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A TORTO E A DIREITO

UM BLOGUE SEM PÉS NEM CABEÇA, A TRECHOS LÚCIDO, CONTUDO, TRANSLÚCIDO...MODÉSTIA À PARTE

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INFLAÇÃO GALOPANTE

a bica.jpg

O sujeito entrou numa pastelaria, pediu uma bica e botou 65 cêntimos em cima do balcão.

O empregado mirou-o de soslaio e disse:
- A bica é 1 euro, amigo!
- Mas, ainda ontem, aqui, mesmo, neste café, paguei 65 cêntimos por uma bica!
- Não desminto que a tivesse pago a esse preço, mas, de ontem para hoje, inflacionou!
- Isto está cada vez pior, é tudo a roubar, que raio de país!
Como o homem estava à rasca para tomar um café, lá puxou de mais 35 cêntimos, só para não estar a empatar a fila de clientes junto à caixa. O empregado olhou-o novamente e, com cara de poucos amigos, disse:
- Você deve estar a gozar comigo! Então não vê que 1 euro não chega para pagar a bica?
Meio baralhado e pensando que aquilo só podia ser para os apanhados, respondeu:
- Então, ainda agora me disse que a bica custava 1 euro!
- Pois é, mas com a inflação galopante, 1 euro já não dá para pagar uma coisa que custava até aqui 1 euro, q'é que quer?
- Então diga lá quanto é que custa a bica para não perdermos mais tempo, que diabo!
- 2 euros!
- 2 euros?!...Porra, isto está bonito, está! Pronto, aqui tem os 2 euros...
O empregado olhou-o novamente, meio chateado, e disse:
- Então, e o imposto?
- Oh que caraças, mas qual imposto?!
- O imposto de transacção que entrou em vigor às zero horas de hoje. Você não anda a par das notícias?
- Olhe, não sabia, palavra d'honra!
O empregado, com um ar de pessoa muito bem informada, continuou:
- Eu elucido-o. Aqui, no "Matutino", reza o seguinte: "O imposto de transacção sobre o consumo unitário médio, previsto para o ano decorrente e seguintes, sobe 100 por cento"..., 'tá a ver?
E acrescenta, antes que o sujeito tenha tempo para responder:
- Fora o preço do novo programa informático de facturação e outros encargos fiscais! Não podemos ser só nós, comerciantes, a suportar as despesas, caro senhor! Portanto, isso a somar aos 2 euros que pretendia pagar até agora pela sua biquinha, arredonda-lhe a coisa para os 2 euros e 50 cêntimos, mais coisa, menos coisa.
Como era de prever, o sujeito começou a mostrar sinais evidentes de grande perturbação:
- Mas, estão todos doidos? Querem que me dê uma coisa mazinha, ou quê?
- Bom - ripostou o empregado tentando acalmá-lo - , se pedir recibo com o número de contribuinte, ainda se habilita a um automóvel topo de gama que, como sabe, é sorteado semanalmente. Portanto veja a coisa pelo lado positivo; nem tudo está perdido, amigo!
Manifestamente desesperado, o sujeito já estava por tudo. Ele só queria tomar uma bica, fosse a que preço fosse. UMA BICA POR CARIDADE (a palavra caridade, aqui, é despropositada, mas é só para dar ênfase ao momento dramático)!
Tinha acabado de absorver o primeiro gole do conteúdo da chávena quando o seu rosto empalideceu subitamente e:
- Mas esta merda é tudo menos café!
- É claro que não é café e escusa de ser mal educado, caro senhor! - apressou-se o empregado, indignado, a explicar - Este é um lote especial de cevada e chicória, uma mistura, digamos assim. Se continuássemos a servir café puro, como até ontem o fizemos, com a inflação galopante, a sua bica subiria para os cinco euros, 'tá a ver?
Foi nesse preciso instante que se deu um acontecimento inesperado, uma reacção que ninguém esperava (passe a redundância). O sujeito, certamente possesso (só pode ter sido), atirou-se para cima do balcão, agarrou o empregado pelo pescoço, e obrigou-o a engolir 15 duchaises, 25 bolas de berlim, 3 quilos de bolos secos surtidos, um frasco de rebuçados de mentol e 5 caixas de bombons de chocolate belga, com lacinhos e tudo.
Ora, algum tempo depois deste infeliz desenlace de consequências muito graves, diria mesmo gravosas, tanto para o empregado como para o sujeito, escusado será explaná-las, e após julgamento, o acórdão do tribunal foi sumariamente proferido pelo juiz presidente:
- O réu é condenado a 15 anos de prisão maior agravada, por crime de negligência grosseira!
- Negligência grosseira, senhor doutor juiz?! - balbuciou o sujeito - Quando as consequências do meu acto insensato, certamente, não contesto, foram praticamente inofensivas, pois não passaram de umas diarreias insignificantes, uma colite ou outra, uma úlcera péptica, uma perfuração esofágica, o homem até foi trabalhar no dia seguinte, veja lá vossa excelência, e levo com 15 anos?!
- Tem alguma razão. Não lha dou toda, senão não o teria condenado a uma pena tão pesada! - respondeu-lhe o juiz - Se fosse ontem condenava-o a um ano de prisão com pena suspensa. Assim, olhe, culpe a inflação galopante!...

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