapar os tachos onde a mãezinha batia as massas dos bolos.

Era sempre um cheirinho a doces que nos enchia de encanto e água na boca. Às vezes não conseguíamos evitar a bengala da avó nas mãos por via das nossas incursões. Apesar de andar presa por arames, ainda conseguia ser destra no seu manejo, embora correndo o risco de se estatelar no chão por falta de apoio momentâneo.
A poucas horas de se juntarem todos à mesa, enquanto a mãezinha apurava um pouco mais o cabrito assado e o bacalhau à lagareiro, evitando, ainda, que a avó polvilhasse o arroz doce com pimenta em pó por distracção, a gente passava o tempo a recordar as figuras mais típicas da família e havia uma que, sendo atípica, era motivo de muitas discussões acaloradas e alguns alvitramentos, nomeadamente do paizinho: o tio de Peniche. Acabávamos por lhe fazer uma pergunta já recorrente: quando é que íamos conhecer, finalmente, o tio de Peniche. O paizinho fazia, invariavelmente, a cara do costume, feia como todas as caras feias! Aliás, nem quando estava alegre conseguia pôr uma cara bonita, faça-se-lhe justiça! Mas, voltando ao tio de Peniche, era uma coisa por demais! Desatava a debitar impropérios, tipo o tio de Peniche era um amigo de Peniche, um safardana, um maltrapilho, um gajo que não tinha onde cair morto e que se entrasse na sua casa pela porta principal, ele - o paizinho - saía pela porta do fundo e alguns vitupérios que me abstenho de reproduzir por pudor, embora os recorde muito bem como se fossem ditos hoje. Não percebíamos, na nossa cândida inocência - perdoe-se-me a redundância - , o ou os motivos de tanto rancor pelo tio de Peniche. Pensávamos, até, que o tio estava muito doente, daí o facto de nunca poder vir aos jantares da mãezinha. Tampouco percebíamos porque é que o paizinho se zangava tanto, assim que era pronunciado o nome do tio de Peniche.

Em boa verdade, o paizinho andava sempre zangado e isso era coisa que também não entendíamos porque assim que começava a beber melhorava a olhos vistos. A avó é que estava sempre a dizer à mãezinha que «do mal o menos, filha, valham-te os bons vinhos desse desgraçado!». Não percebíamos o que a avó queria dizer com aquilo, pois o vinho que o paizinho bebia era um "tinto rascante" - segundo as suas palavras -  vendido a granel na taberna do senhor Antunes.
Quem salvava sempre a honra do convento era a mãezinha com as suas infinitas paciência e bondade, sempre a deitar água na fervura, ao mesmo tempo que limpava as mãos ao avental; não sem antes provar para ver se estava bom de sal. «Pode ser que ele nos faça uma surpresa este ano» - dizia a mãezinha em tom reconciliador, perante o olhar reprovador do paizinho. Afinal vale sempre a pena ter a família reunida em momentos muito especiais. Penso que seria esse o sentimento da mãezinha, do qual se orgulhava muito, apesar feitio chato do paizinho.

Recordo tão bem como se fosse hoje. A família ia chegando, um a um, aos pares, aos trios e por aí adiante, e distribuíam-se beijinhos e abraços com algum cheiro a sovaco misturado com água de colónia reles. Distribuíam-se também prendinhas: os habituais rebuçados "paladares" que a tia da Cova da Piedade comprava no barco, umas moeditas de cinco, ou dez tostões para os nossos mealheiros e uma garrafa de vinho Camilo Alves ou bagaço para o paizinho. A mãezinha, que tinha sempre todo o trabalho e todo o prazer de ter a família reunida, nunca recebia fosse o que fosse. Nem um quilinho de farinha Branca de Neve (passe a publicidade)!

Recordo, ainda, como se fosse hoje, que o paizinho ficava logo zonzo e muito alegre ao segundo copo. Chegava a dar palmadinhas carinhosas nas costas da avó - gesto admirável - , sabendo nós como ambos nutriam um ódio de estimação mútuo. Um dia, isto há um bom par de anos, excedeu-se com mimos e deu-lhe uma palmada mais forte. Nesse dia tivemos de a levar às urgências do São José para lhe recolocarem uma omoplata no sítio.
Os jantares de família eram bem catitas! Recordo-os tão bem, como se fossem hoje. Pena que nunca mais se fizeram desde aquele infeliz incidente provocado pelo avô. Não sabemos o que estaria a pensar quando pegou fogo à casa. Certo é que nos deu algum gozo observar a casa a arder e os esforços em vão da avó a tentar salvar o esqueleto. O que nós rimos com aquela cena!
Conquanto os jantares não tivessem acabado após esta tragédia, agora já não há família e jantares sem família deixaram de ser jantares.
Decorrido tanto tempo, continuo sem saber se o avô deixara de tomar os comprimidos para a demência ou se se tinha zangado seriamente com a avó...

MAOMÉ E GABRIEL

maomé e gabriel.jpg

Sabe-se que os textos alcorânicos da pregação original têm colocado a tónica no fim do mundo terrestre, várias vezes adiado ao longo da história da Humanidade (só Deus sabe), na condenação eterna dos pecadores, mormente dos ricos, e na felicidade perene dos justos, sobretudo dos pobres.

As recompensas divinas são a "subida ao Céu" sem passar pelo "Purgatório" - este último que é assim a modos, uma espécie de limbo -  e o direito à "felicidade eterna" na companhia de "setenta e duas virgens" sem burca. Sublinhe-se que com burca não dava muito jeito. Estas são, segundo as obras sagradas, as compensações celestes para os cristãos e muçulmanos, respectivamente. Ora, como é consabido, isto pouco difere dos textos da "Sagrada Escritura". A talhe de foice, confesso que trocaria de bom grado a "felicidade eterna" dos cristãos, pela dos muçulmanos; excluindo a obrigação chata de ser mártir, evidentemente. Prossigamos, então, com o breve relato da fantástica aparição do anjo do Senhor a Maomé:

 

Estava Maomé, nos subúrbios de Meca, a reflectir acerca das diferenças - subtis - entre o Velho Testamento e o Corão e, enquanto reflectia sobre estes dogmas, ia bebendo uns goles de aguardente de medronho, como era seu hábito.

Tão absorto estava nos seus pensamentos que quase não se apercebeu da chegada de um objecto voador de asa rotativa - o vulgar helicóptero dos nossos dias - vindo dos confins do firmamento, acompanhado de enorme rugido e vento, cujo piloto - um anjo - , depois de o ter imobilizado a seis passos dali, postou-se altivamente na sua frente, dizendo-lhe:
«Olha lá, pá, sabes quem sou, hã?… Eu sou o anjo Gabriel!»
«Tá bem, filho, e eu sou o Professor Marcelo!» - murmurou, entre dentes o profeta, cheio de tédio pela presença daquele cabotino estupidamente alto e loiro.
O anjo puxou do seu "smartphone", digitou qualquer coisa e ordenou-lhe:
«Lê, caralho!»
«Foda-se, mas eu não sei ler!» - protestou Maomé que era efectivamente analfabeto e vivia raladíssimo com isso.
«Lê agora, porra, já me estou a passar!» - ordenou-lhe novamente o anjo, impaciente.
Desconfiado, como qualquer muçulmano que se preze de tal condição, Maomé olhou para o dispositivo e conseguiu ler:
"Ó tu que vives alheado, levanta-te e admoesta! Exalta o teu Senhor, purifica as tuas vestes, afasta-te das tentações do diabo, abomina a fornicação, et cetera…"
«Estás a ver como foi bom induzir-te um curso de alfabetização XXF (Extra Extra Fast ou, em português, às três pancadas) do nosso Centro Celeste das Novas Oportunidades, Meca and Medina Incorporated?» - disse o anjo, enquanto punha o zingarelho a trabalhar. «Hoje em dia, a fé sem Marketing, já não cola, mano!» - acrescentou, já no ar…

«Milagre, milagre, já sei ler! - berrava Maomé, finalmente convencido pelo anjo e convicto da eficácia das Novas Oportunidades. Na verdade, nunca tinha completado a primeira classe da instrução primária e, ademais, passava todo o tempo na reinação com uma sobrinha do Moisés, só regressando a casa no dia seguinte com o sol já alto.
«Vai mas é jantar que estas merdas abrem o apetite!» - gritou-lhe Gabriel que já se esfumava nas nuvens. «E da próxima vez que te visitar, podes tratar-me por Gabi!» - disse ainda.


Maomé correu para casa, eufórico...
Já refeito daquele magnífico encontro com Gabriel, conseguiu finalmente contar o sucedido à sua esposa. Ela sabendo da sua grave dependência do álcool, deu-lhe um par de bofetões, bem dados, na fuça e obrigou-o a um Ramadão de doze meses por causa do hálito intenso a aguardente.

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