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A TORTO E A DIREITO

UM BLOGUE SEM PÉS NEM CABEÇA, A TRECHOS LÚCIDO, CONTUDO, TRANSLÚCIDO...MODÉSTIA À PARTE

A TORTO E A DIREITO

UM BLOGUE SEM PÉS NEM CABEÇA, A TRECHOS LÚCIDO, CONTUDO, TRANSLÚCIDO...MODÉSTIA À PARTE

MARIA, UMA MULHER MODERNA PARA O SEU TEMPO

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Prefácio:

Pode ter sido uma mulher moderna para aquele tempo. Se calhar, fora de tempo. Jamais se saberá ou, quiçá, a seu tempo. Contudo, já ninguém é vivo para testemunhar se teria valido a pena ter sido uma mulher daquele tempo. Perante estas conjecturas não é difícil imaginar que tivesse existido uma mulher moderna para o seu tempo.

Intermédio:

1 de Abril de 1911. As pessoas do meu tempo acham que sou uma mulher sem qualquer obrigação moral.
Coisas mundanas como fumar um cigarro, entrar no Martinho da Arcada, sentar-me na mesa do Nandinho sem ser convidada, descobrir as pernas, ao de leve, acima dos joelhos para os olhares desejosos dos homens, o que é que estes gestos têm de mais?
Que culpa tenho de ter um corpo escandalosamente bonito? A minha avó habituara-me a apreciar as coisas boas da vida, desde que a minha mãe fugira com o estupor de um caixeiro-viajante, sabe Deus para onde, e nunca soube quem foi o biltre que a emprenhou.
Mas o que mais incomoda esta gente serôdia, nomeadamente os homens, é o facto de ter escrito acerca de algo tão normal como o sexo.

A sexualidade não é uma característica exclusiva dos homens. E se eles têm a veleidade de conquistar todas as mulheres que se lhes atravessam no caminho, a elas cabe o direito de responder com o mesmo capricho.

Chocou às mentalidades broncas, é claro! Sobretudo àquelas que pensam que as mulheres são burras e, por conseguinte, têm que ser prendadas e obedientes. Porém, esquecem-se que, lá em casa, as suas mulheres também podem ter, secretamente, desejos lúbricos em relação a outros homens.
Consta que um tal Barbosa, um dos mais obstinados moralistas do meu tempo, fulano de porte mediano, aparentemente austero, grande frequentador de lupanares - segundo conta o mentideiro ocioso da burguesia alfacinha - , anda a fazer apostas com amigos, garantindo-lhes que não vai descansar enquanto não se deitar no meu vale de lençóis. O objectivo do marialva é provar à agremiação de cretinos, de que faz parte, que mulher que se deite com ele não vai desejar dormir com outros homens...


No final do dia deste esplendoroso mês a cheirar a cravos, precisamente dia 25 de Abril, entrei no Martinho para tomar a minha bica em chávena escaldada, como o faço habitualmente, e lá os encontrei mais o Barbosa. Cumprimentei-os e foram de um polimento extremo, direi mesmo excessivo. Contudo não se coibiram de me assestarem olhares gulosos no decote. Bem, confesso que é difícil a um homem de bom gosto desviar os olhos de um decote generoso. Desta feita aprimorei-me.
Sentei-me no lugarzinho cativo do Nandinho, filei o Barbosa e atirei-lhe de chofre: «O que faz você para estar cada vez mais borracho?». Vermelho e balbuciante, com gotículas de suor no beiço superior, embora estivesse um final de tarde fresco, continuei: «com uma carinha tão bonita, tão bem escanhoada e com uma atitude tão máscula, palpita-me que também deve ter argumentos capazes de satisfazer a mulher mais exigente...».

Pedi-lhe para desabotoar apenas dois botões da sua camisa de linho a fim de verificar se tinha cabelos no peito, pois - expliquei bem alto para que todos ouvissem - «é algo que aprecio particularmente». Certificado o facto de os ter, embora pouco densos, convidei-o para me acompanhar a casa, pois tinha algo interessante que gostava de compartilhar com ele. Embaraçado perante a risota geral e não querendo dar parte de fraco, decidiu-se a aceder ao meu pedido e lá fomos.

No primeiro lance de escadas atirei-me a ele que nem uma loba e beijei-o sofregamente na boca, pedindo-lhe que me desculpasse o impulso, mas era algo que eu desejava fazer há muito tempo, só que ainda não tinha surgido a oportunidade.
Conduzi-o, sem mais delongas, escadas acima até ao apartamento e, já no quarto, empurrei-o para cima da cama, abri-lhe a camisa, devorei-o com beijos loucos e, enfim, nu. Elogiei-lhe o corpo para o pôr à vontade, afaguei-o, sussurrei-lhe palavras que não ouso publicar aqui, pedi-lhe que se entregasse todo aos meus ímpetos até à saciedade. Jurei-lhe, por todos os santinhos, que nada passaria daquelas quatro paredes.


Epílogo:

Apesar de todos os meus esforços, o Barbosa foi uma decepção, não encontrei ponta por onde lhe pudesse pegar e senti-me, naturalmente, frustrada.

 

VIRTUDES PÚBLICAS, VÍCIOS PRIVADOS

bernard de mandeville.jpg

"Embora todas as partes estivessem cheias de vício/ Contudo o todo era um paraíso/ (...) O pior de toda a multidão/ Fazia algo pelo bem comum/ (...) A fraude, luxúria e orgulho têm de viver, / Enquanto, nós, os seus benefícios recebermos/ (...)Assim o vício é julgado benéfico/ Quando é limado e limitado pela justiça. "

Bernard de Mandeville, The fable of the bees or, private vices, publick benefits (1714).

 

A FÁBULA DAS ABELHAS

 

«Uma grande colmeia, repleta de abelhas,
Que viviam em luxuosidade completa,
Porém tão famosa por leis e acção
Quanto por copiosa população,
Constituía o grande manancial
Do saber científico e industrial.
Não havia abelhas com governo melhor,
Com mais contentamento, inconstância menor;
Não eram escravas da tirania,
Nem sofriam com democracia,
Mas tinham reis, que errar não podiam,
Pois seu poder as leis comediam.

Embora o enxame a fértil colmeia abarrotasse,
Essa multidão fazia com que ela prosperasse;
Milhões procuravam dar satisfação
Mútua a sua cupidez e ostentação;
Outros tantos entravam na lida
Para ver sua obra destruída.
Abasteciam o mundo com sobra,
Mas tinham mais trabalho que mão-de-obra.
Alguns, com pouco esforço e grande capital,
Faziam negócios de lucro monumental;
Outros, condenados a foices e espadas
E a todas essas árduas empreitadas
Em que, voluntariamente, infelizes suavam
Para poder comer, as forças esgotavam;
Outros ainda a mistérios estavam votados,
Aos quais poucos aprendizes eram encaminhados
Que não requeriam senão o impudor,
E sem um centavo podiam impor-se
Como parasitas, chulos, ladrões,
Carteiristas, falsários, magos, charlatães,
E todos os que, por inimizade
Ao honesto labor, com sagacidade
Tiravam vantagem considerável
Da lida do vizinho incauto e afável.
Chamavam-nos canalhas, mas os diligentes,
Excepto o nome, não agiam diferente.
De todos os negócios a fraude era parte,
Nenhuma profissão era isenta dessa arte.
(…)

Assim, o vício em cada parte vivia,
Mas o todo, um paraíso constituía;
Temidos na guerra, na paz incensados,
Pelos estrangeiros era respeitados,
E, de riquezas e vidas abundante,
Entre as colmeias era a preponderante.
Tais eram as bênçãos daquele estado;
Seus crimes tomavam-no abastado;
E a virtude, que com a politicagem
Aprendera bastante malandragem,
Tomara-se, pela feliz influência,
Amiga do vício; por consequência,
O pior elemento em toda a multidão
Realizava algo para o bem da nação.
(…)

Assim, o vício fomentava o engenho
Que, unido ao tempo e ao bom desempenho,
Propiciava da vida as comodidades,
Seus prazeres, confortos e facilidades,
A tal extremo que mesmo os miseráveis
Viviam melhor que os ricos do passado,
E nada podia ser acrescentado.
Como é vã dos mortais a felicidade!
Soubessem eles da precariedade,
E de que, cá em baixo, a perfeição
Não pode dos deuses ser concessão,
Teriam os animais se contentado
Com ministros e governo instalados.
Porém eles, a cada sobrevento,
Como seres perdidos e sem tento,
os políticos e as armas maldiziam,
Enquanto "Abaixo os desonestos!" rugiam.
Os próprios defeitos podiam tolerar,
Mas dos demais, barbaramente, nem pensar!
(…)

A menor coisa que um erro mostrasse,
Ou que os negócios públicos trancasse,
E todos os velhacos gritavam aos céus:
“Se ao menos houvesse honestidade, oh céus!”
Mercúrio sorria ante o descaramento,
Já outros chamavam de falta de tento
Protestar sempre contra o mais amado.
Mas Júpiter, de indignação tomado
E, por fim, irritado, jurou de vez
Livrar a colmeia da fraude. E assim fez.
No mesmo momento em que ela partia
De honestidade o coração se enchia;
Tal como para Adão, se lhes revelaram
Aqueles crimes dos quais se envergonharam,
Que então, em silêncio, confessaram,
E ante sua torpeza coraram,
Como menino de mau comportamento
Que pela cor denuncia o pensamento,
Imaginando, ao ser olhado,
Que os outros vêm o seu passado.
(…)

Vede agora na colmeia renomada
Honestidade e negócios de mão dada;
O espectáculo terminou; foi-se rapidamente,
E mostrou-se com face bem diferente.
Pois tão-somente não se foram embora
Os que gastavam muito a toda hora,
Como multidões que deles dependiam,
Para viver, forçadas, também partiam.
Era inútil buscar outra profissão,
Pois vaga não se achava em toda nação.
Enquanto que orgulho e luxo minguavam,
Graduadamente os mares deixavam,
Não os mercadores, mas companhias.
Fábricas fechavam todos os dias.
Artes e ofícios mortos estão.
Ruína da indústria, a satisfação
Faz com que apreciem o que possuem
E nada mais cobicem ou busquem.
Assim, poucos na colmeia ficaram,
Nem centésima parte conservaram
Contra os ataques de inimigos vários,
A quem sempre enfrentavam, temerários,
Até encontrar algum refúgio forte,
Onde se defendiam até à morte.
Em suas forças não houve mercenários;
Valentemente, lutaram eles próprios.
Sua coragem e integridade total
Foram coroadas com a vitória final.
Triunfaram, porém, não sem azares,
Pois as abelhas morreram aos milhares.
Calejadas de árdua lida e exercício,
Consideraram a comodidade um vício,
O que aperfeiçoou sua moderação
Tanto, que para evitar dissipação
Instalaram se duma árvore na cavidade,
Abençoadas com satisfação e honestidade."

PORQUE É QUE O FRANGO QUER ATRAVESSAR A RUA?

Criança: «Sei lá! É porque sim, prontos!»

Platão: «Porque o seu propósito fundamental é alcançar o outro lado da rua de modo natural e socialmente irrepreensível.»

Aristóteles: «Eh pá, porque é da natureza do frango atravessar a rua, q'é que queres?!»

Descartes: «O frango não é assim tão burro como tu julgas! O bicho pensa antes de atravessar a rua. Então, claramente, sem equívocos, acha que logo existe, 'tás a ver, mano?»

Rousseau: «O frango tem boa índole, mas é muito permeável ao suborno. Assim, a sociedade leva-o a agir contra os seus princípios e o bicho acaba, facilmente, por atravessar a rua fora da passadeira.»

Freud: «A intenção do frango, de pretender atravessar a rua sem olhar para ambos os lados, é um sintoma de insegurança sexual, motivada por algum trauma de infância!»

Darwin: «Ao longo dos tempos, os frangos vêm sendo seleccionados de forma natural. Com efeito, a sua evolução genética fê-los dotados dessa extraordinária capacidade de atravessarem a rua, aptidão exclusiva dos mais fortes, pois dos fracos não reza a história.»

Einstein: «Se o frango quer atravessar a rua ou se o outro lado da rua parece mover-se em direcção ao frango, estando o frango parado, a persepção do movimento contínuo depende do ponto de vista de quem está num lugar de observação estático... Tudo é relativo como é facilmente dedutível.»

Martin Luther King: «Eu tive um sonho. Vi um mundo no qual todos os frangos livres, independentemente das cores, política e da pele, paixão clubista, credo, orientação sexual, et cetera, podem atravessar a rua sem que sejam questionados sobre os motivos que os demovem a atravessá-la.»

Barack Obama: «Os nossos serviços secretos descobriram que o frango que pretendia atravessar a rua era um mártir da Jihad Islâmica. Por isso tivemos de o eliminar numa "operação cirúrgica" antes que ele atravessasse a rua. Naturalmente houve danos colaterais, mas, hoje em dia, um danozinho colateral, até não fica mal de todo!»

Cavaco Silva: «Olhe, eu não vim aqui para debater esse tipo de problemática. Até porque o momento não é o mais adequado. Eu estou aqui mais a minha Maria, como vê, para inaugurar um lar para a terceira idade a convite da Misericórdia local e do presidente da Junta, e não seria correcto pronunciar-me sobre um tema que requer a máxima reflexão e está fora do contexto como deverá compreender.»

Passos Coelho: «Confesso que o meu governo foi o que mais contribuiu para o aumento dos impostos sobre os frangos no activo e reformados, nomeadamente na taxação sobre o número de posturas de ovos, mas tais medidas impunham-se para não hipotecar o futuro dos pintos!»

Manuel Alegre: «O frango é livre, é lindo, é uma coisa, assim, a modos com penas! Ele atravessou, atravessa e irá, sempre, atravessar a rua, porque o vento cala a desgraça, o vento nada lhe diz!»

Jerónimo de Sousa: «A culpa é das elites dominantes, imperialistas e burguesas que pretendem dominar os frangos, usurpar os seus direitos e aniquilar a sua capacidade de atravessar a rua, na conquista de um mundo socialista melhor e mais justo para todos os frangos trabalhadores!»

Catarina Martins: «Porque é preciso dizer, olhos nos olhos, que só por uma questão racista, xenófoba e homofóbica, se leva o frango ao extremo de atravessar a rua. É preconceituoso pretender-se que o frango atravesse a rua contra a sua vontade. É um atentado contra a liberdade de escolha!»

Zézé Camarinha: «O frango atravessou a rua porque foi ao engate. É um verdadeiro macho latino! Viu uma franguinha boa c'mo milho do outro lado da rua, ainda p'cima camone, e pimba, não perdoou! Deu um créu na gaja!...Eh! eh! eh!... Caganda maluco!»

Lili Caneças: «Olha, vocês julgam que sou idiota, é? É natural que tivesse atravessado a rua para se juntar aos outros mamíferos!»

EXTRACTO DE UMA HISTÓRIA INACABADA, II

Desembarquei pela primeira vez em Lisboa numa manhã fresca e cinzenta de Outono. Decorria o ano de 1942.

Há fragmentos de memória que não se desvanecem, assim, do pé para a mão. Um qualquer sentido, umas vezes subtil, outras vezes abrupto, fá-los despertar, regressando momentaneamente ao pensamento. Como se tivesse acontecido ontem.
Lembro-me que soprava dos lados do Cais das Colunas uma aragem com cheiro intenso a maresia. Jamais vou esquecer esta particularidade. Fizera-me recordar as férias passadas no Algarve, entre Agosto e Setembro. Meu pai alugava casa em Albufeira todos os anos. Assim que recebia as rendas de algumas fazendas que tinham soçobrado da loucura perdulária de meu avô, estava pronto para partir com a família. E a família ficava completa com o seu estimado e inseparável cão. Era uma azáfama a preparação da trouxa para o embarque. Ninguém ousava dormir na noite que antecedia o momento mágico da partida. Tentávamos não ser muito efusivos nas nossas manifestações de alegria. O senhor não acarinhava, fosse a que pretexto fosse, esse tipo de emoções, e nós tentávamos não contrariá-lo, não fosse mudar de ideias.
Felizmente para todos, as férias na praia, eram das poucas coisas em que meu pai não se coibia nos gastos. Eram prioridade número um, mesmo que passássemos o resto do ano a usar fatos de cotim e botas com solas cardadas, fizesse calor ou frio.
O odor do Tejo tinha-me reavivado de forma brusca, quase violenta, essas memórias ainda frescas e, de repente, senti uma saudade enorme, todavia insuficiente para me fazer vacilar...

Refugiei-me sob as arcadas do Terreiro do Paço, deambulando por ali ao acaso, deixando as horas passarem sem saber ao certo como gerir a minha nova situação. Lisboa abria-se para mim e eu hesitava, tímido.
Ouvira falar, nas minhas tertúlias com camaradas mais vivaços, de um bairro alfacinha muito famoso naquela época - o Bairro Alto - e resolvi perguntar a quem passava como é que se ia até lá. O interlocutor propôs-me a tomada de um "eléctrico" até ao "largo do Camões". Pensei que com dinheiro contado no bolso o melhor seria ir a pé e esclarecido sobre o percurso a tomar, decidi dar corda aos sapatos e pôr-me a caminho...

Embrenhei-me naquele bairro de cangostas e becos, de estendais com roupa a pingar sabão, de cheiro a pataniscas, vinho e serradura proveniente das tascas galegas, quase uma em cada virar de esquina. Aqui e ali ressoavam-me os ecos de fadistas de ocasião, até a voz inconfundível do "Tio" Alfredo ecoava num qualquer rádio de goelas bem abertas. Cruzei-me com bêbedos vagueando sem nexo, com putas atentando-me com promessas de prazeres do outro mundo, enfim...

Tantas emoções assim de chofre, nessas primeiras horas na capital, tinham-me deixado aturdido e encantado, saboreando tudo o que os meus sentidos pudessem abarcar.
Inebriei-me com o frenesim dos putos a chutarem na bola de trapos, das rameiras a invectivarem-se com verborreia indescritível, da varina a apregoar, com voz estrídula, algum peixe que lhe sobrara da manhã - a ninhada de gatos que pululava, em esfomeado miado, ao seu redor - e continuei a caminhar...

Exausto mas estranhamente feliz, esgueirei-me por uma viela escura, a cheirar a vómito e a mijo, e ali verti águas, esquecendo momentaneamente o fedor nauseabundo.
Não senti remorso nem receio. Pensei como era boa a liberdade. Era, definitivamente, "o primeiro dia do resto da minha vida"...

O CENTRO DE SAÚDE DA FREGUESIA ONDE MORO

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Hoje, desloquei-me ao centro de saúde da freguesia onde moro. Tenho 90 anos. Disseram-me que durante os meses de Verão não aceitam marcações de consultas por telefone.

Não vale a pena ligar para o centro de saúde da freguesia onde moro, nos meses de Verão. Os meses de Verão são para respeitar, pronto e ponto!

Por conseguinte, peguei nas minhas pernas que, apesar do desgaste dos anos e um pouco trôpegas, levaram-me ao centro de saúde da freguesia onde moro...
A pessoa que me atendeu, a que enfaticamente se dá o nome de "médico(a) de família", perguntou-me de que me queixava:

«Senhora Doutora, doi-me aqui, ali e acolá. Além disso tenho tonturas, urino aos pingos, tenho zumbidos nos ouvidos, sinto náuseas e olhe: não sinto prazer em viver assim.».
Enquanto me escutava, ou penso que me escutava, perguntou-me que remédios tomava, mediu-me a tensão arterial, gabou-me a provecta idade, receitou-me mais comprimidos e requisitou exames, enfim, a regra a que me fui habituando ao longo dos meus já longos anos, e disse-me para me deslocar ao centro de saúde da freguesia onde moro e marcar nova consulta assim que tivesse o resultado dos exames na mão.
Assim fiz, passados que foram 30 dias, mais dia menos dia, após a marcação da consulta e com os exames na mão.
Chegada a minha vez de ser atendido, depois de mais de três horas de espera, a pessoa que me atendera, perguntou-me de que me queixava, mediu-me a tensão arterial, gabou-me a provecta idade, e quis saber se eu estava a ser medicado:

«Olhe, senhora Doutora, as queixas são recorrentes, umas dores aqui e ali, um pouquinho acolá. As tonturas persistem, não paro de urinar aos pingos, os zumbidos nos ouvidos pioraram, mantêm-se as malditas náuseas e o desprazer da vida.

Aqui tem os exames que pediu. Quanto a remédios estou a tomar aqueles que costumo tomar e outros tantos que me receitou». Ao que retorquiu não recordar o que me tinha receitado...
Enquanto mirava e remirava os exames, não sei se com atenção, disse-me para ir ao centro de saúde da freguesia onde moro, no dia seguinte, com o nome dos remédios que me tinha prescrito. Assim fiz.
Agarrei nas minhas pobres pernas e fiz o percurso que elas conhecem tão bem, para mostrar à pessoa que me tem atendido, o nome dos remédios que me receitou. Assim que me atendeu, passadas que foram mais de três horas de espera, veio com a conversa recorrente: de que me queixava, mediu-me a tensão arterial, gabou-me a provecta idade e quis saber que remédios estava a tomar. E eu, é claro!...
Nota final: Esta cena é pura ficção, não é para levar a sério, por 'mor de Deus!

EROTISMO E PORNOGRAFIA

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Embora sem certeza científica, crê-se que na idade da pedra lascada a indumentária ainda não fazia parte dos nossos usos e costumes. Tampouco se sabe ao certo quando é que o uso de roupa  passou a ser uma rotina social. Associado à dispensabilidade de usar roupa, também não existia fosse o que fosse para preencher as horas de ócio dos seres vivos. Nomeadamente os de quatro patas. Sim, porque naqueles tempos o Homo sapiens idaltu erectus bípedus era uma quimera! Assim como falar acerca das coelhinhas da Playboy, das notícias do Correio da Manhã (mil vezes as coelhinhas!), comentar as baboseiras do Passos Coelho (um milhão de vezes as coelhinhas!), ou até mesmo as da astróloga Maia (incomensuravelmente as coelhinhas!) seria algo inconcebível para aqueles tempos remotos. Daí que, com tanta limitação de meios lúdicos e tanto tempo disponível para o descanso - não nos esqueçamos que a agricultura ainda não tinha sido inventada; os bichos eram recolectores - , tudo o que mexesse pazia o que fodia, ferdão, isto é, perdão: fazia o que podia e a mais não era obrigado.

Pode-se inferir assim, a grosso modo, que o erotismo precedeu a pornografia. Seguindo a linha evolutiva ou evolucionária desses hábitos ancestrais chega-se à antiguidade clássica em que se colocam algumas questões quanto ao desregramento de costumes dos nossos avitos gregos ou até mesmo sobre as pretensas relações eurogenitais entre a senhora Merkel e Nicolas Sarkozy (penso que se escreve orogenitais, mas não tenho a certeza) ou, quiçá, sobre a alegada necrofilia dos egípcios e os grandes bacanais dos romanos ou ao debate secular sobre o sexo do Dom Afonso Henriques. Quanto ao nosso primeiro rei, houve alguém que quis exumar o seu corpo, mas uma insignificante ministra da cultura - no tempo em que ainda havia alguma cultura - imaginem agora - , temendo que se descobrisse algo que comprometesse a sua sexualidade, desautorizou a exumação dos restos mortais de Afonso I.
Bom, mas a pergunta que deixo no ar é a seguinte: será que conhecemos a diferença - quanto a mim subtil - entre erotismo e pornografia? Vejamos as seguintes respostas (peço desculpa, mas só encontrei duas pessoas laicas que se prontificaram para responder a esta questão, afinal tão questionável ( passe a redundância):


Pistácio Prepúcio, professor de História Antiga, reformado: «Hoje, sem embargo dos meus vastos conhecimentos sobre um tema tão apaixonante, vou dar-lhe exemplos da nossa História que poderão confirmar que a sua tese é falsa e existe, com efeito, uma diferença abismal entre os dois conceitos. Repare nos amores de Pedro e Inês. Coisa mais linda! Indubitavelmente, um caso erótico, na minha modesta opinião. Outro caso, o dos enrolanços de Leonor Telles com os espanhóis foram pura pornografia, uma vergonha nacional! Mas, se quisermos avançar um pouco mais, podemos referir o caso da corte que se baldou para o Brasil por altura das invasões napoleónicas. Julgo que houve nesta decisão da Família Real um pouco de sadomasoquismo de cariz erótico. Já para não falar sobre a batalha de Trancoso: pornografia pura e dura, até doeu!... Não acha?»


Morgado Morcão, ex-deputado do CDS: «Se me fizesse essa pergunta aqui há uns anos, nem me dava ao trabalho de responder à sua provocação. Já me bastou ter de engolir, em seco, aquele poema vergonhoso da Natália Correia, e as porcarias que o Correio da Manhã, inventou sobre mim, credo! Mas, para não ser sempre apelidado de reaccionário, aqui tem a minha opinião pessoal - passe a redundância.

Então é assim: Acho que o erotismo é uma coisa a modos como fazer um filho através do acto sexual, mas mesmo, mesmo, somente isso, só procriação com a graça de Deus Nosso Senhor e nada mais! Pornografia, meu caro, tem que se lhe diga, é muito mais complexa! Já passou alguma vez pela rotunda do Marquês? Os testículos do leão, pá, aquilo é vergonhoso para o país e até insultuoso para o próprio Marquês, não lhe parece? É pornografia, ou não é? Use uns binóculos e, depois, venha falar comigo!»


Dado que só encontrei estes dois testemunhos que em nada abonam em favor da minha tese, embora não questione a seriedade das suas intervenções, resta-me deixar no ar a permanente dúvida em relação à existência, ou não, de distâncias incontornáveis entre o erotismo e a pornografia. O espírito das pessoas também não contribui para esclarecer esta dicotomia entre dois conceitos cujas fronteiras se esbatem onde quer que dois seres se encontrem para uma boa cópula. Quem diz dois, diz três - o famoso "ménage à trois" - ou mais, sei lá, um comboio, uma ambulância, o maximbombo do amor, uma batalha campal, et cetera.

SERVIÇO DE URGÊNCIA

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23H45 do dia 03 de Setembro de 2008:

 

Entro no serviço de urgência do hospital com um homem visivelmente debilitado. Sofre de náuseas, vertigens e uma pressão inusitada na cabeça e nos ouvidos.
Peço uma cadeira de rodas para o sentar, ao que prontamente dois seguranças correspondem. Sinto-me impotente para lhe aliviar o sofrimento.
Não demorou muito a ser atendido na triagem: de que é que se queixa, as drogas que toma, desde quando é que se sente assim, medição da tensão arterial, enfim, os procedimentos habituais em iguais circunstâncias, presumo.

Não é a primeira vez que corro com ele para as urgências e penso que não há-de ser a última, se bem que, quando para lá caminho, fique com a impressão de que já de lá não sai. A idade não perdoa estas 'recaídas'...
«É familiar?»

«Sim, sou filho!»...

Acompanho-o, colam-me a etiqueta de acompanhante. Vai para a observação...

Um corredor, várias salas, macas com doentes, macas vazias, cadeiras de rodas e o cheiro característico a ar condicionado misturado com formol. Qualquer odor, bom ou mau, comunica-nos sempre algo. Os odores enviam mensagens óbvias em diversas circunstâncias; noutras requerem descodificação. Os cheiros de um hospital, causam-me invariavelmente desconforto. Talvez, resultado de uma experiência menos boa em ambiente hospitalar aquando menino. Curiosamente ficaram-me fragmentos, nada agradáveis, desse episódio da minha infância...

 
Um sujeito, presumivelmente a ressacar da sua toxicodependência, lança impropérios e pede desesperadamente aos técnicos de serviço que lhe dêem uma "injecção" de qualquer coisa. Algo que eu reclamaria, agora, a todos os santinhos, com a intranquilidade própria de quem quer a todo o transe alguma coisa para aliviar o tormento do homem a seu lado.
Perpassam-me ideias confusas, algumas absurdas; são as pessoas, os olhares, o estado de sofrimento e ansiedade de meu pai, os gemidos aqui e ali, o vai e vem dos médicos e enfermeiros, a mulher sentada numa cadeira de rodas que me pergunta se sou filho daquele senhor e que me diz estar ali, vai para muitas horas; que é de longe e está sozinha; que quer ir para casa e algo mais que balbuceia...
Uma auxiliar de enfermagem está quase a ficar passada com a cena do homenzinho presumivelmente ressacado; lê-se no seu olhar reprovador. Vocifera qualquer coisa entre dentes a que não presto atenção, tão absorto que estou com o estado de me pai.
Um homem andrajoso, com farta e suja cabeleira, passeia-se tranquilamente entre o corredor e as salas de observação. Pelo aspecto, estou certo de que não pertence aos quadros do hospital. Nem sei que raio de estatuto possa ser o seu, para deambular por ali. Entretém-se a devorar iogurtes, supostamente postos à disposição dos doentes e funcionários de serviço às urgências durante a noite. O tempo passa...

 

2H45 do dia 4 de Setembro de 2008:
Meu pai continua a desesperar na maldita cadeira de rodas. Não sente os pés, os braços pesam-lhe, ameaça bolçar o vazio que lhe resta no estômago, a cabeça rebenta-lhe, geme, adormece e volta a gemer. As queixas recorrentes. Uma médica, sorridente, olha-me nos olhos, pergunta-me há quanto tempo ali estamos, mira-me o autocolante, está lá indicada a hora de acesso às urgências:

«Estamos aqui há 3 horas, doutora!» -  e ela sorridente; um sorriso cansado, aliás. Por isso não suficiente para me tranquilizar.

«Só 3 horas?!» - Olha para outro doente, o mesmo gesto, o mesmo sorriso, manda-o entrar, está lá há mais tempo para ser observado.

Uma acompanhante de outro doente, admirada com o facto de eu ter referido que estava ali há 3 horas, ironiza baixinho:

«E nós estamos aqui há 10!»

Pois é, esta história de clínicos tarefeiros, pagos à hora, dá maus resultados: é preciso que as horas de turno se esgotem, sem grandes sobressaltos - João Semana é um mito...
O homem andrajoso passa ao nosso lado e deixa um rasto fétido. Tira mais dois iogurtes, enfia um num bolso das calças e o outro espreme-o alarvemente para dentro da goela. Entra numa sala, conversa com um doutor e sai por outra.
O eventual toxicodependente vomita gritos intermitentes de agonia, agride verbalmente todos a torto e a direito e passeia-se numa cadeira de rodas, impedindo a circulação das macas com doentes. A tal auxiliar de enfermagem afasta-o do caminho, atira-lhe ameaças vãs e as horas continuam a passar...

 

3h30:
O meu pai é chamado:

«De que se queixa?»

«Sofre disto, daquilo e daqueloutro»

Análises ao sangue, ECG, RX ao tórax e não sei que mais. Outra espera interminável. Após o ECG:

«Sr fulano então, sente-se melhor?»

«Qual quê, são os noventa anos, sabe?... Que rica maneira de festejar a minha data de aniversário!»

«Faz 90 anos hoje?!...Ah, nem parece! Parabéns, senhor!»

«Obrigado, mas preferia não padecer desta aflição!»...
Dificilmente, consigo permanecer lúcido a esta hora da noite...

 

4H00:
Vou lá fora ao guiché das urgências, peço por obséquio para me trocarem uma nota de 5 euros. Preciso de tomar um café ou dois. A maquineta, ali, à mão de semear, um café que me restitua a espertina, me reponha alguma energia. Indiferentemente, a funcionária responde-me que não tem trocado. Uma miragem, o meu café; que raio de solidariedade!...
Regresso para junto do meu pai, mais uma espera infinita. Dormita e acorda com a mesma pergunta ao longo destas horas:

«Quando é que sou visto pelo médico?»

«Não tarda, pai, não tarda...»
RX ao tórax...mais uma espera. Um fulano esvai-se em sangue, supostamente do baixo ventre. Levanta-se do seu lugar e vai aos lavabos. Na cadeira um jornal tingido de vermelho, empapado. Impróprio para mentes fracas. Não para a minha, que jaz meio entorpecida a estas horas...

 

4H30, por aí:
O resultado dos exames tarda. Aguardamos no corredor...Entre o dormitar e o sobressalto, o meu pai solta:

«Diz-lhes que o mal está dentro da minha cabeça, dos meus ouvidos! De nada me servem esses exames! Sinto-me muito mal, mesmo, sinto a cabeça rebentar, o meu corpo pesa que nem chumbo!»

«Acalme-se, pai, vamos lá»

Piorou! A ansiedade parece ter atingido o ponto de ruptura; digo a um enfermeiro que o meu pai não está nada bem, o enfermeiro diz à médica que o meu pai está com mau aspecto, a doutora ordena que o deitem numa maca: soro, fios ligados ao peito e algo injectável para o acalmar... Novo ECG para confrontar medições, a médica suspeita de enfarte, suspeita que não se confirma, após nova medição...

 

5H30, mais coisa menos coisa:
Meu pai dormita e acorda, diz-me para lhe pôr a cabeceira da maca mais elevada. Está mais sereno, com melhor cor. A médica está a acabar o turno de serviço e passa a bola a outro colega. Diz-me:

«O seu pai vai melhorar. Ele tem muito miminho não tem?»

Anuo, com alguma dificuldade em aceitar a evidência. O meu pai fica muito nervoso quando tudo lhe corre mal. Pensa que vai morrer. É o seu temperamento, a sua maldita idiossincrasia, face à mais ténue contrariedade.

O médico substituto lê o resultado dos exames e diz-me que está tudo bem. Receita uns comprimidos e deseja as melhoras. Tem a certeza que tudo aquilo não passou de um susto. Aconselha repouso absoluto.

 

São quase 7H00:
Saímos do hospital. Passamos pela mulherzinha solitária. Vai apanhar o autocarro.
Do presumível toxicodependente nem rasto.
Está uma manhã de chuva morrinhenta e um pouco fria. Saímos daquele purgatório, esgotados por razões diferentes.
Aconteceu no serviço de urgência do hospital Fernando Fonseca.

UMA ESTÓRIA COM MUITO SANGUE

uma estória com muito sangue.jpg

Um homem mau pega num telemóvel e digita um número. Alguém atende:

Homem mau:
- «Boa tarde, daqui fala o estripador de Lisboa e telefono só para informá-lo de que acabei de matar a sua esposa.»
Do outro lado:
- «O quê, como disse?!...Quem fala?»
Homem mau:
- «Parece-me que fui bem claro! Sou o estripador de Lisboa e assassinei a sua mulher há minutos!»
Do outro lado:
- «E foi onde?»
Homem mau:
- «Foi em sua casa.»
Do outro lado:
«E como foi?»
Homem mau:
- «Matei-a com uma dúzia de facadas.»
Do outro lado:
- «Sangrou muito?»
Homem mau:
- «Um bocadinho, fiquei todo salpicado!»
Do outro lado:
- «E a alcatifa?»
Homem mau:
- «Ficou toda ensanguentada, o que é que esperava?!»
Do outro lado:
- «Você faz ideia de quanto me custou a porra da alcatifa?»
Homem mau:
- «Lá por isso eu pago-lhe a limpeza da merda da alcatifa; não é preciso ficar para aí todo abespinhado, homem!»
Do outro lado:
- «Sempre ajuda! Se você pensa que tenho para aqui alguma árvore das patacas, desengane-se!»
Segue-se um momento de pausa no diálogo e o homem mau prossegue:
- «Pensando melhor: não acha ilógico ser eu a pagar, depois de lhe ter comunicado o assassinato da sua mulher?»
Do outro lado:
- «E você ainda acredita na lógica das coisas? Não repara no que se passa ao seu redor, mais a mais, confessando ser um assassino da pior estirpe? Fico com a clara impressão de que não passa de um amador!»
Homem mau:
- «Visto desse ângulo... e quanto ao amadorismo, deixe-me dizer-lhe que sou credenciado e tenho boas referências. Ademais, fazendo jus a um avito familiar, não menos famoso!»
Do outro lado:
- «Com tão excelentes alusões, ao menos podia ter usado uma pistola com silenciador. Teria sido uma morte mais limpa e rápida e escusava de incomodar a vizinhança; ela deve ter gritado bastante, coitadinha! Não sou especialista, mas presumo que bastava apontar-lhe directamente ao coração e teria evitado a porcaria e, quiçá, o sofrimento que causou!»
Homem mau:
- «De facto, desta vez, não ponderei os prós e os contras. No entanto, deixe que lhe diga que, habitualmente, não uso armas de fogo; e não dramatizemos tanto esta estória porque a sua esposa, afinal, só gritou um bocadinho, não foi nada de especial, fique tranquilo. Queira aceitar, desde já, as minhas desculpas e aproveito o ensejo para lhe manifestar as minhas mais sinceras e profundas condolências...»
- «Ah, como quer que lhe pague a limpeza da alcatifa? Aceita transferência bancária ou mando-lhe um cheque?»

EXTRACTO DE UMA HISTÓRIA INACABADA, I

pai7.JPG

Cansado de viver sob a alçada austera de meu pai, e na incerteza quanto ao que o futuro me reservava, resolvi zarpar até à capital. Fartei-me daquela cidadezinha de interior, de patrõezinhos preconceituosos que me negavam um posto de trabalho, temendo que o meu apelido lhes pudesse causar engulhos.

Perante tanta má vontade, desisti de andar a "esmolar" de porta em porta. Era tempo de refazer a minha vida noutro lugar, algures onde pudesse passar despercebido, onde dispusesse de mim próprio, sem grilhetas nem estigmas.

Apanhei o último comboio, levando comigo, apenas, a roupa que trazia no corpo, algum dinheiro que minha mãe tinha providenciado, e a vontade indelével de esquecer tudo o que ficara para trás. Não guardei tristezas nem rancores. Não deitei culpas a meu pai pelos meus insucessos, nem à mulher que me pariu, pela bonomia excessiva, em face dos destemperos do marido com relação à nossa educação; muito particularmente à minha, pois um infeliz acaso quis que saísse primogénito...Lembro-me ainda que, por essa infeliz razão e outras, fomos educados por forma a sermos comedidos, de acordo com regras de contenção e sobriedade impostas por meu pai, não obstante pertencermos a uma família pequeno-burguesa. Por exemplo, um dos meus irmãos, em pleno pino do Verão, pediu-lhe que mandasse fazer um fato mais leve para suportar melhor a canícula. Resposta imediata e sem apelo: a escolha dos tecidos, dos cortes e a altura apropriada para encomendar fatos, ou lá o que fosse necessário, era da sua exclusiva competência e não de um "imberbe" qualquer, enfatizando, bem, a palavra "imberbe". Meu irmão, que também era difícil de assoar, escolheu andar todo o santo Verão com uma batina de Inverno, de fazenda grossa, usada no colégio e a suar as estopinhas. Não se tivesse armado em cuco, pois então!
Recordo, como se fosse hoje: acabara de sair da adolescência, com as necessidades inerentes a essa mudança em todos os sentidos. É claro que dependia muito dos tostões que minha mãe sorrateiramente me metia no bolso, presumo que com algum receio de ser descoberta e também - garanto - com muito sacrifício. Isto porque meu pai nunca teve o costume de dar-nos dinheiro ou agraciar-nos com mimos. Pelo contrário, geria a economia do lar, destinando dinheiro para isto ou para aquilo, com metódica parcimónia; hábito que lhe ficou, em face dos maus exemplos de esbanjamento de bens de família por parte de meu avô paterno, nomeadamente dádivas "generosas" à Igreja e outros gastos desregrados com o jogo e sabe-se lá que mais. O seu filho herdara a gestão de uma casa quase arruinada e, associado a essa triste herança, o corte de relações com a família paterna por ter cometido o "sacrilégio" de se perder de amores por uma campesina analfabeta - a senhora, minha mãe...
Outro paradigma da personalidade agreste do meu progenitor, este de carácter anti-religioso, foi o facto de um dia eu ter aparecido em casa com uma gravura de "Nossa Senhora" que uma professora bem intencionada, mas desconhecedora do seu azedume contra a Igreja, tinha guardado dentro de um dos meus livros. Foi o suficiente para ele ter-se deslocado propositadamente ao colégio para travar-se de razões 'filosóficas' com a infeliz criatura.
Épocas natalícias, pascais ou outras celebrações de carácter religioso, eram festas que passavam sempre ao largo da nossa casa. Jamais nos confessou o porquê de tão obsessiva intolerância. Presumo que tivessem sido ressentimentos contra a insensatez de meu avô, em face das ofertas excessivas aos clérigos...
Com vontade de apagar todas estas más recordações parti, um dia, sem saber o que me esperava, mas com uma certeza: um desejo inabalável de fugir. Sair daquela casa para sempre. Libertar-me, definitivamente, da persistente dúvida de ficar ou partir...

"CONSTANTINO, A FAMA QUE VEM DE LONGE!"

Há quase meio século Portugal vivia mais uma crise profunda. Podemos compará-la, se quisermos, com aquele anúncio velhinho ao brandy Constantino: "A fama que vem de longe", topam? A nossa crise também é afamada e vem de longe.

As gerações mais velhas devem estar recordadas. Portugal passava por uma indefinição económica e cultural de tal modo confrangedora, a ponto de se tornar num dos países mais atrasadinhos do mundo. Não quero, com isto, dizer que a crise de que vos escrevo só tenha existido desde então, nada disso! A velhaca já existia antes, mesmo muito antes! Penso até que a sua génese perdeu-se no tempo...

Contudo, debrucemo-nos sobre a crise, da qual subsiste alguma percepção histórica e que felizmente já passou, pois parece que, hoje em dia, tal indefinição está definitivamente ultrapassada, podendo até afirmar-se que Portugal deixou de ser um dos países mais atrasadinhos do mundo, passando a ser, efectivamente, o país mais atrasadinho do mundo.

Alguns viciados em círculos viciosos especulam sob a eventual criação do quarto mundo, uma vez que o nosso país já não tem cabimento no terceiro, o que não é de admirar.
Este estado de graça, o qual uma pessoa iluminada apelidou, e em boa hora, de "milagre económico", deve-se fundamentalmente ao esforço do governo "pafista" na privatização total de Portugal; nomeadamente ao empenho, espírito de missão e sentido patriótico do senhor ministro da economia.

Todo o trabalho esforçado da (cu)ligação governamental (bem haja, já agora!) tem como base o "empreendedorismo" em que se pretende que todos os portugueses sejam "empreendedores", como é óbvio. Para o efeito, deixa-se de trabalhar por conta de outrem, passando a relação patrão-empregado a não fazer qualquer sentido num futuro muito próximo. Trocado por miúdos, cada português passará a usufruir do estatuto de patrão de si próprio, o que na minha humilde opinião é fixe.

Medida de longo alcance, a curto prazo, a privatização total visa eliminar radicalmente o sector público da economia bem como a própria administração, deixando o país em autogestão. Sempre nos desenrascámos sozinhos, não precisamos de ajudas de custo! Parafraseando alguém, sem saber quem: "Metam lá os vossos euros no olho do cu, suas couvinhas de Bruxelas!

Novecentos anos de história é pouco?! Mesmo que tenhamos a perfeita noção de que são novecentos anos a dormir à sombra da bananeira (o termo vem de algumas qualificações como, "país de bananas", ou "república das bananas"), com alguns laivos de glória épica. Ainda assim é obra!

Segundo os mentideiros do costume, o grande objectivo é acabar definitivamente com a balança de pagamentos e transferir a dívida pública para as dívidas privadas dos cidadãos-patrões de si mesmos, topam?

Todavia, o governo quer ir mais longe do que a "troika" vampirina e faz muito bem! A coisa a dividir por todos custa menos ao Estado e deixa os contribuintes mais aliviados, o que representará uma mais valia para as contas públicas. Quer dizer, privadas de uns poucos, crónicos, mas bons...malandros (as minhas mais sinceras desculpas ao Mário Zambujal por me surgir este aproveitamento abusivo do seu célebre livro "Crónica dos bons malandros"; o seu a seu dono...
Bom, mas o primeiro passo desta política revolucionária será a reabertura de um concurso para adjudicação do sector do ensino. Parece que a melhor proposta de rentabilização do sector, a médio prazo, acaba de surgir de alguns grupos ligados a holdings chinesas, os quais pretendem assaltar outros ramos de actividade, tais como a saúde e as águas engarrafadas - nomeadamente as gaseificadas.

O presidente chinês não confirma nem desmente, mas circulam rumores de que terá deixado um recado ao governo do Passos Calimero: «sim senhol, mas quelemos substituil o poltuguês pelo mandalim nas escolas pala que possamos concletizal um glande (não confundir com prepúcio que, como todos sabem, era um garruço que cobria a cabeça de um famoso filósofo chinês, um confucionista do caraças) negócio da China.» 

No que concerne ao sector da saúde, os dados do INE revelaram resultados surpreendentes, no primeiro semestre deste ano, graças aos esforços que têm vindo a ser desenvolvidos pelo Ministério da Saúde - sob a tutela de um banqueiro muito conhecido - para o reforço da sua privatização.

A empresa asiática The Private Equity Health Care Capital, fundada por um ex-Goldman Sachs e negociador da Opus Day Stealing Investment Management, está entre os investidores estrangeiros interessados no "negócio" da saúde no nosso país. Mas cuidado com os mexicanos! Os gajos querem alterar a dieta alimentar nos hospitais, caso venham a investir nesta actividade. Será que ainda vamos ver os internados no Hospital da Luz a comer burrito mix temperado com chili em pó picante? Aguardemos...

Outro sector que também poderá facturar muito é o da Justiça, cedido para exploração a uma ministra nascida no bairro da Picheleira e muito dada a quezílias sem pés nem cabeça. Algo que ficará para sempre registado nos anais (não confundir com o étimo ânus. Os adjectivos de dois géneros prestam-se a confusões chatas) da estória é a célebre frase proferida após uma visita ao estabelecimento prisional do Chilindró, no qual a senhora ministra teria dito num dado momento: «Acabou o tempo da impunidade! Doravante quem for apanhado a gamar uma tablete de chocolate no Continente, vem aqui parar!», ou ainda noutro dado momento: «Paqué que serve o Citius ou o Citus ou o Sítios ou lá o que é essa merda? Não funciona, não funciona, prontos, olhó caralho (eh pá, desculpem lá, mas aqui não dá para fazer 'pi' e a gente sabe que a ministra é muito desbragada)!»

As forças de insegurança e as forças desarmadas, sectores muitos sensíveis em todo este processo de privatização, poderão vir a ser rematados em leilão por um consórcio liderado por um produtor de filmes de Bollywood, Aditya Aja Ananda Chanda (é nome feminino, mas fonte duvidosa garante que é macho, embora com alguma reserva) de que faz parte um sucateiro muito famoso, natural da região de Aveiro que tudo leva a crer, irá co-gerir o negócio, a partir da prisão, nos próximos anos.
Um general de vinte estrelas, reformado e a pingar do nariz, explicou numa entrevista à TVI, que esta medida só vai aumentar o clima de mal estar entre soldados e soldadas. O governo espera poder contornar esta dificuldade, tomando medidas concretas, inclusive abstractas, que possam ir no sentido de melhorar o rancho nos refeitórios dos quartéis e criar camaratas unissexo, até à sua extinção.
Relativamente ao processo de insolvência dos ramos das forças desarmadas, já numa fase de irreversibilidade, o juiz presidente do Supremo Tribunal Administrativo pretende nomear uma equipa de gestores de insolvência para o efeito, sendo quase certo que as figuras mais indicadas para ocupar aquele cargo venham a ser o Ministro da Falta de Defesa e o Chefe do Estado-Maior-General das Forças Desarmadas, os quais se ocuparão, prioritariamente, do processo de liquidação das massas e massinhas insolventes, nomeadamente o esparguete, o macarrão, as estrelinhas, as letrinhas e as pevides, entre outras variedades.

A própria Presidência da República será vendida, a preço de saldo, a uma empresa especialmente criada para o efeito, uma PPP, cujo presidente do Conselho de Administração será o actual PR, tendo um Conselho Fiscal constituído e presidido, exclusivamente, pela esposa.

Como resultado destas medidas, prevê-se que Portugal apresente uma situação económica ímpar à escala global, com taxas de inflação brutais, as quais não constituirão motivo de preocupação para a massa trabalhadora, uma vez que esta massa vai ser liquidada.

A agricultura é outro sector que poderá vir a recuperar o sucesso dos primórdios da nossa História. O governo encomendou um estudo ao Ministério da Agricultura e do Mar no sentido de estudar - claro está - a viabilidade de reimplantar o Pinhal de Leiria, desta vez com eucaliptos. Passaria, então, a chamar-se Eucaliptal de Leiria. Aliás até soa melhor; pinhal é feio c'mo caraças e também demora muito tempo a crescer! Para o efeito, espera-se tirar alguma lição e ilação sobre a importância desta medida ancestral para a economia nacional e tornar clara, de uma vez por todas, a indefinição acerca da autoria da ideia de mandar plantar o estupor do pinhal. Se foi o Dom Dinis ou o Dom Afonso III. Quem melhor saberá esclarecer esta dúvida quase tão antiga como a própria História Pátria, senão o Professor José Mattoso?

Relativamente ao mar, depois de ficarmos sem Armada, sem frota de pesca, sem bacalhau, sardinhas e carapau, podemos negociar a venda das duzentas milhas náuticas aos espanhóis, coitadinhos, têm tão pouca água!

Penso que este panorama melhorará ainda mais com a nossa saída das ligas europeias e a passagem automática às ligas africanas. Tudo depende do resultado das eleições internas dentro do Partido Berdadeiramente Xoxialista (PBX).
E pronto, se me esqueci de adicionar alguma coisinha a este curto (?!) relambório, peço muita desculpa, mas não é motivo para me demitir. Se há ministros que não se demitem depois de fazerem tanta merda, pessoalmente também não vejo motivos para o fazer.

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